Passion cleanser
Eremita
Tatiana é cada vez mais uma miragem. Ou a miragem de uma miragem, para ser mais exacto. Mas imaginemos o encadeamento de mimo em que o dedo acusatório que ele aponta a um casal que resiste por comodismo passa a um polegar de aprovação quando o casal sai de cena e surgem duas personagens a representar um amor que não se concretiza e assim se perpetua. Convenhamos que o mimo é parvo - e não apenas por ter sincronizado ao gesto da sua mão um daqueles sorrisos demasiado expressivos num rosto pintado. Porque nada nos garante que o comodismo do casamento censurado não seja também o que sustenta o amor impossível; que se há medo da solidão a manter duas pessoas juntas, não exista também medo do vazio quando acaba o amor impossível; que o hábito de já não ser amado pouco se distinga do de nunca ter sido correspondido.

Esta noite pensei na fugaz Mila Jovovich que um dia iluminou Ourique. A imagem que se segue não é elegante e pode transmitir um rancor que na verdade já não me anima e uma misoginia que preferia explorar em consciência de um modo mais subtil, mas tem uma exactidão que me parece conseguida: quando penso naquele clone da Jovovich é porque estou a fazer o reset do sistema, como se tal imagem estivesse para a paixão como o gengibre para o sushi. Pode ser assim tão simples? Vamos acreditar.
