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OURIQ

Um diário trasladado

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16
Out10

Eu devia era acabar o livro


Eremita

Este texto de Rui Catalão sobre David Foster Wallace não é mau. Catalão mergulhou um mês na escrita de Foster Wallace e é evidente que não poderia voltar à superfície com a pérola - mas trouxe uma ostra, o que é honesto. Ele faz com Wallace o que Wallace fez com o Festival da Lagosta e os direitos dos animais. Para fazer com Wallace o que Wallace fez com Federer, o Ípsilon teria de ter feito com Rogério Casanova o que fez com Rui Catalão: encomendar-lhe um texto sobre Wallace (creio que não troquei nenhum nome). Mas o texto não é mau, repito, e devemos tolerar os pecados da pesquisa via internet, bem como as 10 notas de rodapé à Foster Wallace, um misto de homenagem e de impulso adolescente de que ficamos reféns no início do convívio com o escritor.

 

O texto é sobretudo muito eficaz a despertar interesse na tradução da obra de David Foster Wallace*1, por alimentar o culto da imagem do escritor sobredotado e suicida - no fundo, a Sylvia Plath*2 de que a rapaziada com a mania da prosa e uma relação íntima com a posteridade andou durante décadas necessitada. Não me parece desajustado, pois Wallace passa precisamente essa impressão. Por outro lado, cheguei ao fim do texto e lembrei-me de um comentário de Gore Vidal a um então futuro artigo sobre ele escrito por Martin Amis: "... a bit too short on the work" (cito de memória).

 

* Se me permitem esta nota de rodapé, não estou certo de que traduzir Infinite Jest seja uma boa ideia. Não só a escrita é tão idiomática que muito se perderia, como o tradutor zeloso teria necessidade de introduzir numerosas notas de rodapé às mais de trezentas notas de rodapé do romance. Nesse processo, não é improvável que ficasse louco e começasse a adicionar notas de rodapé às suas próprias notas de rodapé, fazendo o seu próprio triângulo de Serrpinsy, mas à laia de quadratura do círculo. Preocupa-me pois que haja a tentação de traduzir esta obra, sobretudo porque a pessoa mais competente e a escolha natural é Rogério Casanova - e seria trágico vê-lo consumir-se nesta empreitada [muitas exclamações]. Havendo uma garantia com peso legal de que Rogério Casanova nunca traduzirá Infinite Jest, é evidente que a cabeça começa logo a divagar. Nos momentos mais pervversos, penso no rácio entre o tamanho da letra dos nomes "David Foster Wallace" e "Vasco Graça Moura" na capa da tradução do Jest; penso também se os alicerces da fortaleza psicológica que Graça Moura aparenta ser resistiriam, mas é a inveja a tomar conta de mim. No fundo, o que me fascina em Graça Moura ao ponto de provavelmente vir a fazer dele a única referência viva em BW é a fusão da ética de trabalho e competência com a aparente solidez psicológica. É possível ter ética e competência (Lobo Antunes) e solidez psicológica (Pacheco Pereira), mas é raro ter as duas coisas.

 

*2 Para ser perceber o comentário de Sérgio Lavos, escrevi "Platt" na primeira versão - foi gralha (e até uma gralha interessante), mas a blogosfera é como os directos televisivos e privar o leitor de episódicos ascendentes plenos de  meritocracia e oportunidade seria perder a autoridade moral. Sylvia Plath, Plath, Plath. Castigo: ler 20 poemas de Sylvia Plath até segunda-feira e escrever um texto de 2000 palavras sobre o declínio da palavra "poetisa".

 


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