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OURIQ

Um diário trasladado

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28
Dez10

Heartbreaking news


Eremita

Tatiana está novamente grávida. Sobre este evento, first things first, para dizer que não se sabe o sexo. Mas devo ainda contar em que circunstâncias me inteirei desta novidade, porque é algo que necessita de uma explicação e me lançou depois num turbilhão de emoções de onde só viria a sair pela mão do Judeu - creio mesmo que foi a primeira vez que ele funcionou como um amigo.

 

Cometi já a indiscrição de anunciar que Tatiana tem um namorado e planeei uma reacção primária a tal novidade. Mas como o carro do Judeu engripou nesse dia e, por algum insondável motivo ou então por tique roubado à alta burguesia de que não me orgulho nada, ir às putas de camioneta me parece insuportavelmente degradante, acabei por ficar aqui e libertar a raiva disparando contra lâmpadas incandescentes que comprei no supermercado e empinei sobre um tronco quase horizontal de oliveira com a ajuda de plasticina. Aproveito para recomendar este método a qualquer pessoa com necessidade de vazar uma frustração, pois tem aquela qualidade da sequência de sons discretos, que é indefinível mas se sente como libertadora - também não fica muito caro, embora funcione pior com lâmpadas fundidas.

 

 

Não cheguei a ver o namorado de Tatiana, nem sequer o vi de costas beijando-a, abraçando-a, de mãos dadas, ou oferecendo-lhe uma flor paga pelo município. Imaginei-o atraente e, como quase não há homens atraentes em Ourique, deduzi que fosse de fora. Na verdade, alimentava ainda a dúvida de que a súbita e conspícua alegria com que Tatiana passou a atender os clientes fosse a manifestação à superfície do enorme iceberg que para mim são os  laços de Tatiana à Ucrânia, o seu passado, que apenas posso inventar, e o seu mundo interior, pois se é verdade que lhe descrevi o nariz, não há vestígios da sua personalidade além de um breve episódio observado de longe e de um refrão de um esboço de letra, forma em que, por falta de talento do autor, até o carácter se verga à métrica.

 

Nas últimas semanas, tentei recolher provas no supermercado e cheguei a seguir Tatiana a uma distância segura, mas nas aldeias e vilas essa é uma distância infinita. Nunca a segui até casa. Nunca me instalei do outro lado da rua vigiando as entradas e saídas. Tenho pânico que Tatiana e a vila saibam desta obsessão, pois os celibatários estão sempre sob suspeita, a menos que sejam excêntricos, como o Judeu. Daí que o encontro seguinte tivesse sido ainda mais inesperado do que se pensa quando temos presente que em mais de dois anos nesta vila  devo ter trocado com Tatiana uma mão cheia de perguntas e ainda menos dedos de respostas. Era uma hora morta e ela acabava de retomar o comando da única caixa registadora a funcionar. Vinha de sorriso perene, eu era o único cliente à espera, e o seu sorriso foi crescendo tanto que só uma daquelas caixas antigas capazes de fazer um sonoro "plim" lhe daria um reset facial, pelo que não sobrou outra solução que não desabafar comigo, embora esta seja apenas a explicação a que cheguei algumas horas depois:

 

- Vou ter um filho!

 

Diz a convenção que se dê os parabéns, embora a única sugestão das convenções para as surpresas é que não nos mostremos surpreendidos, um conselho pouco sério. De maneira que retorqui o que pensei:

 

- E o pai?

 

À ambiguidade intrínseca desta pergunta devemos acrescentar as limitações de Tatiana no português e a conversão do seu anúncio numa pergunta minha, que terá funcionado como um ricochete da surpresa. Em todo o caso, pareceu mesmo surpreendê-la.

 

- Ainda não sabe.  Não sabe! Vou telefonar agora, obrigada.

 

A minha pergunta era outra, só que nem tentei ver que número ela marcava, apressei-me a olhar para o visor da caixa registadora e deixar o montante certo. Quando já estava quase fora do Pingo Doce, ainda ouvi a voz animada dela. Falava ucraniano.

 

- Isso nada quer dizer. Tatiana poderia estar sob o efeito da emoção depois de ter visto o resultado do teste - disse-me o Judeu, pois fui logo a correr para casa dele.

 

- Achas que é português?

 

- Preferias que fosse?

 

- Não comeces a responder com perguntas, por favor.

 

Se o Judeu inventou o que me disse a seguir, ainda não o apanhei em falso.

 

- Percebo a tua agitação, mas ouve-me. Um escritor famoso [o UpDike, conheço a citação, só não me lembro da fonte] dizia que quando alguém encontra uma namorada antiga que já não quer dormir com ele a experiência equivale a uma pequena morte. É uma imagem má, se me permites, pois trata-se de uma morte pequena apenas por ser efémera. A verdadeira pequena morte só acontece quando a namorada antiga engravida de outro homem. Essa é uma pequena morte eterna. Só que tu nem sequer tens obrigação de a sentir. Tatiana nunca foi tua, vê se tiras daí algum consolo. E lembra-te que é a segunda vez, certo? Se bem percebi, quando ela engravidou do Igor tu já estavas enamorado ela. Não podes reagir da mesma maneira perante um mesmo acontecimento. Da única vez em que estive apaixonado, a separação custou-me muito. Vê-la depois com outro homem custou-me muito e saber que ela tinha engravidado custou-me muito, também. Custou-me sempre o mesmo na intensidade e dir-me-ás que te estou a pedir o que não consegui praticar. Sucede porém que aqueles três momentos foram diferentes. Ao desespero, seguiu-se a raiva e depois uma percepção, tão aguda quanto anacrónica, do fim. A intensidade não mudou porque a cada momento sucessivamente mais grave, o amor, pelo efeito do tempo, foi sendo progressivamente mais fraco. Percebes?

 

- Quando te separaste dessa mulher já tinhas o Adriano?

 

- Não. Também te poderia contar uma história com outra mulher, já depois do nascimento do Adriano, mas creio que sei escolher os exemplos mais adequados.

 

- Foste mais pela empatia, o que é a segunda supresa do dia. Não percebo em que medida o teu exemplo me desautoriza a sofrer. Apenas me quiseste dizer que já passaste pelo mesmo. E que amaste mais outra mulher do que a mãe do teu filho. Quanto a essa lei da conservação da intensidade à custa de variações na qualidade, lamento, mas soa-me a charlatanice e não retiro dela conforto algum.

 

- Preferias antes que te confirmasse que o pai é ucraniano?

 

- Sim.

 

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