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OURIQ

Um diário trasladado

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Um diário trasladado

28
Jul20

Bruno Candé Marques


Vasco M. Barreto

Screenshot 2020-07-28 at 12.22.45.png

É estúpida a ideia de que um branco só mata um negro se for racista. Estúpida e ofensiva para os negros, acrescento. Porém, com o que foi já apurado a partir de relatos de lojistas que nem sequer eram amigos da vítima, é evidente que o assassino de Bruno Candé Marques andava a incubar ódio racial. À PSP pode dar mais jeito outra tese que previna a escalada de violência e talvez por isso tivesse insistido na irrelevante ausência de comentários racistas no momento em que o crime foi cometido ou posto a circular a hipótese da agressão prévia de Candé ao homem que depois o matou. Sem pôr em causa a importância de apurar o que realmente aconteceu, que conclusões devemos tirar caso se confirme a eventual agressão prévia de Candé? A jornalista do Observador inventou já uma dicotomia absurda: racismo ou vingança? Pelos vistos, é preciso lembrar que muitos casos de linchamento de negros nos EUA foram de racismo e vingança. A vítima de linchamento era frequentemente acusada (de modo fraudulento ou não) de assassínio ou violação. 

 

 

 

 

25
Jul20

Um herói do Rio


Vasco M. Barreto

Eis uma entrevista extraordinária. Marcelo Freixo é um herói da estirpe mais elevada, que inclui todos aqueles que lutam por uma sociedade mais decente, colocando em risco a sua vida e a dos seus. Em termos de heroísmo comparado, seríamos obrigados a concluir que não há heróis em Portugal. Talvez haja por aí cidadãos potencialmente muito corajosos, mas não havendo crime organizado violento entre nós, como revelá-los? Para subir à condição de herói português, basta hoje alguém arriscar perder o emprego por uma causa justa ou dar mostras de um qualquer outro gesto de coragem assim assim.

 

 

25
Jul20

Os estóicos da COVID-19


Vasco M. Barreto

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Ainda corre por aí a ideia de que o lockdown e outras medidas não-farmacológicas extremas como o rastreamento intensivo foram acções inúteis que ignoram a nossa relação ecológica com os vírus.  A persistência desta ideia em múltiplas declinações é desconcertante, pois pode ir da estupidez grotesca do "e daí?" de Bolsonaro à sofisticação aparente da epidemiologista Sunetra Gupta.

Sem alimentar já qualquer esperança de que esta seita de estóicos da COVID-19 algum dia consiga sair do casulo de negacionismo em que se fechou, limito-me a assinalar que muitos deles deveriam estar mortos se fôssemos levar a sério a distinção anacrónica que professam entre ameaças externas (um terramoto), a que devemos reagir como nos defendemos de um inimigo, e internas (as relações ecológicas do homem com outras entidades biológicas, incluindo parasitas e vírus), que na verdade são parte de nós e apenas podemos ir gerindo como se tolera uma sogra malvada. Que os vírus são parte de nós é literalmente verdade e desconfio que muitos destes estóicos nem imaginam como se formou o genoma que os fez. Mas realmente relevante são estas duas noções: 1) o ecossistema em que a maior parte da humanidade vive foi feito por nós; 2) a nossa esperança de vida actual é uma aberração.

Se estes estóicos querem mesmo discutir ecologia, recomendo que aprendam primeiro o que é o extended phenotype e como a cultura forja a ecologia em que hoje todos vivemos. Por isso, como inspiração, sugiro que ponham o Strass a tocar, vão a esta página,  inclinem depois um pouco a cabeça, experimentem a epifania do jovem primata diante da sua imagem no espelho e desatem a reflectir ao ritmo dos membranofones. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

25
Jul20

Da inércia


Eremita

Disseram-me um dia, diante do Tejo, que na sua aproximação ao porto de Lisboa os grandes cargueiros desligam os motores ainda o farol do Bugio mal se vê. Continuo a desconfiar e creio até que um cargueiro de motor desligado seria uma imprudência, mas quem falava usou o exemplo para me explicar a inércia e na pedagogia a impressão conta sempre mais do que a precisão.

A inércia, segundo um dicionário, é a "resistência de um corpo ao movimento ou ao repouso". Esta obstinação cinética já sofreu muitos abusos metafóricos, nomeadamente quando nos referimos ao imobilismo e atrito das instituições. Permitam-me mais um abuso. Tenho um tio com mais de oitenta anos que já só invoca os amigos e outras referências da infância em Ourique. Nada mais lhe faz sentido. E no Público, Ferreira Fernandes apresentou-se hoje como se tudo o que lhe aconteceu desde o final dos anos 60 tivesse sido irrelevante. Parece que todos nós desligamos o motor a partir do vinte e tais.

 

 

 

 

24
Jul20

11


Eremita

Screenshot 2020-07-24 at 11.03.19.png

A mulher já entrara hesitante na sala, mas diante de Julião ficou mesmo muda. Em poucos meses, ele passara de desconhecido a activista mediático e gozava agora do maior dos luxos, que é a opção de escolha. De todo o país chegavam relatos de discriminação que a sua equipa hierarquizava segundo o grau de injustiça e ele rapidamente reordenava na sua cabeça de acordo com as noções de marketing político. Só assim se explica que viesse a pegar no caso trazido por esta mulher e não no de dois miúdos que ainda levavam reguadas do professor de uma remota localidade quando apanhados a escrever com a mão esquerda. A mulher, que se habituara a ver Julião na televisão e, apesar da timidez, caminhava a passos largos para a radicalização, não só era mãe solteira como telegénica. Julião percebeu de imediato que tinha de armar um esândalo por causa de uma ficha de avaliação do terceiro período em que a condição de canhoto não é enunciada mas apenas deduzida. 

Continua

 

 

 

 

19
Jul20

Manuel Hermínio Monteiro


Eremita

No «Independente», a certa altura escrevi um artigo sobre o apogeu da Assírio — «Balões e alfinetes», é o título... — a pretexto da comemoração duma efeméride, em que tentei desmontar o mito Manuel Hermínio Monteiro.
Julgo que o seu papel merece ser reavaliado, numa eventual história da edição portuguesa das últimas décadas, porque no meu entendimento essa moldura mítica é manifestamente exagerada e até incongruente. Ele aproveitou um vazio clamoroso, ao chamar a si autores sem editor. O Teixeira de Pascoaes não tinha editor desde a Bertrand dos anos 1950-60. Hoje em dia ninguém o diria, naquela altura até Herberto Helder não tinha editor que o defendesse. O próprio Cesariny... Quem queria publicar a poesia de Cesariny? A partir dos créditos do resgate desses autores-charneira, construiu-se certa reputação, é verdade, mas por outro lado misturou-se com gente sem qualquer credibilidade, como Moisés Espírito Santo... Preencheram-se vazios, mas não se fez muito mais. Quem mudou a Assírio & Alvim foi o Miguel Esteves Cardoso... foi o êxito dele que deu à editora dinheiro para fazer coisas que nunca fizera antes. E no entanto o Hermínio nunca estimulou o Miguel, que com o seu bilinguismo e talento teria sido um extraordinário tradutor de Beckett, Yeats e outros de sua grande estima. Confiou o Yeats a José Agostinho Baptista, que fez uma tradução desastrosa... Não esquecer que quem publicou a sua versão do Pioravante Marche! de Samuel Beckett foi Guilherme Valente, na Gradiva (1988), já o A Causa das Coisas (1986) era um sucesso de vendas e reimpressões... Vasco Rosa, entrevistado pelo "i"

 

18
Jul20

Como lidar com a parvoíce


Eremita

Circula por aqui alguém que, vítima de uma frustração sexual, de neotenia adolescente ou da síndroma de Tourette, se diverte a escrever nos comentários o que antes se via nas portas das retretes públicas. Se esta brincadeira continua, serei obrigado a introduzir a aprovação prévia dos comentários.  

 

15
Jul20

Riccardo Marchi e o grupo dos 67


Eremita

Screenshot 2020-07-15 at 10.18.03.pngfonte

Causa estranheza, desde logo, que 67 vozes autorizadas se levantem no espaço público contra uma só, ainda mais quando esta última não é a de um responsável público [o investigador Riccardo Marchi] a definir ou implementar uma política, mas tão só a de um investigador que escreveu um livro [sobre o Chega]. Luís Pereira Coutinho, Público

Valerá a pena lembrar que o branqueamento do racismo do Chega feito por Riccardo Marchi seria menos conhecido se 67 académicos, incluindo algumas das figuras de proa das Ciências Humanas, não tivessem protestado? O que me surpreendeu verdadeiramente é a convicção destes académicos de que as opiniões de Riccardo Marchi são científicas. A ciência política sobre partidos contemporâneos, sobretudo quando feita à base de técnicas elementares como a recolha de depoimentos, tem muito mais de política do que de ciência. Toda a gente sabe isto, menos os 67 académicos. Além de contraproducente, há algo de quixotesco e self-serving nesta investida dos 67. Mas reconheço que "grupo dos 67" soa muito bem. 

 

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