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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

21
Jun20

Coragem de grupo


Eremita

Dicionário de expressões novas e neologismos

Coragem de grupo: exibição de coragem dependente de terceiros. Na sua manifestação tradicional, o corajoso de grupo mostra-se agressivo e ameaçador apenas quando na presença de amigos ou apoiantes que superam em número e força a(s) vítima(s). Em 2020, a coragem de grupo passou também a descrever um comportamento de ostentação de coragem e do exercício da liberdade individual só possibilitado pelo comportamento responsável e respeitador de uma maioria silenciosa e menos dada à bazófia que impediu a propagação da epidemia de COVID-19 para níveis que teriam deixado o corajoso de grupo agorafóbico durante um ano e hipocondríaco por uma década. Segundo a equação clássica, comportamentos de coragem de grupo de nível Manuel  "ninguém me cala" Alegre ocorrem quando pelo menos 60% população se comporta como gente crescida. Segundo modelos mais sofisticados que levam em conta a heterogeneidade populacional, bem como a fragmentação social e amplificação de ideias possibilitada pelas redes sociais, a frequência de surtos de coragem de grupo está correlacionada positivamente com a percentagem da população que adopta um comportamento responsável até ao ponto de inflexão dos 85%, passando então a correlação a ser negativa para a frequência e positiva para o nível de coragem de grupo. A título de exemplo, aos 90% de comportamento responsável emerge a coragem de grupo de nível Ana Gomes e aos 99% os surtos de coragem de grupo são raríssimos mas tendencialmente de altíssimo nível (Chuck Norris), nomeadamente nas echo chambers das redes sociais. 

 

21
Jun20

Pedro Lima


Eremita

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fonte*

É na qualidade de pai que acumula alguns daqueles episódios de depressão retratados em séries de televisão manhosas com um sujeito esquálido e a precisar de um banho na penumbra de um quarto cuja cama está rodeada de restos de fast food que, depois de ter sido informado da especulação à solta sobre a causa da morte do actor Pedro Lima, me pareceu importante avisar os mais incautos à beira do precipício da perplexidade para que não façam figura de urso, o que no caso concreto corresponde a fazer figura de Henry Rollins. Este troglodita da opinião tem o hábito cobarde de criticar suicidas mortos, nomeadamente os suicidas que deixaram descendentes, como David Foster Wallace e Robin Williams. A primeira evidência que salta à vista é o contraste que se estabelece naturalmente ao incluir num mesmo texto ou na mesma frase o nome de um Rollins e dois génios com a grandeza de Wallace e Williams. Mas adiante. Sem que se possa concluir que eu tenho uma opinião, um palpite, uma impressão ou até um feeling sobre o que aconteceu ao actor, atalhemos: Rollins fica sempre chocado quando alguém com filhos pequenos se suicida e condena a imoralidade do acto quando o cadáver ainda está morno, como se partilhar a sua opinião fosse mais importante do que o sofrimento dos familiares e amigos da vítima. O erro de Rollins é assumir que um suicida, no momento em que se suicida, pensa com lucidez. Há suicidas lúcidos que voltariam a repetir o acto caso falhassem e há suicidas que acordam aliviados e envergonhados de uma tentativa de suicídio falhada; o facto de alguns destes suicidas falhados reincidirem diz mais sobre a sua vulnerabilidade do que sobre a convicção com que se arrependeram. O único comportamento imoral ou irresponsável de um progenitor com tendências depressivas seria ele ou ela não fazer o necessário para controlar a depressão da melhor forma que a vida entretanto lhe ensinou. Se será bem-sucedido ou não, nunca se pode ter a certeza. Mas esta incerteza aplica-se a toda a gente que cometeu a imprudência de se reproduzir, com ou sem histórico de depressões. Estes apenas terão sobre aqueles a desculpa de que a vida os apanhou de surpresa.

* Não conheci o actor, nem sequer o seu trabalho (só o vi uma vez numa peça de teatro), mas a L. teve uns contactos profissionais com ele e disse-me várias vezes que era das poucas pessoas decentes do meio. Mostro a foto porque ela lê o blog e também porque só um homem que ainda esteja convencido ou julgue necessário convencer os outros de que os homens heterossexuais não avaliam os outros homens poderia fingir que ficamos indiferentes à beleza do Pedro Lima. 

 

 

 

 

21
Jun20

O negacionismo de Henrique Pereira dos Santos (4)


Eremita

Precipitação e viés de confirmação

Uma das características de quem se deixou aprisionar num pensamento circular é a acusação de que a circularidade está nos outros. O pensamento de HPS é a pura definição de circularidade pois ele decretou que as medidas de confinamento não resultam e passou o tempo a negar a evidência contrária. Mas para ele são os epidemiologistas que passam o tempo a mostrar que o confinamento funciona porque não admitem outra possibilidade. Para chegar a esta conclusão, HPS criou uma caricatura que pudesse criticar. Muitas teorias, quando simplificadas na forma de slogan, soam a circularidades. Até um expoente da epistemologia como Karl Popper julgou ter detectado uma tautologia na teoria da evolução: quem sobrevive são os mais fortes... que são aqueles que sobrevivem. Mas como muito bem explicou Ernst Mayr num trabalho clássico sobre a história da Biologia, a teoria da evolução inclui várias dimensões (vídeo curto!) e não é redutível ao bordão the survival of the fittest (que nem sequer foi inventado por Darwin, apesar de ter sido depois por ele adoptado). Esta referência vem com uma esperança: se Kopper foi capaz de mudar a sua opinião sobre a teoria de Darwin, talvez quando tudo amainar também HPS possa rever a sua posição e passar a olhar para os epidemiologistas como cientistas e não membros de uma seita embrenhada num programa metafísico com as mesmas características da psicanálise freudiana ou do materialismo histórico de Engels e Marx, ou seja, praticantes de uma pseudociência que a validação empírica não pode sequer beliscar.

Não cometerei a imprudência de provar que HPS está errado sobre a epidemiologia em geral e as causas que levaram ao controlo da pandemia nos diferentes países por onde o Sars-Cov-2 passou. Seria preciso rever a já abundante evidência à escala dos países (a China e as medidas de confinamento extremo, a Coreia do Sul e o rastreamento maciço, a Suécia vs. países vizinhos,  a correlação entre a gravidade da epidemia e resposta dos governantes, incluindo a hesitação de Johnson, a incompetência de Trump e a loucura de Bolsonaro, já muito próxima do genocídio pela negação evidente e ostensiva da ciência) e também a imensa evidência à escala regional, como o caso de sucesso pela adopção de medidas não-farmacológicas que foi Veneto, na Itália. Este annus horribillis para todos é também um ano milagroso para os epidemiologistas pela qualidade dos dados que estão a ser registados. Não tenho tempo para rever e sintetizar toda esta literatura. Se HPS interpretar esta desistência como uma derrota minha, não perderei depois o tempo que contava poupar a mostrar que o motivo não era esse — seria uma contradição minha idiota e esta série de textos já é, em larga medida, um overkill difícil de justificar. O princípio que ponho em prática é muito simples e, ao contrário das teorias complexas, os princípios resistem bem à redução a aforismos: extraordinary claims require extraordinary evidence (Carl Sagan). Em nenhum momento HPS foi capaz de reunir a evidência necessária para que se pudesse começar a dar algum crédito à sua tese extraordinária. A evidência sólida sobre a ausência de imunidade de grupo e a ausência de evidência sobre qualquer outra causa (poluição atmosférica, radiação ultravioleta, enfraquecimnto do vírus por degenerescência genética, etc.) capaz de explicar as diferentes curvas registadas nos diferentes países leva qualquer pessoa racional a concluir que foram as medidas não-farmacológicas a vergar as curvas, mesmo sem recorrer a argumentos de autoridade ou demonstrações matemáticas complexas e incompreensíveis para o cidadão comum. Basta usar o princípio da parcimónia: a eficácia das medidas não-farmacológicas é o cenário mais simples e não temos nenhuma evidência sólida que nos leve a complicar esta explicação. Não se trata de defender a aplicação sem critério de medidas não-farmacológicas, limito-me a fazer uma simples defesa do bom senso.

Um exemplo claríssimo do pensamento viciado de HPS foi a forma como reagiu às novidades sobre a imunidade de grupo. HPS voltou a mentir há uns dias quando apareceu aqui para afirmar e reafirmar: 

...mas reparei que o texto dizia que eu defendo que as epidemias param quando se atinge a imunidade de grupo.
É mentira.

(...)

É mentira e não tem maneira de dizer o contrário a partir dos textos que escrevi.
Simples.

HPS,  17.06.2020

A lata deste homem é profundamente revoltante, mas chega a dar pena. Comparado a HPS, Pedro não negou que conhecia Cristo assim tantas vezes. HPS só pode estar a ser vítima de uma memória selectiva mais zelosa do que a melhor das enfermeiras na preservação dos sinais vitais num pavão incapaz de reconhecer as asneiras sem arriscar uma apoplexia. Nos últimos dias, dei exemplos graúdos e miúdos da flagrante da incapacidade que HPS tem em assumir os seus monumentais erros. Prometo o exemplo mais indecente para amanhã e o mais ridículo de todos para terça, mas este resolve-se já. A grande dificuldade não é encontrar a agulha no palheiro da abundante prosa de HPS que o desminta quanto à importância que atribuiu à imunidade de grupo; a dificuldade é mesmo qual escolher, já que foram tantas. Talvez esta: 

Mas à medida que há mais gente infectada, portanto, não infectável, a probabilidade do vírus infectar alguém nesses três dias decai rapidamente porque mesmo que chegue aos pulmões dos que já foram infectados, deixa de estar activo porque é anulado pelos anti-corpos, ou seja, o vírus entra num beco sem saída. (não, não é preciso esperar por ter 60 a 70% da população infectada para que isto aconteça, é uma evolução progressiva).

Foi este processo, e não a ditadura chinesa, que parou o alastramento da epidemia na China, na Coreia e na Itália (para os que estranharem, a mortalidade na Itália tem hoje uma sólida tendência decrescente, o que significa que há uma semana atrás a infecção iniciou também uma sólida descida). O Sol e a Fúria, 2.04.2020

Esta passagem é de Abril de 2020. Sabemos hoje que não foi a imunidade de grupo a vergar a epidemia. Porém, não sobram dúvidas de que era essa a tese (ou uma das teses) de HPS. É verdade que ele tinha outras ideias bizarras no início, muito mal definidas e — francamente — incompreensíveis. Mas o que destaco a amarelo é uma definição inconfundível de imunidade de grupo. HPS podia estar convencido de que não seria preciso chegar ao limiar previsto pela equação clássica e se ainda tiver pachorra para me responder só lhe restará frisar que a epidemia começa a abrandar ainda antes desse limiar, seja ele qual for, na sua estratégia assente numa literalidade e picuinhice absurdas. Enfim, se este simples confronto de citações não chega para concluir que estamos na presença de um reiterado bullshitter, o que será preciso?

Apesar de menos urgente do que tapar logo a brecha no dique da razoabilidade que hoje a voz de HPS representa sempre que se manifesta sobre epidemiologia, é muito mais interessante analisar o seu entusiasmo precipitado com o que ia saindo na imprensa sobre a imunidade de grupo no contexto da COVID-19. Há uma dimensão de pequena tragédia nesse entusiasmo. A ilusão de juventude que nos resta a partir de uma certa idade é mesmo o investimento numa aprendizagem nova (de um instrumento musical, de um país que se escolhe para destino turístico, de um prato de cozinha, de uma qualquer área do conhecimento). Mas quando essa aprendizagem apenas revela o grau de enquistamento a que os anos de vida ou circunstâncias particulares nos conduziram, assistimos à negação da juventude.  Falta ao entusiasmo de HPS a candura — além do estado de graça— de uma Catarina Furtado a falar sobre a sua gravidez como se fosse a primeira mulher a ter engravidado no planeta Terra (esta saquei de um blog desaparecido: Perguntar não ofende). Quando ele se entusiasmou com a ideia de heterogeneidade nas populações (que pode baixar o limiar da imunidade de grupo), reagindo como se a sua epifania também assinalasse o momento em que um conceito com décadas de existência tivesse também entrado na consciência dos epidemiologistas, ou quando reagiu em pose taxativa e triunfante aos 14% de seropositivos de Ganglet, na Alemanha, ou ainda quando gritou um sonante "Eureka!" a propósito do modo preferencial de transmissão do vírus, em todos esses casos testemunhámos o deslumbramento de um homem iludido com a aparente confirmação das suas ideias. Veio a provar-se que estava tudo factualmente errado, tudo mesmo, but that's not the point. O que importa frisar é o estado mental de um homem que não só atribuiu à imunidade de grupo o fim da epidemia da COVID-19 como provavelmente em Abril teve sonhos húmidos com a imunidade de grupo. Que ele ainda tenha a lata de afirmar e reafirmar que não disse que as epidemias param quando se atinge a imunidade de grupo é mais um daqueles casos paradoxais em que a pessoa inteligente consegue ser muito estúpida. E se HPS voltar a dizer que menti sobre este assunto, sugiro que se interne num hospício ou se prepare para se defender na justiça de uma acusação de difamação.

Amanhã descreverei a maior aldrabice que HPS escreveu até agora sobre a COVID-19.

20
Jun20

Aviso ao navegantes


Eremita

Depois de terminar a série sobre o HPS, o Ouriq deixará de ter comentários durante uns tempos. Os comentários perturbam a minha vida doméstica e, parafraseando Diego Armando Maradona, não se cumpriu o sonho e é preciso encontrar um caminho, voltar às raízes. As minhas desculpas aos comentadores que estimo e que me honram com a sua presença: o caramelo, o Nelson, a Marina (apesar de discordar de quase tudo o que ela pensa), a Sarin e o ocasional Abel. Lá para Outubro volto a abrir os comentários. 

 

 

 

20
Jun20

Fenómenos da COVID-19


Eremita

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Dedicado ao grande Malomil, autor da série Portugal Sensacional

Os fenómenos do Entroncamento eram sobretudo hortícolas: couves exuberantes, pornográficos pepinos, aquela abóbora que ainda hoje detém o recorde de peso e diâmetro no circuito das feiras agrícolas e será lembrada no meio com um nome próprio ternurento (talvez "Matilde"). Os fenómenos da COVID-19 são comportamentais. Por exemplo, o Sporting estaria à frente do FCP e do Benfica se o campeonato tivesse começado em Junho. Trata-se de uma conclusão precipitada e forçada de sportinguista sequioso de vitórias, mas é fenomenal. Outro exemplo fenomenal: em resposta à interdição ou limitação da entrada de cidadãos vindos de Portugal em 17 países, o Governo avisou: "Portugal reserva-se o direito de aplicar o princípio da reciprocidade”. Só formalmente. Porque, na prática, se um país não deixa lá entrar cidadãos que se encontram em  Portugal, ninguém de lá virá fazer férias aqui, sob pena de não poder regressar a casa, com ou sem a reciprocidade de Portugal. A reciprocidade de que Portugal fala não existe em situações em que agir primeiro conta. Percebe-se a frustração, we've all been there: o namorado que se apressa a dizer que também quer o fim da relação ao perceber que a namorada acabou de o despachar ou o coitado que se despede depois de ter sido despedido. Que a malta do Direito, sempre muito dada a expressões pomposas como "jus sanguinis" e "jus soli ", se tivesse saído com uma resposta digna de uma cena de Yes Minister é simplesmente fenomenal. Tem de ser fenomenal. Pois creio que mesmo depois disto não devem sobrar grandes dúvidas quanto à superior inteligência de Augusto Santos Silva. A prevenção do dano reputacional é uma das vantagens de aceitarmos que forças sobrenaturais actuam neste momento sobre todos nós.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

20
Jun20

Sobre o padre António Vieira


Eremita

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No Eixo do Mal, Daniel Oliveira reduziu a recente vandalização da estátua do padre António Vieira a um pequeno incidente de proporções exageradas pelos media. Não sei se terá sido só isso. Já não é a primeira vez que uma estátua de António Vieira aparece nas notícias como alvo de movimentos e contra-movimentos, e só assumindo algum excepcionalismo luso se poderia esperar que em Portugal não acontecesse o que vem sucedendo já há algum tempo em todos os países com passado colonial ou esclavagista. O meu desejo é que a estátua de Vieira sobreviva a esta gente. Por isso, preocupa-me a fragilidade da defesa de Vieira que tenho lido e ouvido por aí, em que a informação essencial é sonegada com um descaramento inesperado. Li este texto de António Carlos Cortez, túrgido de referências aos intelectuais incontornáveis que trataram estas questões e que menciona o célebre Sermão de Santo António aos Peixes e o amor que Vieira tinha pelos índios, mas sem qualquer alusão às ideias hoje problemáticas de Vieira. Ouvi o Pedro Mexia num exercício de citação selectiva (o inevitável Sermão à Confraria dos Pretos da Bahia), que também deturpa o pensamento relevante de Vieira para a polémica em curso. E li o texto de Bruno Cardoso Reis, que arranca de forma desastrada com considerações sobre o valor estético da estátua, o que me leva a pensar que o Bruno abriria um texto sobre o caso Marega comentando sex appeal do sorriso do jogador. Não sei se estes defensores de Vieira escondem as passagens críticas do prosador por inabilidade ou se seguem alguma agenda em que a defesa de Vieira não pode comprometer a Igreja Católica, uma tese que sou incapaz de generalizar e que nem sequer consigo atribuir com convicção a Mexia, um conhecido católico. Trata-se de um verdadeiro mistério. Eu diria que uma defesa competente de Vieira faz-se sempre a três tempos, primeiro mostrando as passagens críticas, a seguir explicando a doutrina da Igreja que vigorava naquela época e os interesses de Vieira, e só depois demonstrando o génio literário e a empatia q.b. de Vieira pelos mais vulneráveis. Enfim, não pretendo meter a retórica alheia numa camisa-de-forças demasiado apertada; se servir o vosso estilo, troquem a ordem destes tempos desde que não se saltem nenhum. Felizmente, ainda há algum jornalismo em Portugal para contrabalançar as pulsões mancas da opinião publicada, como este competentíssimo artigo de Mário Lopes, no Público, sobre a vida e pensamento de Vieira.

Continua. Ainda hoje: memória versus História e indivíduos versus instituições. Agora vou correr.

 

 

 

 

19
Jun20

Um blogger a sério


Eremita

Em plena série que terá pelo menos nove posts (... and counting), tendo por pretexto uns meros arrufos entre dois bloggers, um projecto que 99% dos leitores receberão com indiferença e perplexidade, espero que ninguém se equivoque e julgue que me considero com autoridade moral para pôr em causa a obsessão do valupi com o João Miguel Tavares. Pelo contrário, é o meu guilty pleasure. Reconforta-me saber hoje que, na ressaca de cada 10 de Junho, teremos durante as próximas décadas a resmunguice do Valupi assistida pelo seu brilhantismo analítico e capacidade de trabalho. Isto é absolutamente maravilhoso. Maravilhoso. Assistimos ao nascimento do post na sua versão longform. A blogosfera assume a sua verdadeira natureza: barroca, obcecada e monumentalmente inútil. Não estou a ser irónico. O que o Valupi fez é difícil, inteligente e até arrebatador, sem subtexto ou mensagem subiminar da minha parte. Reparem, eu, que considero o nosso poeta-cronista-ensaísta-teólogo-escritor-intelectual-vice-reitor-da-Universidade-Católica-Prémio-Cidade-de-Lisboa-de-Poesia-Prémio-PEN-Clube-Português-Prémio-Literário-da-Fundação-Inês-de-Castro-Prémio-Literário-Res-Magnae-Grande-Prémio-APE/CM-de-Loulé-Crónica-e-Dispersos-Literários-Grande-Prémio-de-Poesia-Teixeira-de-Pascoaes-Prémio-Capri-San-Michele-Prémio-"Uma vida por... paixão!"-do-jornal-italiano-Avvenire-Co-vencedor-do-prémio-"Cassidorio il Grande"prémio-Helena-Vaz-da-Silva-futuro-Prémio-Pessoa-Comendador-da-Ordem-do-Infante-D.-Henrique-Comendador-da-Ordem-Militar-de-Sant'Iago-da-Espada-presidente-das-comemorações-do-10-de-Junho-de-2020-Medalha-de-Mérito-da-Região-Autónoma-da-Madeira-pároco-cardeal-Arquivista-do-Arquivo-Apostólico-do-Vaticano-Bibliotecário-da-Biblioteca-Apostólica-Vaticana-conselheiro-de-Francisco-e-candidato-a-papa um açambarcador de distinções e uma das figuras mais sobrevalorizadas e aborrecidas da pátria, até tolero mais um elogio ao ubíquo Tolentino se o Tolentino for usado como matéria-prima para o Valupi brilhar e ainda lhe der jeito para ofuscar o João Miguel Tavares. E se o plano do Valupi é humilhar João Miguel Tavares pelo confronto da sua prosa e pensamento limitados com os de figuras realmente maiores, como Jorge de Sena, só posso aplaudir, porque uns parágrafos de Sena a meio do dia, apanhados assim de repente, quando menos se esperava, são uma revigorante chuveirada de humildade que nos sacode da bebedeira de mediocridade em que vivemos e nos faz querer ler mais e pensar melhor. O que me move não é um ódio a João Miguel Tavares, uma figura que aparenta um contentamento com a vida que criou algo curioso e tem um modus operandi questionável,  mas a quem reconheço qualidades. O que eu tenho mesmo é apreço pelas qualidades intelectuais e a excentricidade do Valupi, apesar das discussões violentas em que ocasionalmente nos envolvemos a propósito de José Sócrates e do valor do anonimato online - sim, são os nossos grandes temas (barroquismo? Check. Obsessão? Check. Inutilidade monumental? Check). Percebe-se isto? É convincente? Talvez não. Devem pensar que há aqui alguma marosca, qualquer coisa sublimar na negação do subliminar, um certo avesso do avesso do avesso do avesso, só que de número ímpar, ao contrário do que diz a canção. Não há. Fiquem lá com os vossos retweets, os vossos likes, as vossas stories e o tick tock das crianças. Eu parei circa 2003 e não quero outra coisa. Os blogs nunca estiveram em crise, meus caros. 

 

 

 

 

 

 

 

18
Jun20

O negacionismo de Henrique Pereira dos Santos (3)


Eremita

Conversa engripada

Comparar a COVID-19 e a gripe foi um exercício popular entre os relativistas da gravidade da COVID-19. A gripe parecia ser o exemplo ideal para ilustrar o aparente alarmismo que alastrara pelo planeta. Tal como a COVID-19, a gripe é uma doença infecciosa viral das vias respiratórias frequentemente fatal entre os mais idosos e que mata muito por ano (99 000-200 000294 000-518000 ou 290 000-650 000 pessoas, considerando três estimativas recentes). Porém, ao contrário da COVID-19, que no fim de Março tinha feito menos de 40 000 mortos oficiais em todo o mundo, a gripe quase nunca abre noticiários e há décadas que não paralisa continentes inteiros. Haveria melhor comparação para expor os dois pesos e duas medidas? Lamento, mas nem sequer em Março a comparação era persuasiva. Tratou-se de mais uma das manobras reaccionárias clássicas e está identificada há muito tempo como uma falácia, apesar de a palavra que agora usamos para a descrever ser um neologismo que apenas ganhou popularidade recentemente: "whataboutism". A fórmula "E daí? Se [a gripe] também [mata] e não [fechamos o país]..." visa pôr a nu uma hipocrisia ou inconsistência do oponente, mas muitas vezes expõe apenas a limitada mundividência de quem faz o reparo. Vejamos. A novidade estimula-nos mais do que a rotina e, quando como novidade temos uma doença altamente contagiosa capaz de matar, é natural que haja uma mobilização de recursos e atenção que não acontece com as causas de morte que se tornaram rotina. Este mecanismo psicológico pode criar injustiças, mas é-nos intrínseco. HPS, que diz saber alguma coisa da teoria da evolução, não desconhecerá o valor evolutivo do medo e a ligação entre o medo e a modulação da memória, a vontade e a mobilização da atenção. Nesse sentido, comparações entre a COVID-19 e a gripe, acidentes rodoviários, mortes atribuíveis à obesidade ou outras entretanto domesticadas pela experiência ignoram a nossa constituição neuro-hormonal, sendo destituídas de sentido. Não decorre desta trivialidade que a política se deva guiar por impulsos primários. A boa política é, muitas vezes, precisamente a arte de contrariar impulsos primários como o tribalismo, tal como a boa literatura é uma war against cliché e a boa ciência poderia ser definida como uma guerra contra o senso comum, como tão bem explicou Lewis Wolpert em The Unnatural Nature of Science. Significa apenas isto: 1) que as comparações ditas óbvias também podem ser primárias, devendo sempre ser questionadas e eventualmente combatidas; 2) que qualquer modelo sem o medo como parte integrante do ser humano não é muito sofisticado. Por isso, a comparação com a gripe foi um daqueles exemplos de hiper-racionalidade tola ou tique de idiot savant sem a menor inteligência emocional ou percepção da condição humana e, cada vez que alguém ensaiava a conversa da gripe, reemergia na minha memória a passagem de algum Lonely Planet onde li que cocos a cair de coqueiros matam mais homens do que ataques de tubarões, que fora escrita como se depois dessa revelação o leitor com fobia de tubarões fosse logo mergulhar de cabeça no mar de alguma remota praia australiana sem barreira de protecção contra o great white shark. Talvez gerações vindouras superiormente inteligentes arquivem na secção de terror ou suspense um filme sobre um coco serial killer de carecas veraneando nas Caraíbas em que o fruto assassino só aparece explicitamente no último terço da fita, mas eu declaro-me na etapa anterior de evolução da espécie e classificaria o filme como um flop ou objecto de culto na linha da obra do trapalhão Ed Wood. Vamos à gripe. 

Havia suficientes incógnitas e indícios em Março para considerar a COVID-19 uma doença potencialmente muito mais letal do que a gripe. Não revelar apreensão, sobretudo no caso de quem está em grupos de risco ou tem amigos ou familiares em grupos de risco, seria uma atitude anormal. Mas a maior parte daqueles que usaram a gripe como termo de comparação desconheciam o buraco onde se estavam a enfiar, porque a comparação é tecnicamente muito complicada. Aceite-se que, no argumento moral com base no número de mortos da gripe contra a obsessão provocada pelo Sars-Cov-2, devemos usar apenas o número de mortos resultantes do vírus da gripe. Primeiro problema: quem começar a ler sobre a gripe percebe que na estatística daquilo a que se chama "gripe" tradicionalmente incluímos também doenças bacterianas, como as pneumonias provocadas pela bactéria Streptococcus pneumoniae, entre outras. Não vale a pena discutir aqui as razões históricas e práticas para esta agregação, que continua a ser debatida entre os especialistas, bastando frisar que qualquer pessoa de boa-fé entenderia que na comparação com a COVID-19 teríamos de subtrair as mortes provocadas por infecções bacterianas, a menos que a comparação fosse uma espécie de Sars-Cov-2 contra os principais os agentes patogénicos que atacam as vias respiratórias, como aqueles jogos que ninguém leva a sério em que a selecção de um país defronta "o resto do mundo". Mas boa-fé é algo que tem faltado a HPS neste debate, como se percebeu quando critiquei a inclusão das mortes por pneumonia de causa bacteriana, que o deixou num característico modo defensivo rígido e irritante. Quando atinge tal estado, a defesa de HPS tem características de infantilismo e obsessão compulsiva, pois assenta na reiteração de uma literalidade extrema (a crítica não é válida se for usado um sinónimo e não a palavra que ele usou) e na desresponsabilização (ele não pode estar a aldrabar porque o gráfico não foi feito por ele, como se o que estivesse em causa fosse o gráfico em si e não a utilização que dele é feita). A incapacidade que HPS tem em assumir os erros óbvios que acumula na discussão sobre a COVID-19 é um verdadeiro mistério, porque há inclusive provas de que no início ele foi capaz de espontaneamente reconhecer em público um erro que publicou na imprensa e de acusar o erro adicional que cometeu na sua emenda. Será por não se sentir obrigado a corrigir o que não chega à imprensa e apenas põe no blog?  Ou será que a partir de um certo nível de irritação, que cedo se instalou entre nós os dois, ele julga que o dever de honestidade passa a ser facultativo? Não vejo outras explicações. 

Mais um exemplo: na ânsia de inflaccionar os números de mortes devidas à gripe de formas progressivamente mais criativas e desesperadas e também de me apanhar em falso, HPS interrompeu um dos seus amuos para escrever:

Abro uma excepção para lhe deixar o link para o relatório do CDC europeu sobre a época de gripe de 2014/2015, não por si, mas porque alguém pode ter interesse em verificar se o que diz nesta matéria tem algum fundamento, permitindo a essas pessoas comparar o disparate de dizer que a gripe mata até 72 mil pessoas na Europa com a conclusão do relatório de que, nesse ano, terão morrido 217 mil pessoas acima dos 65 anos. HPS, 24.04.2020

A precipitação foi tanta que HPS tresleu o relatório e equiparou o número de mortes em excesso no Inverno na Europa (de cidadãos com mais de 65 anos) ao número de mortos por gripe Europa. Com esta operação, o total de mortos na Europa (incluindo todas as idades), que pode ir até aos 72 mil que referi, passou a 217 mil mortos só entre os Europeus acima dos 65. O Inverno está obviamente associado aos picos de gripe mas também a outras doenças com padrão sazonal, como a trombose coronária, o que explica os números. Repare-se que não desconfiar de um número (217 mil) que atribui um terço das mortes de gripe por ano aos europeus acima de 65 anos só pode vir de quem, mesmo com o número global de mortos fresco na memória, não sabe que a gripe mata sobretudo fora da Europa (em termos absolutos e relativos). Enfim, os lapsos são toleráveis. Mesmo um lapso que triplica o número de cidadãos mortos por causa de uma doença é tolerável. E até mesmo a série de lapsos relapsos de HPS é tolerável. Mas como tratar alguém que abandonou depois a discussão sem reconhecer o erro e deixou passar outras possibilidades explícitas de se redimir? HPS,  sempre lesto nas acusações de "desonestidade intelectual" e mentiras, só pode mesmo ser tratado como um bullshitter, porque não tem a menor preocupação com a verdade. 

Até ontem, creio que consegui evitar responder a insinuações de HPS sobre a minha falta de inteligência e o estado do meu cérebro. Gosto de elogiar a inteligência das pessoas que me impressionam, mas só acuso alguém de burrice — como ontem sucedeu — quando estou irritado, arrependendo-me logo a seguir. A inteligência é muito condicionada pela genética e o meio socioeconómico, estando por isso mais perto de ser uma bênção da sorte — como a beleza — do que uma conquista merecedora de aplauso ou um defeito criticável; catalogar alguém como burro é quase tão cruel e absurdo como acusar alguém de ser baixo ou sofrer de hirsutismo. Seria também uma sacanice acrescida fazer insinuações desse tipo quando se discute num campo mais próximo da minha área de formação do que da de HPS. De resto, creio que HPS tem uma inteligência acima da média. O mistério é mesmo explicar como alguém inteligente, com um doutoramento e traquejado em polémicas pode produzir algumas respostas tão estúpidas. Insisto na tese: a inteligência de HPS foi maniatada pela sua soberba. Só isso explica uma conversa digna da casa dos loucos de Os Doze Trabalhos de Astérix, em que eu procuro explicar que é a combinação da possível maior mortalidade (na altura desconhecida) com o estado de provável virgindade serológica universal da população para o SARS-CoV-2 que tornava o vírus potencialmente muito mais perigoso do que o vírus da gripe. HPS, com base em comparações abusivas e precipitadas, e ainda uma lógica demente, concluiu então taxativamente que estes elementos que eu fornecia só reforçavam a tese de que o vírus da gripe era mais perigoso. A lógica dele era a de que, numa situação de — digamos— igualdade de oportunidades, ou seja, sendo a imunidade na população a cada um dos dois vírus a mesma e havendo e medicamentos igualmente (in)eficazes para uma e outra doença, a gripe seria mais mortífera; imaginemos um Cortéz engripado a chegar ao México e um Pizarro com COVID-19 a entrar no Peru: quem sofreria mais, os Aztecas ou os Maias? A resposta, incerta, só é relevante para uma cabeça maniatada e interessada em ganhar discussões tontas à base de formalismos como HPS, porque a verdadeira questão era saber se nas condições actuais o Sars-Cov-2 era ou não mais ameaçador do que os vírus da gripe e os elementos que eu referia faziam o Sars-Cov-2 potencialmente bem mais periogso do que o vírus da gripe.  Reler aquela conversa hoje não capta o nonsense de então, porque a realidade tratou de transformar os "factos" de HPS em falsidades e aquele nonsense desconcertante e de aroma irresistível foi substituído pelo cheiro nauseabundo da comida fora de prazo. 

Para os relativistas da COVID-19, as imagens e relatos terríveis que chegavam de Itália foram uma maquinação dos media que gerou uma retroacção positiva e acabou criando uma alucinação e psicose colectivas. Não sei se é esta também a tese de HPS, cujas reflexões de pendor conspirativo parecem incidir exclusivamente sobre a China (se quiserem detalhes, apareçam na terça-feira), mas junto um relato de um médico italiano que passou por aquela experiência terrível, desvalorizada com manipulações estatísticas grosseiras e desinformação pelos extraordinários André Dias  e Cristina Miranda:  "This is something I never saw in my life (...) The speed of the disease is very high and (while) the risk for individuals is low-ish, two, three, possibly four percent are at risk of death… the number of infected people is so high that globally it's like a war.” Também nos EUA houve relatos terríveis e a mesma perplexidade resultante do confronto entre a experiência no terreno, incluindo a escassez inédita de ventiladores, e as teses que os relativistas iam parindo no conforto de suas casas.

HPS, como todos os relativistas, dedicou-se ainda a um estranho exercício de anatomia patológica gramatical que passava por saber se as mortes eram de (provocadas pela) COVID-19 ou com (associadas à) COVID-19, isto é, se as pessoas morriam por causa da COVID-19 ou por outra causa mas estando, eventualmente por mero acaso, infectadas pelo Sars-Cov-2. Ainda estou para saber se algum destes relativistas teve a coragem de esticar a coisa até ao limite e declarar que a COVID-19 não mata quase ninguém pois a maioria terá morrido de uma doença degenerativa a que chamamos velhice... Este exercício de profundo mau gosto foi também do que de mais faccioso e ignorante se fez nos meses de Março e Abril. Se os relativistas tivessem usado o mesmo critério para esmiuçar as mortes de gripe e com gripe, é bem possível que a coisa deixasse de funcionar a favor deles e tivessem logo passado a outra manipulação. 

Perdeu-se o timing, mas num espírito de formação contínua creio HPS e os restantes manipuladores ainda vão a tempo de perceber que as mortes associadas à gripe não são contadas da mesma forma que as mortes associadas à COVID-19 — em rigor, HPS parece conhecer vagamente este facto, só não avaliou as consequências daí resultantes. Ele, que detesta e despreza os modelos e as estimativas, talvez não tivesse sido capaz de interiorizar que as mortes anuais por gripe que o CDC publica e as que são calculadas para o mundo inteiro não resultam da simples centralização e contagem dos registos (dos pacientes testados e/ou do excesso de mortes associado aos picos de gripe cujo período é definido pelos testes que detectam o vírus). A contagem actual de mortes por COVID-19 será revista em alta e o aumento será substancial, como substancial é a diferença entre as mortes por gripe que vão sendo registadas no momento e a estimativa final. Quão diferentes?

Between 2013-2014 and 2018-2019, the reported yearly estimated influenza deaths ranged from 23 000 to 61 000. Over the same time period, however, the number of counted influenza deaths was be 3448 and 15 620 yearly. On average, the CDC estimates of deaths attributed to influenza were nearly 6 times greater than its reported counted numbers. Conversely, COVID-19 fatalities are at present being counted and reported directly, not estimated Jama Internal Medicine

Os autores depois entusiasmam-se e levam o argumento longe demais ao fazer uma comparação directa entre os números de mortos de gripe e COVID-19 a partir do resultado dos testes respectivos, porque em 2020 o número de testes que detectam o SARS-Cov-2 é provavelmente (enfim, dependerá do país) muito superior ao número de testes que detectam o(s) vírus da gripe. Mas a sua conclusão de que o número estimado de mortos de gripe nos EUA está inflaccionado ou o número de mortos de COVID-19 está subestimando bate certo com várias notícias que dão conta da subnotificação das mortes de COVID-19, sobretudo durante a fase de crescimento exponencial de expansão desta doença. Em resumo, é preciso esperar para fazer estas comparações com um mínimo de rigor. 

A crítica à conversita da gripe podia ter sido feita a partir dos números que hoje conhecemos e não teria sobrado pedra sobre pedra da argumentação de HPS (conto fazê-lo num outro texto). Mas não quis abordar a prosa de HPS de Março e Abril sobre a gripe à luz do conhecimento actual porque aquilo é uma torre inclinada à partida, assente em fundações péssimas (do engenheiro André Dias) e erguida por um empreiteiro manhoso (o mestre HPS). Que não sobre nenhuma dúvida: aqueles textos já eram coisa de alucinado, ignorante ou aldrabão no momento em que foram escritos.

 

 

17
Jun20

Da aldrabice miúda de Henrique Pereira dos Santos


Eremita

Screenshot 2020-06-17 at 20.32.48.png

Quando discute, Henrique Pereira dos Santos aldraba de forma tão torrencial que convém distinguir entre a aldrabice grada, que começarei a tratar amanhã, e a aldrabice miúda, que tratarei sempre que for necessário em posts ocasionais, muito curtos, essencialmente à base do confronto de citações. Hoje, a propósito deste texto, escreveu:

"E esqueci-me de dizer que é mentira que eu tenha dito que o post chamado Zandinga era uma brincadeira.
O que disse, e repito, é que correspondia a uma previsão, tratada como tal e cheio de ses."

Muito bem. HPS disse, e repetiu, que o post não era uma brincadeira e correpondia a uma previsão, ou seja, que devia ser tratado como tal, cheio de "ses". Convido qualquer leitor com dois neurónios a ler o texto em questão para julgar que papel cumpre nesse texto a alusão a Zandiga. Eu digo, e repito as vezes necessárias, que o pobre do Zandiga era uma válvula de escape para o caso de a previsão sair furada, como se verificou, porque HPS é um pavão inchado e não teve a coragem ou não tinha a segurança para arriscar uma previsão sem rede. Mas ninguém precisa de concordar com esta minha forçadíssima interpretação, pois este outro comentário de HPS, de Abril mas precisamente sobre o mesmo texto, é cristalino:

"O camarada foi buscar uma frase, fora do contexto em que foi escrita, num post que se chamava Zandinga e em que eu explicitamente dizia que o que estava a dizer estava ao nível do que o Zandinga dizia sobre o futuro". 29.04.2020

Só há três interpretações possíveis: 1) HPS baixa as previsões racionais para o nível das previsões astrológicas; 2) HPS eleva a astrologia ao nível das previsões racionais; 3) HPS aldrabou em algum momento. A minha hipótese preferida era a segunda, até porque já tenho vários exemplos da terceira e aprecio personagens multifacetadas, mas sou mesmo obrigado a escolher a terceira por me parecer que ficou formalmente provada e também me permitir reciclar uma passagem de HPS no mesmo comentário, mantendo-me assim fiel ao modelo para esta série esporádica sobre a aldrabice miúda de HPS. Escreveu ele: 

Com a estupidez convivo bem e com caridade: é uma coisa natural em todos nós e não podemos fazer muito para alterar a situação.
Já com a má fé e desonestidade convivo bastante pior.

Não ficou uma coisa bem redonda e rematada? HPS é a pessoa mais manhosa que encontrei em décadas de internet e já discuti intensamente com muitos fanáticos, incluindo socráticos (fãs de José Sócrates), criacionistas e adeptos das medicinas alternativas. Isto surpreende-me verdadeiramente: nunca me cruzei com alguém tão dado à aldrabice miúda.

Apareçam amanhã para começarmos a explorar a aldrabice grada de HPS com o detalhe que merece, porque esta aldrabice  miúda foi só um amuse-bouche

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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