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OURIQ

Um diário trasladado

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10
Mai11

Consuela


Eremita

 

Quem matou Igor? é um Folhetim rico em ganchos

e o primeiro policial com "spoiler warning

 

13. Não sei que impacto nos sansilvestreros terá tido o baloiçar de ancas em público de Consuela. O prostítulo não fica na periferia do ayuntamiento, está inclusive muito perto da igreja. Por fora parece uma casa normal, só que numa povoação com aquelas dimensões seria impossível não se reparar no afluxo de clientes e nas seis colombianas. Consuela não é a mais procurada pelos locais, talvez por ser a mais espalhafatosa e os homens temerem que ela os desmascare no supermercado com um comentário brejeiro. Quanto ao impacto de Consuela na economia local, creio que não deve ser desprezível - lembrei-me disso enquanto almoçava sozinho num restaurante da vila. Ela atrai turismo a um lugarejo que o ninho de cegonhas no campanário não consegue tornar distintivamente pitoresco. Mas com estas perturbações sociais não vale a pena perder tempo, pois todos nos lembramos de Asa Branca e das mães de Bragança.

 

Quando entrei no prostíbulo, ainda estava frustrado com Lucinha, zangado com o Judeu e admirado por ter feito o caminho para San Silvestre de Gúzman desabafando com o Citroën. O carro do Judeu pertenceu ao meu avô. Não sei por quantos outros donos terá passado. O avô morreu nos anos oitenta e eu conheci o Judeu em 2008. Preferi nunca lhe dizer nada pois haveria o risco de ele me interpretar mal. Um negócio é um negócio e eu nem tive grande contacto com o carro ou sequer com o meu avô. Mas é verdade que experimento uma vaga sensação de posse. Não sei se há um termo para isto, é como que o equivalente da usucapião para os assuntos da memória. O Citroën  entrou na minha cabeça antes de chegar à do judeu, o que estabelece uma precedência, e terei depois recordado o carro as vezes suficientes para poder dizer que fiz uso dessa memória. Atendendo aos preços baixos que se praticam no mercado dos automóveis e ciclomotores em terceiríssima mão, e ainda à travessia do deserto que precede o vintage, é natural que a altercação com o judeu tivesse aguçado a minha sensação de posse.

 

Consuela saltou do sofá com um entusiasmo infantil, embora seja maior de idade. Na nossa primeira noite, escrevi-lhe um poema enquanto ela dormia. A inibição para a poesia costuma chegar na mesma altura em que chega a descrença em certas emoções. Daí eu ter guardado os meus versos para a menor das musas, como um ourives em crise que já só aceita trabalhar o latão. Seria incapaz de escrever um poema a Lucinha, porque ela é muito inteligente, e seria incapaz de escrever a Tatiana, porque estou apaixonado por ela.

 

Sinto nas tuas coxas, Consuela

Um conforto que é quase de poltrona

 

(excerto)

 

A grande diferença entre Consuela e Lucinha acontece no pós-coito. Enquanto a colombiana é carinhosa e pede que me encoste a ela pelas costas, em spooning, a brasileira não me toca e levanta-se quase de imediato. Só que Consuela foge com o rosto e Lucinha desafia-me com um olhar que acusa alguma superioridade. Ou então os seus olhos espelham a minha inferioridade.

 

Continua

 

Continua

 


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