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OURIQ

Um diário trasladado

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Um diário trasladado

01
Out10

XIII


Eremita

John Coplans


29.04.08 Acredito na verdade absoluta, mas as medidas do corpo são sempre relativas. As mamas crescem na razão inversa do diâmetro da cintura; a altura esmaga-nos quando não é superior à altura de quem consideramos baixo; e o pénis, na cabeça de um homem que se deite com uma mulher sexualmente experiente, só admite dois tamanhos: maior ou menor do que o pénis do antigo companheiro dela. Existe pois em cada confronto com o espelho um exercício de cubismo, em que as dimensões do espaço são redimensionadas em função dos nossos anseios, numa espécie de quadratura da vaidade de que a bulimia, a anorexia e outras patologias do corpo são apenas os extremos de um espectro contínuo. Consideremos a barriga.

 

Os magros envelhecem melhor do que os outros. Magríssimos na adolescência, tendem sem esforço para uma elegância feita do natural acumular de quilos que vem com os anos. Nos outros, aqueles que eram atléticos ou já algo roliços, o mesmo fenómeno faz deles pessoas gordas. Mas o gordo de raiz tem uma vantagem sobre os magros e sobre os gordos por progressão na vida: nele, nunca a barriga é um sinal de decadência física, enquanto nos outros pode chegar inclusive a ser um sinal de decadência moral. A nossa barriga mede-se sempre em relação à fase em que não a tínhamos. Se essa fase não consta da biografia, a barriga deixa de existir, por mais imensa que seja. Em certa medida, a barriga mais presente é a que está ausente. Enfim, a juntar a este relativismo, temos um dado absolutamente objectivo: não há silhueta mais repugnante que o de um homem magro com uma barriga proeminente. Tudo isto é trivial.

 

Menos documentada é a relação que as mães estabelecem com o despontar da barriga nos filhos adultos. Eu diria que tal evento, aos 30 ou aos 40 anos, desperta na progenitora um instinto atávico, que a transporta de volta ao tempo da infância do seu filho. Por isso, a mãe revela um espírito quase lúdico que choca com o pudor, o embaraço, por vezes até a atitude de negação do seu filho. Esta novidade foi-me revelada ontem por um colega de ginásio que insiste com particular fervor nos exercícios para a região abdominal. Ele não se exercita para despertar comentários elogiosos entre o mulherio. Não. A sua principal motivação em perder a barriga é que a sua mãe deixe de brincar com ela como se fosse a de um menino no momento do banho. Nunca li nada de parecido a este relato, mas aceito-o como verdadeiro.


Adenda efémera: esta é a melhor série do Ouriquense e também a menos apreciada. Creio que induz um certo desconforto e o autor revela uma dimensão - digamos - pouco nobre. Manuel Alegre não mora aqui. Entretanto, resolvi apagar o título ("somatização existencialista"), que era francamente mau, e promover o subtítulo a título propriamente dito. Assim nasce "Um tributo a John Coplans", de petit nom "Tributo".

 

 


Nuno Salvação Barreto defende que um corpo deve levar uma marrada ou uma bala, se a ideia é fazer dele assunto.

 


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