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OURIQ

Um diário trasladado

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22
Ago10

This is funny


Eremita

 

Infinite Jest - notas de rodapé

Contexto: um rapaz está a ser entrevistado por um painel para entrar na Universidade. O painel sabe que o rapaz é um bom atleta (tenista) mas levanta dúvidas sobre o seu currículo académico. O rapaz tinha ido acompanhado pelo tio, que foi fazendo as despesas da conversa, até que, pressionado pelo painel, começa a falar pela primeira vez.

 

"My application's not bought", I am telling them, calling into the darkeness of the red cave that opens out before closed eyes (1). "I am not just  a boy who plays tennis. I have an intricate history. Experiences and fellings. I'm complex. (2)

 

"I read", I say. "I study and I read. I bet I've read everything you've read. Don't think I haven't. I consume libraries. I wear out spines and ROM-drives. (3) I do things like get a taxi and say: "The library, and step on it". (4)

 

 

(1) O momento Mendes Bota da passagem, isto é, aquele em que o autor estabelece um vínculo com todo e qualquer leitor, embora Wallace consiga fazê-lo sem comprometer a sua inteligência, nem a do leitor, o que também nos lembra que morar em Massamá é uma característica irrelevante se um dia Pedro Passos Coelho tentar a internacionalização da sua carreira. A frase serve ainda para informar o leitor de que a personagem começa a falar com os olhos fechados e que só os abrirá no fim da sua erupção discursiva ou curto percurso oratório, se preferirem- a escrita por vezes é só isto, informa as pessoas.

(2) isto é um clichê que esvazia as expectativas do leitor.

(3) isto é só para para ganhar tempo.

(4) isto é hilariante. Deeply goofy, completamente inesperado, económico e cinematográfico. Mas o mais impressionante é que o melhor surge a seguir.

 

Terminado o Moby, inicio a leitura de um calhamaço ainda maior: Infinite Jest, de David Foster Wallace. Se não acabar até ao Natal, votarei em Cavaco Silva. Este anúncio não mancha o meu percurso cívico e opinativo, antes visa frisar o meu compromisso com a leitura. Espero que o meu percurso blogosférico e interventivo seja suficiente para não deixar dúvidas a esse respeito.

 

É claro que houve planeamento prévio. Cronometrei o tempo que demoro a consumir 2 páginas de Infinite Jest. Para minha surpresa, demorei mais de 6 minutos. A surpresa foi tanta que repeti a cronometragem (obviamente, para um par de páginas virgens), demorando nesta segunda vez 8' 7''. Nunca pensei que lesse tão devagar e um dia terei de calcular o tempo médio de leitura em função da língua e do autor, da hora do dia, da época do ano, do dia da semana, do que comi na véspera, do período que separa o momento de leitura da última leitura de um texto de Domingos Amaral e de um texto de Brodsky, da qualidade do papel, do tipo de letra usada na impressão, da minha postura, do número de estímulos inanimados circundantes, da presença de pessoas e dos seus graus de simpatia, beleza, sensualidade e exposição de pele, do efeito da presença de uma linha do horizonte, etc., estudo que conto apresentar, numa primeira fase, sob a forma de histogramas de barras com desvio padrão e, numa segunda fase, mediante financiamento estatal atribuído por um dos programas de incentivo à leitura, na forma de análise de componentes principais que extrairá os grandes segredos desta matriz de dados, para benefício da comunidade e em total acerto com o que seria a projecção do  meu percurso individual enquanto pessoa. Retomando: 4' por página, 1079 páginas, 4316' (uma estimativa por defeito, visto que a minha edição não tem notas de rodapé mas um capítulo de notas, o que provavelmente se traduzirá em 10'' extra para encontrar cada uma das 388 notas e retomar a leitura), ou seja, 3 dias de leitura ininterrupta. Impressionante? Nem por isso.

 

Nem por isso.  Uma pessoa organizada, que consiga ler 12 horas por dia, mesmo lendo a um ritmo como o meu, que pode ser confundido com o dos que mergulham na etimologia de cada palavra e vão teletransportados até à Grécia à Roma antigas antes do primeiro ponto final, mas também com o daqueles que têm alguma dificuldade com os endadeamentos lógicos e precisam de um dicionário, como dizia, essa pessoa despacha Infinite Jest em menos de uma semana de dedicação exclusiva, o que não me parece hercúleo. Convém pois começar logo por desconstruir o mito dos leitores de fundo.

 

Dito isto, Infinite Jest tem um dos melhores arranques que conheço e, apenas pelo impacto, sem procurar outros paralelos, coloco-o junto de Para sempre, A Jangada de Pedra D. Quixote, entre outros, impondo-se aqui uma nota de rodapé derradeira para as falhas de memória, que serão poucas e eventuais, e para as falhas que resultam de décadas de leituras em atraso, que são infinitas e uma certeza - recentemente, vejam bem a vergonha, depois de eu ter elogiado a expressão, esclareceram-me com uma delicadeza que traduz um nobre conflito interno entre rigor, modéstia e caridade, sobre a autoria de "azorean torpor". Enfim, não poderia terminar já e violentar aquilo que é o meu percurso consciencioso e ético. Por isso sublinho que estou apaixonado por David Foster Wallace como se fosse uma colegial (de college) de 18 anos e que o David escreve para mim como se jogasse em casa, beneficiando de uma diferença de idade que o transforma num irmão mais velho ideal, se me é permitida a incestuosa associação de ideias, enquanto Lobo Antunes sempre escreveu para mim como se viesse a um campo onde, por tradição, nunca ganha, o que faz da minha cabeça um desses infernos,  se me é também permitido - abuso da paciência do que aqui chegou - este futebolês pouco consonante com o meu percurso nas suas múltiplas direcções, mas que é até um eufemismo para o prazer culposo - tradução de guilty preasure - que espremi da epifania que foi perceber como o virtuoso Lobo Antunes (dos primeiros livros) é completamente esmagado (em virtuosismo vistoso) pelo David (pronunciado aqui à portuguesa, sff). Agora é que é: sim, há neste novelo elementos reconhecíveis na prosa do maradona, mas foi mais ou menos casual, porque a ideia desta série sobre a Jest - nasce um petit nom - é que a voz se aproxime de um discurso falado forjado, cheio de avanços e recuos, envios e reenvios, ressalvas, guinadas, verborreia e até o ocasional palavrão, como "foda-se?" e  "levar no cu?", nas suas múltiplas declinações.  Aliás, para esclarecer que não há pastiche, relembro que a única voz que me entra na cabeça sem pedir licença é a voz de Herzog a falar inglês (nota mental: usar este detalhe no BW, talvez fazendo Guillaume depender da voz de Hans falando em inglês para se conseguir acalmar)... Ah, e aproveitar "prazer culposo" para um poema, mas que não poderá conter alusões à pornografia nem a drogas e deverá sobretudo focar-se nas falhas íntimas que não têm moldura penal, tanto na Justiça como no relacionamento social (se mantidas secretas, bem entendido).

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