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OURIQ

Um diário trasladado

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09
Mar13

A confissão de Lucinha


Eremita

 

Quem matou Igor? é um folhetim rico em ganchos

e o primeiro policial com "spoiler warning".

 

8. "Confessar" passou a ser dos verbos mais maltratados da nossa língua. É cada vez mais difícil conseguir uma confissão para efeitos legais e há cada vez menos gente nos confessionários, mas abundam as confissões públicas de verdades que nada têm de inconfessáveis. A confissão de Lucinha não entra nesta categoria, pois embora ela nada tivesse feito que seja recriminável, não seria justo descrever o seu desconforto como um simples capricho, nem a sua vergonha como infundada. E quem quiser reduzir o que lhe aconteceu a um acidente de trabalho não tem apenas preconceitos quanto à prostituição, é má pessoa.

 

[Spoiler warning - na edição impressa, o parágrafo seguinte aparecerá invertido]

Violaram Lucinha. Um hipotético advogado de defesa teria argumentado que o comportamento dela foi ambíguo. Os seus gemidos de dor amordaçados na palma de uma mão? Teatro para excitar ainda mais o cliente. As vezes que ela disse "não"? Ainda dúbio, passível de ser interpretado também como um incentivo. As feridas no sexo e no ânus? Nada que pudesse ser imputado ao seu cliente, visto que não foram usados objectos e tudo teria sido resultado de um entusiasmo compreensível durante um confronto de anatomias por infortúnio inconciliáveis. Coisas de advogado, mas até que ponto este indivíduo não habita cada um de nós foi uma pergunta que coloquei enquanto Lucinha ia falando e a outra voz na minha consciência que rebatia esses pensamentos soava irritantemente aguda e feminista.

[fim do aviso]

 

Lucinha possui uma voz bonita, não excessivamente grave. Parte da sua doçura vem das vogais bem pronunciadas e do "tchi" com que remata os advérbios de modo, mas também do rubato e accelerando do seu falar, do modo de crescer e decrescer, suspender uma sílaba tónica e precipitar as restantes como se ouvisse uma harmonia dentro da sua cabeça. Se um músico passasse para o papel o falar de Lucinha, a partitura seria um impromptu. Só naquele dia as palavras foram saindo a custo. Quando se ouve, ajuda já ter algum dia confessado alguma coisa, pois é a única forma de antecipar o que está para vir e evitar cortar a palavra ao interlocutor com um comentário extemporâneo. Se há um fio por onde puxar, é mais prudente deixar que a própria meada se vá desemaranhando.

 

O ritmo do movimento da mão de Lucinha na minha coxa continuou estável. Nos momentos de maior tensão, ela pressionava um pouco mais; a cada achega na sua revelação, encurvava um pouco os dedos e eu voltava a sentir o arado das suas unhas. Lucinha tem umas unhas sobredimensionadas para uma mulher que não deve ultrapassar os 160 cm. Embora carmins, são praticamente uma arma branca que ela sabe usar com destreza durante o coito, chegando a roçá-las nas jugulares do meu pescoço, às vezes numa carícia que acompanha o afluxo de sangue ao cérebro, outras vezes quase como um arranhão em que sinto o poder de seccionar as veias. São artificiais. Lucinha explicou-me um dia que foi a solução encontrada para deixar de roer as unhas e eu fingi que acreditei. Também fingi não reparar na lágrima que ela chorou naquele dia sobre o meu peito. Era já a segunda, mas a primeira tinha ficado suspensa nos pêlos do meu peito e só dei por ela quando discretamente inclinei o olhar para Lucinha, que parecia fixar o candeeiro - em todo o caso, não olhava para mim.

 

O homem enrolou a mão na ponta de um lençol e só depois soltou o tabefe. Fui tudo muito rápido, mas antes de sentir dor já Lucinha tinha percebido que estava na presença de alguém experimentado. Ainda no rés-do-chão, quando se procedia à escolha das raparigas, Lucinha reparara na envergadura do cliente, sem chegar a assustar-se, confiante de que sabia sempre agigantar-se na cama. Nem sequer se assustou quando abriu a porta do quarto e o homem grunhiu; havia inclusive dias em que preferia os estrangeiros que falam línguas estranhas, pois não tinha paciência para fazer conversa de cama com todos e sabia-lhe bem gozar em voz alta com alguns  - isto ela só me viria a contar já depois do fim do relato, no pico de raiva que se lhe seguiu. O tabefe deixou Lucinha impecável por fora e toda amassada por dentro, quase atordoada. Depois de lhe amarrar os pulsos com o seu cinto e de lhe explicar, sobretudo em mímica, que se ela gritasse apanharia mais porrada a punho nu e cerrado, o homem fez dela o que quis.

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