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OURIQ

Um diário trasladado

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22
Fev11

Try again. Fail again. Fail better.


Eremita

 

 

É uma conhecida expressão de uma peça de Beckett. Por coincidência, deparei-me com ela por duas vezes em menos de dois dias. Primeiro, num texto de Slavoj Žižek, na curiosa colectânea The Idea of Communism, em que intelectuais jogam ao "quem consegue ser menos críptico do que Badiou sem perda de informação?", numa espécie de trip colectiva pós-crise financeira. E depois ouvi-a no cineclube, a sotto voce, para pontuar uma qualquer cena de um qualquer filme. Acredito nas coincidências, na medida em que a coincidência pode ser o resultado de uma acuidade despertada pelo primeiro estímulo. Ou seja, acredito no valor da coincidência como prova de que o estímulo nos marcou. E não há dúvida de que as agruras dos últimos tempos, os lenhos nas pernas provocados pela vegetação autóctone das arribas vicentinas, a humidade que por lá se entranhou nos ossos, a falta de higiene inerente a uma errância de caçador recolector (uma espécie de dirty - mesmo - little secret a que nunca ninguém se refere), aliada à altercação com o Judeu, que me deu as chaves da sua viatura mas à custa de uma ferida por sarar e à mercê de quem que em breve lhe jogará sal grosso para cima com o requinte da vitimização e até uma fugidia uma alusão ao Holocausto (querem apostar?), para já não falar do laconismo com que recebi a confirmação do namoro de Tatiana com um forasteiro (I e II), que deve até ser artista, enfim, tudo isso pede algum estoicismo e confesso que tenho estado a ouvir o Saint Crispen's Day Speech em loop no meu ipod, mas por vezes uma expressão é superior à prosa torrencial na capacidade de cristalizar o momento e, como um cata-vento, apontar o caminho. Try again. Fail again. Fail better. Parece perfeito.

 

Instala-se porém uma dúvida: em que contexto foi esta frase proferida? Duvido cada vez mais das citações avulsas. Pode ser um princípio de paranóia, mas sinto-as como armadilhas que nos farão cair no poço interminável da nossa ignorância, castigando-nos pela preguiça, o seguidismo, o ar diletante sem sustentabilidade. Try again. Fail... está bem, mas quem diz isto? O que lhe acontece? Casa no fim da peça? É feliz? Realiza-se profissionalmente? Tem um instante de coragem suficiente para o reabilitar de uma vida de cobardias? Algum momento absolutamente redentor que não inclua a adesão súbdita a uma religião? Tem filhos? Salva o neto de se afogar num riacho e depois conta-lhe uma história de improviso mas superior à dos Grimm? Morre por uma ideia? E a ideia, era boa?

 

A frase surge na peça Worstward Ho, que é de 1983. Beckett tinha 77 anos. Imagino o pior, pois o magnífico rosto do velho Beckett, que fez as delícias de tantos fotógrafos, sempre me pareceu uma máscara colada ao crânio. Preciso urgentemente de ler esta peça. Se encontrarem um vídeo ou pdf gratuitos, façam o necessário para que cheguem a Ourique, por favor.

 

PS: o Ouriquense caminha a passos largos para se tornar no blog mais enclausurado de que há memória. Creio que até já ultrapassei certos colegas, dos tempos em que fazia ciência e lia artigos científicos. Mas como o Ouriquense vai crescendo para todos os lados, os links funcionam como um esqueleto interno, só que feito de fios de baba, como se isto fosse aquela massa amorfa e nojenta que surge delírios de Matthew Barney.

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