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OURIQ

Um diário trasladado

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12
Jan11

Metabloguismo*


Eremita

 


 

Como é do conhecimento de todos, Álvaro de Campos dizia que as cartas de amor são ridículas, não o acto de as escrever - aliás, um dos versos do poema esclarece que ridículos são aqueles que nunca escreveram cartas de amor. Escrevi algumas antes de 1996 e depois parei. Os motivos são vários e incluem a degenerescência progressiva da minha caligrafia. Infelizmente, incluem também a adesão a um género que hoje me parece desprezível: o género da escrita de amor online. Creio que é uma novidade; em todo o caso, a massificação do recurso a um público vagamente anónimo para este tipo de discurso não terá mais de 10 anos; talvez em alguma remota província chinesa de uma dinastia antiga se praticasse algo parecido num jornal de parede, mas é apenas uma possibilidade académica.

 

Na escrita de amor online sucede o contrário daquilo que Campos descreve: só não são ridículos aqueles que não a praticam, sobretudo se não for por info-exclusão ou falta de amor. A escrita de amor online não é a versão moderna da carta de amor, mas o seu inverso. A carta de amor é privada e um post é público. O autor pode jogar com a ambiguidade, tratar a Beatriz por W., encriptar a mensagem com métodos sofisticados, generalizar até em forma de poema sem destinatário óbvio, inventar uma personagem, como Tatiana.  Pouco importa, porque não conseguiu cumprir a prova de generosidade que é escrever bem e com afinco para apenas uma pessoa. O post de amor é sobretudo uma manifestação de vaidade e de urgência. Carece ainda da prova de vulnerabilidade da carta de amor; quando a história dá para o torto, o discurso encriptado pode subitamente funcionar como uma protecção, talvez não para o par desavindo, mas diante da entourage.

 

Se escrevo muito pouco sobre Tatiana,  é sobretudo por  pensar que a escrita de amor online não tem qualidades nobres. A carta é forma perfeita. Ou a conversa a dois - creio que o termo técnico é "namorar".  O online serve bem o insulto e a cura de um desgosto amoroso, mas não a celebração do amor.

 

* Eh, metabloguismo em 2011, que cena ridícula.

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