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OURIQ

Um diário trasladado

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09
Set08

Um cúmplice para a morte de Igor


Eremita

 

 

A morte de Igor começa a pesar-me. Peso pluma, mas peso duplo: peso por se arrastar, peso na consciência, como não aceitar um cúmplice? Hesito. Em teoria, abrir-se-ia um precedente perigoso e o Ouriquense poderia em poucos dias ser tomado pelos seus leitores. Não posso tolerar outro levantamento popular, bastou Abril - e o que o meu avô então sofreu, não tenho esse direito... Por outro lado, o local proposto para a morte de Igor é perfeito. Em vez de uma encruzilhada, uma rotunda. Seria uma morte ao sabor dos tempos que correm, a de um homem que não se adaptou à fluidez corrente -  e perverter o vigor do poder autárquico em favor de uma crítica velada do relativismo moral vigente é um bom projecto. 

 

 

A placa de sinalização capta o essencial: Tatiana, que trabalha no supermercado (ver acesso local), eu (nessa madrugada a regressar de bicicleta do monte, que fica na estrada para Garvão), a vila, indiferente à tragédia (ver acesso local) e o condutor que atropela Igor (por exclusão de partes, só pode vir de Monte Saraiva e assim nunca chegará a entrar no campo de gravidade do enredo, o que me facilita a vida pois não sou malabarista para mais de 4 ou 5 personagens). De onde vem Igor? Só pode vir da vila, é lá que se pode beber. 

 

Uma hipótese: Ivan Igor, embriagado, é colhido por um carro uma carrinha que depois se põe em fuga. Atordoado, tem tempo de se arrastar até ao centro da rotunda e é encontrado de manhã, como uma estátua vítima do gás metolmol, que amolece o metal - gosto desta imagem do cadáver mais estátua amolecida que carne enrijada pelo rigor mortis. 

 

Outra hipótese, menos fiel ao simbolismo da placa: a morte de Ivan é mimética da morte de Honório, que perdido de bêbado caiu numa valeta e morreu de frio enquanto dormia, numa qualquer noite de Inverno. Esta solução implica deixar Igor vivo pelo menos até Novembro, mas receio que a Tatiana não consiga assim opor resistência à entrada avassaladora de P. na vila. Em todo o caso, o local é bom, Igor morreria de frio no centro da rotunda, embora aqui a imagem do metolmol não funcione tão bem - mas seria sempre só uma alusão, podemos dispensá-la. 


Creio que está decidido. Temos morto, temos local, só não temos ainda data, nem cenário (o ideal seria combinar o atropelamento com uma morte pelo frio, que me parece o mais poético - Igor tem a duvidosa presença de espírito de se desagasalhar para que o frio lhe anestesie a dor, adormece e morre).


 Nota:  voltar a mencionar Tatiana em breve e introduzir o maluco da máquina de movimento perpétuo.

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