XVII
Eremita
Jonh Coplans
10.05.08 Se é verdade que a assimetria muscular traduz sempre um desvio ao plano do criador, que nos fez tendencialmente simétricos, quando não é imposta pelos azares da genética tenderá sobretudo a expressar uma convicção. Tanto o lançador de dardo, em Astérix aux Jeux Olympiques, como os rapazes da academia de ténis de Infinite Jest têm um braço mais hipertrofiado do que o outro. Mas Astérix são bonecos e a observação atenta dos tenistas que aparecem na televisão a trocar de camisa não revela grandes assimetrias. Parece haver um princípio de vasos comunicantes rege os músculos simétricos, mas não os músculos de grupos distintos. Tal simetria, que rege também a minha parca musculatura, de algum modo me entristece, pois parece indicar que não fui capaz de fazer com o corpo nada que não estivesse absolutamente previsto pela natureza. Como máquina, limitei-me a cumprir o que se esperava de mim. Ando, corro, agarro em objectos, reajo a estímulos musicais, etc. O único conforto que ainda vou tendo, creio que um segredo que ainda não partilhei, é quando junto as mãos, palma com palma, como se rezasse, mas apenas para comparar o volume do músculo adutor do polegar das mãos esquerda e direita. Ainda se nota uma diferença de volume. Pode já ser só a tal memória dos músculos de que alguém me falava ou a impressão de imagens passadas, que se confundem com a actual, à custa de repetir este gesto tantas vezes e tão próximo dos olhos que o fundo fica sempre desfocado, mas ainda me parece que o músculo da mão direita é ligeiramente mais forte do que o outro e isso enche-me de uma alegria absolutamente intransmissível (e se fosse sensato, até inconfessável), que mistura o regresso à adolescência e ao estudo da guitarra, no meu quarto, com a garantia de que, afinal, construí uma idiossincrasia que me afastou do plano do criador.

