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OURIQ

Um diário trasladado

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08
Set08

...


Eremita

Um novo portal de literatura fez-me chegar a um inédito de Gonçalo M. Tavares (GMT), Linguagem e Matemática. Trata-se de uma brincadeira em que te tenta provar o interesse de aplicar a simbologia da matemática à própria linguagem. Tal como existem números negativos, teríamos palavras negativas. Se bem percebi, palavra negativa não seria equivalente ao antónimo. No caso de cão, "- cão" significa que o cão está ausente e "- mesa" significa que "retirámos a mesa da sala". Há aqui um problema, porque só pelo contexto e com alguma sorte chegaríamos a estes significados. Como distingui-los de "o cão morreu", "o cão desapareceu", "o cão escondeu-se", ou "a mesa partiu-se", "a mesa eclipsou-se"? 

 

GMT apresenta-nos depois o conceito de palavra fraccionada. "terra/2" é "metade da terra para cada lado". Do Portugal profundo, eu pensei primeiro e a medo na porção correspondente a "metade da terra". "Correr/6" significa que o acto de correr é distribuído por 6 pessoas. Curiosamente, aqui GMT parece dar-se conta de uma dificuldade e lança a pergunta "ou é uma corrida de fraca intensidade?" Fica por esclarecer, porque GMT não nos apresenta a prova dos nove aplicada às ambiguidades discursivas.

 

Tal dúvida não diminui o entusiasmo do autor, que nos apresenta ainda uma série de outros exemplos, sempre dúbios,  terminando com "luz/35". Trata-se de uma "luz pequeníssima", uma "luz de ver moscas". Resistindo à tentação de dissecar o que será uma "luz de ver moscas", suspeito que um matemático teria vontade de perceber como se chegou a tal valor. "luz/35"? Então e "luz/30"? Como se quantificou a intensidade com tamanho grau de precisão? 

 

Senti algum alívio quando percebi que o autor não se lembrou do uso da multiplicação e divisão para a descrição de estados de alma complexos. Ele conclui apenas: "a utilização das palavras fraccionadas é muito útil. (...)As palavras fraccionadas substituiriam assim expressões como: luz muito reduzida". E depois remata: "A vantagem maior seria a imposição da exactidão matemática à frase intempestiva". Sem rebater as eventuais vantagens menores, não vejo qualquer interesse no abastardamento da matemática, nem sequer como exercício sobre os limites da linguagem. A consequência  deste vanguardismo requentado seria o encriptamento do discurso, para mais à custa de uma arrogante ilusão de precisão. Deixemos a frase intempestiva em paz.

 


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