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OURIQ

Um diário trasladado

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16
Dez10

Demografia afectiva


Eremita

Na mesma semana, morreu Enrique Morente e morreu Carlos Pinto Coelho. Ainda não entranhei bem esta impressão, mas a morte dos outros vem-me ensinando que é preciso contrariar o impulso natural, pois assinar um elogio fúnebre é um direito que se conquista. Cantarei um dia a morte do Judeu, que me leva 20 anos de avanço e tem uma úlcera. Hoje, talvez para disciplinar a cabeça, fico a pensar nesta ideia simples  - e certamente já antes explorada de forma mais lúcida e industriosa - que é contabilizar por períodos curtos (digamos, 10 anos) os mortos e os vivos que ao longo da vida nos são queridos .

 

0-10 anos

 

Não sabes o que é a morte, nem como se vem ao mundo. Só por azar haverá mortos e, nesse caso, dir-te-ão coisas fantasiosas. Talvez te nasça um irmãozinho e vais gostar muito dele. O saldo é ligeiramente positivo.

 

10-20


Aprendes a morte e o nascimento nos programas televisos sobre a natureza, se não testemunhaste antes uma matança do porco ou acontecimento afim. Morrerá algum familiar. Quantos mais amigos fizeres na escola, maior a probabilidade de um morrer de morte natural, num acidente ou suicidando-se. Talvez te nasça um irmão ou um primo. O saldo é ligeiramente negativo.

 

20-30

 

É provável que comecem a morrer os teus avós. Começarão também a morrer as tuas referências culturais, com uma frequência directamente proporcional à tua tendência retro e à tua precocidade. Talvez tenhas filhos e os teus amigos também. O saldo absoluto é negativo, mas a chegada dos teus filhos equivale a uma explosão demográfica, your own baby boom.

 

30-40

 

Tudo o que se disse antes ainda é válido e só precisamos de introduzir pequenas afinações. Aproveito apenas para acrescentar algo mais à ordem de partida das tuas referências afectivas. Quanto mais erudito fores, maiores serão as perdas e mais depressa virão. A morte dos teus escritores de sempre será sentida como uma ressurreição, pois voltarás a lê-los. Mas a grande diferença para o decénio anterior não é difícil de adivinhar: os pais começarão a morrer e estarás pela primeira vez sozinho no mundo. O saldo é negativo ou dramaticamente negativo.

 

40-50

 

Tudo o que sucedeu de mau no decénio anterior só se agravará; o que de mau não sucedeu, acontecerá. Permito-me aqui outra pequena deambulação. O que se escreveu até agora foi com base numa definição estrita de nascimento e morte. Se aos nascimentos, no sentido estrito de um produto de uma gravidez, juntarmos os que correspondem à descoberta de alguém por quem temos amizade ou admiração, bem como às mortes com certidão de óbito juntarmos os cortes de relações, o esquecimento e o desinteresse, é provável que os saldos anteriores se alterem. O corolário é óbvio: só uma persistente capacidade de criar empatias novas ao longo da vida te poderá salvar. Acresce que esta visão aumenta os paralelos com a demografia convencional; por exemplo, a ideia de fluxo migratório descreve bem o reaparecimento (imigração) dos amigos de infância entretanto desaparecidos (emigração), que é característico deste decénio. Enfim, para simplificar e fazer deste texto um repto, é mais conveniente adoptar uma definição estrita de nascimento e morte; devo porém lembrar, a bem do rigor, que esta classificação inflacciona as mortes, visto que todos os artistas, todos os familiares mais velhos e quase todos os amigos contarão como mortos, mas para o efeito presente nunca chegaram a nascer. Feita a ressalva, conclui-se de novo que o saldo é negativo ou dramaticamente negativo.

 

50-60

 

A tendência anterior acentua-se, sobretudo quanto a mortes de familiares. O saldo é negativo.

 

60-70

 

A depressão demográfica agrava-se ainda mais, sobretudo porque começam a morrer os teus amigos e os teus contemporâneos. A menos que te nasça um neto (o segundo baby boom), o saldo é dramaticamente negativo.

 

70-80

 

Tudo só não se agravará se tiveste muitos filhos e os teus filhos procriarem. O saldo pode ser dramaticamente negativo ou muito positivo (pelo efeito combinado do nascimento dos netos e de uma aprendizagem da morte).

 

80-90

 

Nesta altura terás menos de três amigos contemporâneos. Começam a morrer os teus filhos. O saldo nunca poderá ser mais negativo.

 

>90

 

Não seria sério imaginar a cabeça de uma pessoa com esta idade.

 

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