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OURIQ

Um diário trasladado

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14
Out10

O deserto é o oásis


Eremita

Os escritores que viveram a experiência da Guerra do Ultramar têm todos mais de 60 anos. A Descolonização foi logo a seguir, mas acrescenta  uma geração, pois afectou a infância de escritores hoje na casa dos 40 - e começam a aparecer agora esses livros. A seguir não há nada. Zero. Mais de 30 anos de um enorme vazio. Nem uma única experiência colectiva que faça de grande tema. O que virá então aí? A praga do  romance histórico continuará. Seguramente. O romance policial vai ressuscitar inúmeras vezes. OK. Teremos o romance cosmopolita. Sim, alguém vai fazer de Philip Roth à custa de uma escandinava que nos anos noventa veio de Erasmus até Lisboa. Mas também teremos o romance sobre a vidinha. E o meu prognóstico é que será este o grande género, tanto em número de praticantes como em grandes obras. Sem ironia. Não me refiro ao romance light, mas a um egotismo levado ao extremo. Como arena do humor autodepreciativo, a grande bengala, não há melhor. Em tudo o resto, é um salto sem rede.

 

As últimas décadas estão quase a terraplanar economicamente o país, mas no campo da literatura cumpriram já essa missão. Portugal ficou como uma tabula rasa. O excesso de História de que fala Eduardo Lourenço foi resolvido com a ausência de História Contemporânea; Manuel Alegre é uma cápsula do tempo - olhem para os cartazes, semicerrem os olhos e começarão a ouvir a proa da nau Catrineta sulcando a ondulação do Atlântico (não tentem isto ao volante). Já não há Portugal. Exultemos. Não sabe bem? É como ter finalmente os pés nus livres da areia da praia. Um recomeço.  Agora só há cidadãos que nasceram ou vieram para aqui. Os liberais gostam disto. Os conservadores nem por isso. Os liberais conservadores hesitam. Mas para a literatura é absolutamente libertador e estimulante. A composição da primária deixou de ter tema. Já ninguém pode começar por "Eu gosto muito da vaca". Chamem-me sonhador.

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