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OURIQ

Um diário trasladado

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10
Mar13

Matrioskas em El Granado


Eremita

 


9. Lucinha foi falando, só que cada vez menos com palavras e mais com o corpo. Chorou apenas no fim do relato, que parecia vir de duas vozes inconfundíveis. Havia alguém que nela se expressava com grande apego aos pormenores e que, quando estava quase a colocar o traço final no retrato-robô do violador, era substituído por outro relator, mais vago e com tendência para a reflexão, que ia fazendo uns apartes sobre a maldade dos homens - aqui entendida como "a maldade dos gajos", para que não haja equívocos sobre o género em questão. A minha maldade foi ter ficado com dúvidas. Não duvidei do relato dela. Os gajos sempre têm dúvidas. Se são dúvidas sobre o seu desempenho sexual ou sobre a sua paternidade, pouca diferença faz, é ainda a dúvida de um corpo desenhado para ser um simples acessório, completamente indefeso na intimidade, apesar da superior força física, e que fica com o papel secundário, por muito que as convenções sociais estejam desenhadas para que roube a cena. Nunca rouba, é sempre da mulher a frase que se recordará durante muitos anos. Ainda hoje, quando bebe, o judeu me fala de uma americana com quem se cruzou novo, durante a sua diáspora, que um dia abriu a porta de casa e terá dito: Oh, what a surprise... Well, listen: I thought about you, but I haven’t missed you”.

 

Lucinha falava de uma violação e eu pensava na história do judeu. Acariciava-a, mantinha um respeitoso silêncio e por fora era um gajo impecável, ou seja, um "cavalheiro", mas por dentro divagava. A impunidade de gajo interior não era total, vigiava-o uma consciência que, tal como a minha consciência criara o gajo original, o recriava, gerando um novo gajo interior dentro do anterior, numa série a tender para o infinito de consciências encapsuladas umas nas outras e respectivos gajos, como matrioskas que nem num grau subatómico de organização da matéria abandonam o mesmo rosto pintado e que, de tão repetido, não deixa de levantar suspeitas. E logo mais uma dúvida: era mesmo o cepticismo de pendor lógico-dedutivo que me movia ou a dúvida de saber até que ponto não teria criado na série infindável de dúvidas uma manobra de diversão que adiava o confronto com uma dúvida vergonhosa: conseguiria eu foder com a violência daquele homem?

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