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Eremita
Anos antes de entrar para a faculdade, Julião começou a pensar acima das suas possibilidades, como alguém lhe viria a dizer com poucos meses antes de a expressão se tornar frequente no espaço público. Apesar de maliciosa, havia algum rigor na descrição. Julião viciara-se no constante retalhar da humanidade em dois grandes grupos e num maniqueísmo radical que não seria grave se ele desse menos importância à sua própria palavra. Mas como aliara o fascínio pelas expressões grandiloquentes que nele pareciam nascer sem grande esforço a uma obsessão pela coerência, o pensamento de Julião passou a estar mais dependente da sua palavra do que a palavra do pensamento.
Armado com os resultados de uns testes psicotécnicos do seu filho, durante o Outono e Primavera de 2007 o seu pai tentou convencê-lo a seguir Direito, mas Julião já se sentia prisioneiro de uma máxima sua - "aprende um ofício que não corresponda à tua vocação" - e garantiu que conseguiria média para entrar em Bioquímica na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Julião nem sequer elaborou uma teoria para justificar a máxima a posteriori, limitando-se a enunciar uma longa lista de escritores que exerceram profissões técnicas, como "Fernando Namora", anuiu o pai, e "Primo... Levi, pai" rematou o filho, gozando a pausa.

