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OURIQ

Um diário trasladado

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05
Nov10

Comichão


Eremita

É difícil estabelecer se o desejo de imortalidade leva o escritor à escrita ou se é ao contrário. Mas de uma forma ou outra, não será surpresa para ninguém se a proximidade de uma morte provável puser a nu a ansiedade do escritor. Vem isto a propósito de um texto de Hitchens. Façamos um pequeno parêntesis: nada me move  - passo a megalomania, aqui de Ourique - contra Hitchens; a sua deriva para a direita não me chocou; a sua adesão ao movimento dos novos ateístas foi uma manobra de promoção que revelou grande esperteza e saber; é rica a sua prosa, sublime o seu humor, praticamente lendária a sua frontalidade, e tudo vinha ganhando um brilho especial na crónica que Hitchens está a fazer do seu cancro.

 

A acrescentar ao sentido de urgência, a proximidade da morte traz também autoridade moral. Se estes dois elementos explicam que a arte de moribundo tenha uma longa tradição - basta pensar na composição do Requiem de Mozart, mesmo depois de expurgar essa história de tudo o que parece ser fantasioso -, são as técnicas de diagnóstico, tratamento médico e cuidados paliativos de uma qualidade impensável há 100 anos que explicam a popularidade crescente deste género - enfim, antes isto que um boom de literatura de viagem de terceira qualidade motivado pelas low cost. Penso no bizarro The Median isn't the message, de Stephen Jay Gould, um texto improvável por percebermos que um nerd também pode comover, em particular aqueles que vivem momentos complicados, bem como qualquer pessoa que tenha já encontrado algum conforto - inclusive moral - num teste estatístico. Penso nos textos de Tony Judt já com esclerose lateral amiotrófica, com destaque para Girls, girls, girls!, uma das cartas de amor menos ridículas alguma vez escritas. Sem excluir que a anxiety of influence entre aqueles que vão morrer seja ainda mais forte do que entre os jovens poetas, Gould e Judt cumprem um pacto tácito com o leitor. But then came Hitchens.

 

Nos seus textos sobre cancro, os pilares continuam a ser a sua ironia, que não exclui o sempre eficaz humor autodepreciativo, e uma persistência em lutar pelas suas causas - enfim, agora deu-lhe para o ateísmo - que só encontra paralelo no Black Night dos Python. É impossível não deixar de sentir respeito por tamanha exibição de tenacidade. Porém, o que Hitchens faz aqui é uma filha-da-putice, inclusive para si próprio. Lembrou-se de um código de etiqueta entre pessoas saudáveis e pacientes com doenças graves, o que estava a ser divertido até ao momento em que faz pouco de Randy Pausch. Pausch atingiu fama mundial por causa de palestras dadas quando tinha um cancro. Quem as vê, percebe que está perante alguém ingénuo, que não priva com Martin Amis, vive de referências à cultura pop, usa expressões de mérito literário duvidoso e não resistiu à tentação de dar conselhos à plateia. O que Hitchens faz é uma maldade sem redenção, que nem sequer as fracas piadas compensam. Se não foi completamente gratuito, talvez houvesse aqui uma intenção de se descrever, aludindo à sua antítese, o que daria um panegírico indigesto. Em qualquer caso, o melhor era Hitchens investir o seu tempo metendo-se apenas com gente do seu tamanho, como Gould ou Judt. Mas que seja alguém vivo da próxima vez, se não for pedir muito - ou então Deus. É que Pausch morreu em 2008 e não é por se ter coragem de dizer mal do cadáver ainda morno de Jerry Falwell que se ganha depois o direito de gozar com qualquer morto.

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