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OURIQ

Um diário trasladado

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05
Set08

O Pequeno-almoço do Sargento Beauchamp


Eremita

 

 

 Spoiler Warning: se pensa vir a ler este livro, não leia este texto.

 

Às 5:15 da madrugada de 5 de Setembro de 2008, a novela O Pequeno-almoço do Sargento Beauchamp ainda deve ser a última obra de Vasco Graça Moura (VGM) a ter sido editada, mas é incerto, dada a produção torrencial do cronista, ensaísta, poeta, romancista e tradutor, que por comparação faz de Balzac um sujeito preguiçoso. Escrito com elegância - mas atenção a "picou um olhinho malandro e propôs jogassem aos dados" (pág. 8) e "buganvíleas" (pág. 94) - o grande mérito deste livrinho é o seu título, que mais do que uma mera etiqueta tem um papel crucial no alimentar da tensão. Quem é Beauchamp? O que aconteceu ao pequeno-almoço, em regra a refeição menos propícia a surpresas, a menos que tomada em casa da amante adúltera?  Até esclarecermos estas dúvidas, acompanhamos as desventuras no tempo da primeira invasão francesa de Jacinto Negrão Bezerra de Albuquerque, português afrancesado e homme à femmes - o livro de Vasco Pulido Valente Ir Para o Maneta, de resto também editado pela Aletheia, é um bom compagnon desta ficção, onde Loison (o "Maneta") faz uma aparição as himself, "saqueando, blasfemando, fuzilando, violando..." o meu Alentejo.

 

O destino de Jacinto é dado logo no primeiro capítulo, quando um companheiro de jogo sentencia: "- Com uma sorte assim, as mulheres vão-te desgraçar..." Assim será. Três mulheres, sendo que uma tem um papel meramente lúdico. Trata-se de Juliana de Oyenhausen, condessa de translúcida densidade psicológica quando comparada com a minha adorada condessa da Cartuxa, reduzida à condição de  ninfomaníaca casada com um corno bom anfitrião - "...olhe que a condessa não dispensa a sua flauta"- , e que apenas passa pela novela para satisfazer Jacinto, Junot e o leitor que se entusiasme com: "...se debruçou sobre as almofadas, oferecendo-lhe a nudez macia e rósea da garupa e guiando-lhe o sexo por entre as nádegas, a agitá-las numa fúria de mar encapelado". Haverá um outro instante de maroto erotismo, a acompanhar outros marotos apartes, em mais um claro sinal de que tende a ser desastrada ou pouco ambiciosa a forma como os ficcionistas lusos tratam o sexo, com a ressalva de poder ser determinante a diferença na exigência e sensiblidade que temos perante a língua materna e as línguas estrangeiras (um bom teste seria ler os diálogos de Exit Ghost, de Philip Roth, em português depois de os ter lido no original). Não sendo o estilo um rigoroso pastiche de época, a liberdade do escritor seria total, mas nem sequer se reclama aqui um tratamento mais gráfico e cru, o desejo era que o sexo surgisse mais como pulsão do que tempero e isso pode fazer-se com as nádegas de Juliana tão quietas como o Mar dos Sargaços. Mas é tempero bem doseado, valha-nos isso, pois se  a primeira metade do livro vive muito deste colorido de mundanidades, a segunda tem apenas a alusão a uma violação seguida de assassínio, o que ajuda a construir um degradé a tender para o sombrio. As outras duas moças são Mariana de Niza (uma efémera e socialmente condenável paixão, mas que o prenderá por causa de uma gravidez) e Leonor, Sardoal a paixão ideal que nunca se concretizará. 

 

Jacinto, que passa meio livro entre as mundanidades e intrigas da capital, vê-se obrigado a ir ter com a Mariana, que deixara Lisboa e se instalara em Amieira de Niza para que não lhe notassem a gravidez indesejada. Este  trecho, que tinha todos os pretextos para ser empolgante, vale mais pela viagem interior de Jacinto do que pelas peripécias on the road e é onde o livro começa a perder o ímpeto inicial. Daí a importância do título. Numa anedota, o entusiasmo do começo não esmorece, e é por isso que o fim tem de surpreender. O mesmo ainda sucede no conto e na novela, mas menos no romance (excepto nos policiais) e nada na série de tomos de um diário. Esquecer o entusiasmo inicial alivia o grau de exigência que se tem com o final. Existem obviamente formas de subverter estas regras, a começar no efeito surpresa que é a ausência de surpresa. VGM é sóbrio: limita-se a usar o título como um teaser de intensidade crescente, que nos resgata ao sono quando o entusiasmo do início deixa de ser sustentado. Esta passagem do entusiasmo incial para a expectativa do final sucede com uma eficácia que deveria fazer escola entre os trapalhões velocistas de estafeta dos EUA. Beachamp vai então crescendo na cabeça até um plateau de ridícula obsessão - "mas que terá ele comido ao pequeno-almoço?" -  e só não fica para a história como um modesto Godot porque tem uma aparição fulgurante e decisiva na penúltima página. Embora fosse dispensável uma primeira referência ao sargento na antepenúltima página, a verdade é que com outro título esta novela deixaria o leitor frustrado. Quando se justifica o título, cumpriu-se a missão.

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