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OURIQ

Um diário trasladado

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31
Ago08

As fitas de Lisboa em tempo real


Eremita

 

 

Cineteatro já não vive só de Bruce Lees, mas não nos dá ainda todo o cinema. Quando ontem abandonava a sala depois de ver aclamado (?) Batman, já tarde, seriam talvez umas 23:30, fui abordado por um rapaz com uma discrição tal que julguei querer ele vender-me haxixe. Foi num constante registo de sussurro que me peguntou se estaria interessado em quotizar-me para ver  "as fitas de Lisboa em tempo real". O "tempo real", presumi bem, significa ver os filmes em Ourique enquanto estão em cartaz em Lisboa. Fiquei curioso, pois a proposta parecia-me mirabolante, e apenas me entusiasmei quando na oferta para esta semana vi que figuravam todos os 3 filmes que seguramente teria visto caso me encontrasse em Lisboa. O esquema é simples: por 5 euros mensais tenho direito a um livre-trânsito para a sala de cinema que este rapaz gere na clandestinidade. As sessões são sempre à meia noite e o lema da casa é nunca repetir um filme - "nem mesmo o Citizen Kane". Tudo isto me pareceu para lá de Cine paradiso e no caminho para a sala, ainda sem me ter comprometido, dei comigo a imaginar com muito pouco rigor um cinema ao relento, nos arredores da vila, cinco filas de desengonçadas cadeiras sobre o restolho orientadas para uma alta parede caiada e com algumas fissuras, que envelheceriam o rosto de Penélope Cruz e fariam de Tommy Lee Jones um mostrengo. Nada disso, claro. A clandestinidade obriga o rapaz a projectar as "fitas" num armazém onde creio ter encontrado a vanguarda de Ourique. Receei uma politização excessiva, mas duas raparigas muito bem vestidas e perfumadas tranquilizaram-me e os únicos problemas imediatos pareceram-me ser o excesso de fumo, que a luz do projector exagerava, e a péssima qualidade do som e da imagem. "Este saquei-o ontem do cinema King", disse o rapaz com orgulho, como se o filme fosse pescado. Tratava-se de Aquele querido mês de Agosto, película cuja leitura de Silvestre, Mexia e Lavos me despertara o interesse. O rapaz -por razões óbvias não o nomeio e por imperativos de estilo não trato por "Alfredo" - convidou-me a ficar: "Oferta da casa. Depois decide". Decidir o quê? É verdade que a película do rapaz  capta também o cabeceio e a grotesca risada da intelectualidade lisboeta na noite de sexta passada, pois o que ele faz, à terceiro mundo, é filmar a projecção da plateia, mas foi a minha melhor noite desde que aqui cheguei. O filme, belíssimo, de uma inteligência, humor e despretensiosismo raros, deixou-me tão bem disposto que - imaginem - me apeteceu depois conviver com os restantes espectadores. Saí a tempo, mas não sem antes adiantar ao rapaz 30 euros. Quando penso que julgava não me aguentar aqui mais do que um mês...

 

Osvaldo Silvestre esgota e até acrescenta, na sua crítica. Resta-me apenas assinalar o papel do único trecho que não é de música de bailarico e de como foi judiciosa ou acidentalmente feliz a escolha de música barroca, pois a música romântica ou contemporânea não funcionaria tão bem como elemento legitimador, por contraponto, da restante "banda sonora" ou, se se preferir, "texto sonoro". A verdade é que a música barroca, intrinsecamente bela e complexa, naquele contexto nos soa deslocada, como se subitamente fôssemos obrigados a reconhecer que o popularucho, desde o primeiro fotograma recebido com simpatia mas inegável condescendência,  acaba por nos conquistar, o que volta depois a ser frisado, desta vez sem contraponto e apesar de a cena de acção que então decorre estar muito mal filmada, com as belíssimas imagens de um incêndio ao som pimba. Uma nota final para o falso blooper do técnico de som - o homem do "coelhinho" - com excesso de zelo, que remete obviamente para o jogo de som e imagem que Silvestre destrinça mas que vale também, isoladamente, como um dos momentos mais hilariantes do cinema português que conheço, com aquela característica indefinível mas reconhecível de uma cena de culto.

 

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