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OURIQ

Um diário trasladado

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23
Nov10

No entender de Jaime


Eremita

Os lançamentos de livros são festas com medo de existir*.

 

* Convém lembrar que Jaime é praticamente analfabeto e nunca leu José Gil.

 

Algumas outras cenas passadas com Jaime

 

[sem datas]

 

Jaime no cumprimento do dever

 

Pedi ao moço de recados que indagasse e ele indagou para lá do que lhe havia pedido. Tatiana está de 4 meses. Dizem  que as maternidades se enchem nas noites de lua cheia. Hoje é noite de lua cheia e só me resta pedir um céu nublado. Que estranha reclusão isto de não poder olhar  o céu, por nos recordar algo que queremos esquecer.

 

No cumprimento do dever, ainda

 

O único surfista vivo de Ourique, meu moço de recados, tem uma nova e espinhosa missão. Visita-me todos os dias, aqui nas margens da barragem, e entrego-lhe umas notas que ele depois publica no blogue quando chega a Ourique (dei-lhe as chaves de casa e a senha do Ouriquense). Ainda pensei em transmitir os meus posts por telefone, mas o nível de literacia do rapaz iria semear o Ouriquense com ortografia liceal e testar os limites da paciência dos leitores. Traz-me também jornais, que leio antes da hora do almoço e que depois uso para atiçar a fogueira em que cozinho o jantar. Hoje será um achigã escalado. Conto escrever sobre o firmamento nos próximos dias, assim que o céu fique completamente limpo. Disse também ao moço para trazer a prancha amanhã. Quero fotografar o surfista na barragem.

 

Umas pinceladas para o retrato psicológico de Jaime

 

Uma das grandes vantagens do eremita sobre o cidadão comum é a impossibilidade de cair numa situação em que se vê vítima acidental de uma pessoa que, tendo  sobre ele um ascendente passional, sem disso se aperceber e perante uma situação que seria à partida de simples resolução, também tenta ganhar sobre ele um ascendente moral. Essa pessoa tende, em regra, a ser bem-formada  e o ascendente moral pode até resultar de uma recusa de condescendência, o que denota nobreza. Porém, ainda que as causas de cada um dos ascendentes possam ser independentes, os seus efeitos serão necessariamente combinados. Estando a vítima obrigada a anular o ascendente moral sem dar mostras da dependência passional, acaba  por perder a discussão ou as estribeiras. Se tinha ou não razão é apenas importante para saber se o episódio foi confrangedor ou caricato, o que interessará apenas aos implicados.

 

PS: o moço de recados reconheceu-se nesta entrada e, no dia seguinte,  entabulámos a nossa primeira conversa profunda. Ele despediu-se depois de mim com alguma emoção e eu fiquei a pensar numa forma de ele transcrever os meus textos sem os poder ler, para que eu consiga escrever sobre ele sem o constrangimento que agora sinto. Tive algumas ideias engenhosas.

 

Da série curta-metragem


A câmara filma o moço de recados a acordar. Percebe-se que é de madrugada pela qualidade da luz e as sombras alongadas, e que é Verão porque o moço dorme de tronco nu e apenas se cobre com um lençol. O lençol é branco, a parede branca, as portadas brancas. O rapaz dá voltas na cama, mudando de posição várias vezes [montar imagens do seu corpo em diferentes posições numa sequência rápida, para passar a impressão de muito tempo passou]. Já na cozinha de azulejos brancos, diante do frigorífico branco que acaba de abrir, e ainda em tronco nu, o rapaz bebe leite meio-gordo pelo pacote [esconder a marca] e um fio de leite começa a escorrer-lhe pelo pescoço e pelo tronco, ficando uma gotículas aprisionadas nos pêlos do peito [não insistir demasiado na carga erótica]. O moço veste depois uns calções de banho [filmá-lo da cintura para cima; evitar as nádegas], pega na prancha de surf que estava encostada a uma parede caiada de branco e sai para a rua [saturar a película de luz, encandear o espectador]. O moço monta-se na casal 50 que ficou na família e dirige-se para fora da vila; leva a prancha às costas, como se irrompesse de uma mochila como um tubarão [ponderar se a falta de aerodinamismo transmite uma sensação de imbecilidade]. Sem nunca perder o moço de vista, a câmara mostra imagens da planície de montado durante algum tempo e filma uma placa que indica a distância para uma vila costeira ou perto da costa [Vila Nova de Mil Fontes? Aljezur? Zambujeira do Mar? Talvez esta]. A câmara continua a filmar o rapaz [nova sequência para dar a ilusão de que uma grande distância foi percorrida] e depois foca-o na cara [o cabelo - de surfista dos anos oitenta - acusa o movimento]. Quando o moço se imobiliza [captar bem a transição do barulho da motorizada para a calmaria de um discreto vaivém da água sobre a margem], a câmara afasta-se um pouco e vê-se o rapaz de frente, do peito para cima, com o céu azul ao fundo e nenhum ponto de referência. Vê-se o  rapaz avança [resoluto] com uma expressão ambígua no rosto, mas fixando o olhar para lá da câmara. Ouve-se o barulho dos seus pés a caminhar e, de repente, a chapinhar. Percebe-se depois pelo movimento do corpo que pousa ele pousa a prancha na água [captar todos estes sons e exagerá-los]. A seguir a câmara faz um movimento de contorcionista, para começar a filmar o rapaz de topo e já o podemos ver deitado sobre a prancha, remando com os braços [o plano de água enche por completo a imagem, não se vendo o céu, nem as margens]. Após algumas braçadas, o rapaz imobiliza-se [fazer com que aproveite toda a inércia até parar] e senta-se sobre a prancha. Continuamos a vê-lo de topo [escolher um actor sem careca no cocuruto] e a câmara começa a subir e a abrir o ângulo. O ângulo abre, abre, vemos a primeira margem a entrar pelo rodapé, mais margem a entrar pelo lado esquerdo [ou o direito, é indiferente], depois pelo outro lado e finalmente por cima. Percebe-se então que o moço de recados não está no mar, mas na barragem do Monte da Rocha.

 

Ainda a Barragem

 

Vi o Jaime na barragem do Monte da Rocha. Estava montado sobre uma prancha e o seu peso submergia a rabeta e erguia o bico. Preferi não me aproximar. Não devemos tentar perceber o que leva Jaime a surfar numa barragem. Diz-se que ele chega a passar horas na mesma posição e que os achigãs lhe beijam os pés. Não duvido que Jaime se apercebe do ridículo que é esperar por ondas numa barragem, mas desconfio que ele não tem ideia do estilo que se pode forjar a partir de um projecto impossível e de todas as suas implicações - digamos - filosóficas , ao contrário do judeu, que tira um prazer lúcido da perseguição à máquina do movimento perpétuo. São criaturas antagónicas. O judeu é inteligente e distraído. Jaime é praticamente idiota, mas tem uma memória fotográfica extraordinária. Se ainda não relatei as suas 24 horas em Lisboa foi para lhe fazer justiça  - não quero falhar nenhum detalhe e pergunto-lhe quase todos os dias sobre aquele dia bizarro.

Fiquei a contemplá-lo até ao crepúsculo. Por algum motivo, a imagem de um surfista no meio da barragem à espera de uma onda tranquiliza-me. Lembrei-me depois de Deepo, a ave de cimento de John Difool. Jaime tem comportamentos absurdos e é uma criatura absurda. Ambos despertam enorme simpatia.

 

Entrada na tábua de personagens

 

 

O único surfista vivo de Ourique é o elemento de charneira, embora tenha sido até agora muito poupado. Existe no Ouriquense um desejo de bucolismo, só que assistido por veios capazes de bombear alguma civilização na vila. Esta incapacidade de assumir o interior em toda a sua esplendorosa desolação perdeu entretanto alguma espectacularidade - houve a melhoria dos retransmissores, dos satélites e depois a extensão das redes de televisão por cabo; ainda assim, vem com a lucidez desencantada de quem sabe que a cidade chega hoje à vila com o que tem de bom e também a porcaria que lhe é característica, porque só o correio asseguraria que recebesse em Ourique apenas o tal "génio elegante". Nisso - e no português diminuído - o Ouriquense se distingue de A Cidade e as Serras. Não se acredita aqui que só o campo fosse capaz  de recuperar Jacinto, nem se acredita que Jacinto fosse capaz de viver só do campo.O moço de recados traz a civilização.  Na era da tecnologia, ele é mais do que um capricho, é uma excentricidade que corporiza a função redentora do estilo. Porque a tecnologia só encanta quando ainda não existe - os cenários futuristas  - ou quando deixou de existir - o "teatrofone" que fazia as delícias de Proust.

 


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