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OURIQ

Um diário trasladado

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09
Jan11

O medo de persistir


Eremita

 

 

 

 

Há razões para pensar que o domingo foi reaproveitado pela religião católica como mais uma ferramenta de promoção da natalidade. Não me refiro à criação de condições para uma longa manhã de sexo, obviamente, apesar do horário altamente suspeito da missa do meio-dia. A ideia de descansar ao domingo só é boa ao primeiro olhar, porque com o passar do tempo se descobre que respeitar uma ordem de descanso é, em si, algo trabalhoso. Preencher o vazio do domingo passa então a ser um problema que, à falta de outras ideias, se tenta resolver começando uma família. É isso que a religião explora. Para tal contribui a tendência para a introspecção quando não há nada de urgente para fazer, o impulso biológico para procriar, embora por vezes já bastante atenuado por uma qualquer filosofia alemã ou francesa, a memória das ocupações familiares e domingueiras dos nossos pais, e o desaparecimento ao domingo dos amigos que criaram uma família, tidos por gente que resolveu o problema com sucesso. A outra solução é o passatempo.

 

Mas o passatempo é uma solução imperfeita. Há o utilizador de passatempos compulsivo, que ao domingo tem uma agenda de chefe de Estado, mas é um caso raro e um exemplo esclarecedor de desajustamento entre a profundidade do problema e a ligeireza da solução. O passatempo é também uma via perniciosa, porque qualquer decisão que não implique um risco não chega propriamente a ser uma decisão. Ora, o passatempo nunca chega a falhar;  não há grupos de apoio a filatelistas desiludidos.

 

Pescar, caçar, ir a exposições, passear no jardim, ver televisão e ler é deixar o tempo correr. A família é apanhar o tempo,  perpetuando-o. Por outras palavras, estas duas soluções não são apenas distintas, mas antagónicas. São também diferentes na sua essência, porque o passatempo evolui para a inconsequência, enquanto a família tende a evoluir para a crise. Sucede que essa prática continuada da crise na família gerou planos de contingência muito eficazes, nomeadamente a lidar com o vazio de domingo. No caso do divórcio, por exemplo, surgem as figuras do domingo sem as crianças e do domingo com as crianças, o único hábito regular capaz de valorizar este dia. Assim sendo, o refúgio no passatempo não é só uma cobardia, é sobretudo uma estupidez. Como sucede com muitas formas de melancolia, de resto.

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