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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

18
Fev20

Uma citação desastrada


Eremita

 

Screenshot 2020-02-18 at 17.17.36.png

Quando vi este tweet, não liguei. Para mim, apesar de escrito, um tweet está mais próximo do discurso oral irreflectido do que do pensamento ponderado e revisto que se associa a um texto. Porém, João Paulo Rebelo voltaria mais tarde a dizer que devemos "punir exemplarmente os responsáveis deste triste episódio que enche de vergonha todos quantos lutam por uma sociedade mais tolerante". Nada contra a punição. Mas será que o secretário de Estado anda a usar o termo "tolerante" com propriedade? Creio que João Paulo Rebelo faz uma paráfrase de uma conhecida passagem de um livro de Popper, o The Open Society and Its Enemies, em que o filósofo conclui que a única forma de preservar a tolerância passa por não tolerar os intolerantes. Mas quem não conhecer a passagem vai estranhar que se fale em tolerância neste caso. Porque ao tratar racistas por intolerantes, resulta de uma leitura literal que a raiz do racismo é a falta de tolerância. E sendo a tolerância a capacidade de desculpar, perdoar, aceitar alguma falha no outro, só podemos concluir que Marega e outras vítimas dos racistas merecem a nossa condescendência por terem cometido alguma falta. Enfim, citar é uma arte difícil e não vale a pena fazer disto um caso. 

 

17
Fev20

Marega e o "words are not actions"


Eremita

 

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fonte

Grande Marega. É maravilhoso quando uma vítima de racismo contra-ataca, deixando o lusotropicalismo no frenesim do alerta vermelho e os racistas (ou oportunistas, sei lá) sem camuflagem. Infelizmente, duvido que este caso se mantenha na actualidade até ao fim da semana. Seria instrutivo ver os três mosqueteiros anti-censura do Governo Sombra a discutir o incidente e martelar a tese tão cara a Ricardo Araújo Pereira, o nosso teórico público da liberdade de expressão, de que as "as palavras não são actos". Marega terá sido um medricas porque resistiu a cadeiras arremessadas mas desfez-se como um snowflake com palavras vindas da bancada. Como foi isto possível? As palavras não podem magoar! As palavras são sons, não são actos, certo? Bem sei que em rigor foram sons simiescos e não palavras, mas não desconversemos. 

 

13
Fev20

A Eutanásia e a humilhação do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida


Eremita

Em 2018, o parecer do CNECV sobre o Projeto de Lei n.º 418/XIII/2ª, da autoria do PAN, foi negativo, tendo esta decisão sido aprovada com uma ampla maioria por 19 conselheiros (houve apenas um voto vencido). Curiosamente, em 2020 parece haver uma maioria parlamentar a favor da eutanásia e, caso houvesse um referendo, o resultado parece ser incerto. Resumindo, em 2018, o colégio mais plural e tecnicamente competente do país para avaliar os aspectos éticos da eutanásia manifestou-se categoricamente contra (95% dos votos) uma proposta que volta agora a ser discutida sem alterações essenciais nos projectos de lei de diferentes partidos (ainda não confirmei se é assim) e será muito provavelmente aprovada pelo Parlamento.

O CNECV é um órgão meramente consultivo, mas em 2018 foi ultrapassado pelos acontecimentos, como se percebe neste desafabo de João Lobo Antunes: "Não se deixa de estranhar que a lei que exige que seja pedido parecer ao Conselho de Ética para as Ciências da Vida, é a mesma que o dispensa para a discussão e votação em Assembleia da República". Em 2020, o CNEV não foi apenas ultrapassado, mas cilindrado, pois nem sequer voltou a pronunciar-se sobre os projectos em discussão.

Não quero uma tecnocracia e ainda não é hora concordar com Jorge Luís Borges, que entendia a democracia como uma "superstição estatística". Concluo apenas que se o CNECV não se faz ouvir de novo naquela que é provavelmente uma discussões éticas mais difíceis, importantes e simbólicas do nosso tempo, deve encerrar para obras. 

 

12
Fev20

"Posição Política do PCP sobre a provocação da morte antecipada"


Eremita

Espero que Pacheco Pereira escreva sobre esta declaração do PCP, que me pareceu interessantíssima (apesar de não ser a minha posição). O que é uma declaração interessantíssima? Sem entrar em grandes análises sobre este caso concreto, que nos levariam considerar a ideologia do partido e a sua necessidade de se distinguir do Bloco e tranquilizar uma base eleitoral envelhecida, é qualquer posição que ponha o CDS-PP ao lado do PCP contra o Bloco Central e eventualmente outros. 

09
Fev20

A eutanásia e o catolicismo descafeinado


Eremita

1389664.jpgfonte

Nenhuma vida vale mais do que outra. Nenhuma vida vale menos. A vida dos fracos vale tanto como a dos fortes. A vida dos pobres vale o mesmo que a dos poderosos. A vida dos doentes tem um valor idêntico à vida dos saudáveis. Passar a ideia de que há vidas que, em determinadas situações, podem valer menos do que outras é um princípio que conflitua com os valores universais que nos regem. 10 RAZÕES CIVIS CONTRA A EUTANÁSIA, José Tolentino Mendonça

Não tenho uma posição definida sobre a eutanásia. Felizmente, a vida nunca me obrigou a pensar a sério sobre um tema tão delicado e tenho preferido acompanhar esta polémica lendo em vez de pontificar com textos tão cheios de páthos e ódio que ficamos com as mãos peganhentas mesmo quando os lemos no monitor. Creio que a história de Ramón Sampedro (descrita no filme Mar Adentro) é um bom argumento a favor da eutanásia mas que a percentagem de mortes por eutanásia na Holanda (4%) é um bom argumento contra. Vejo a condenação moral do suicídio como um valor muito estimável, se entendido como uma barreira não intransponível mas que desencoraja o acto. Este efeito prático da condenação moral do suicídio tem um paralelo óbvio com um dos principais argumentos para se proibir a pena de morte (a irreparabiliade de um eventual erro judiciário) e não me parece que argumentar com um q.b. de utilitarismo ou sentido prático seja uma cedência. De resto, torna a discussão mais lúcida e honesta do que as declarações grandiloquentes que são comprovadamente falsas.

É evidente que as sociedades e os indivíduos não atribuem o mesmo valor a todas as vidas, dependendo da idade, da proximidade (inclusive a geográfica), do estado de saúde, do número de dependentes, da patente militar, do percurso de vida da pessoa cuja morte avaliamos ou das circunstâncias da morte, entre tantas outras razões. O argumento do cardeal Tolentino, além de inepto e de passar ao lado da discussão sobre a eutanásia, nem parece sequer ser útil enquanto princípio orientador para resolver dilemas, pois soa a um convite à inacção quando apenas uma de duas vidas pode ser salva, o que não traz qualquer tipo de conforto aos que ficam e podiam ter alterado o rumo dos acontecimentos, ou tem o efeito contrário, como o de dar paz a quem não a merece (pensemos num pai que não deu a sua vida pela do seu filho).

Recuperando a ideia central dos actos irreversíveis, lembre-se que a Igreja produziu muito pensamento sobre o arrependimento e talvez fosse mais interessante aos seus líderes encontrar argumentos contra a eutanásia dentro do corpo doutrinário do catolicismo do que intervir num registo envergonhado que parece estar condicionado pelo trauma de duas grandes derrotas políticas recentes (a da interrupção voluntária da gravidez e a do casamento entre pessoas do mesmo sexo). Enfim, digo eu, que ainda sou do tempo em que os padres não nos davam más razões civis mas belas e úteis parábolas. 

08
Fev20

Um verdadeiro cliffhanger


Eremita

Na fase final da instrução do processo, o juiz emitiu um despacho, a que a SIC teve acesso, considerando que o número de crimes fiscais é superior aos indicados pelo Ministério Público (MP) e que no caso do antigo primeiro-ministro José Sócrates deveria responder por 40 crimes e não pelos 33 que está acusado. (...)

Quanto a Zeinal Bava, o antigo presidente da PT, e do antigo banqueiro Ricardo Salgado, o juiz não muda o número de crimes, mas entende que a moldura penal é mais grave e recorre a uma alteração na lei para dizer que em vez de uma pena de prisão até cinco anos, os crimes fiscais pelos quais estão acusados passam a ter uma pena entre os dois e os oito anos.

(...)

O magistrado avisa que o despacho serve apenas para abrir outra possibilidade se os arguidos forem a julgamento, mas lembra que “o momento da decisão final é em sede da decisão instrutória”. Público

 

Valupi, prognostica, pá.

 

06
Fev20

Leandro Karnal e o intelectual público


Eremita

Portugal tem um único intelectual público: Pacheco Pereira. Haverá alguns mais públicos do que ele, mas que não são tão intelectuais, e outros mais intelectuais, mas menos públicos. Não é assim noutros países, apesar de ser costume dizer-se que já não há intelectuais públicos, uma moda que talvez tenha surgido logo após o desaparecimento de Sartre e Foucault, e seguramente a partir dos anos noventa. Pelo contrário, eu diria que nos últimos anos temos assistido a um aumento do número de intelectuais públicos, apesar da nossa singularidade. O Brasil é muito mais interessante do que os exemplos do costume (EUA, Reino Unido e França). Nas redes, há intelectuals brasileiros que são quase estrelas pop, como Filipe Pondé, Clóvis de Barros Filho, Mário Cortella e Leandro Karnal. Sendo todos brilhantes oradores, o Pondé cansa por ser demasiado previsível nas suas provocações de intelectual conservador, o Clóvis é demasiado histriónico e o Cortella soa algo datado. Só o Karnal me fascina. É muito raro encontrar alguém com um discurso tão claro e articulado. E sobretudo, não conheço ninguém melhor a responder às perguntas da plateia, o verdadeiro teste para avaliar a cultura e inteligência. Esta fala é disso um excelente exemplo e tem como bónus várias referências ao nosso país. 

 

01
Fev20

A futura geringonça


Eremita

Francisco Assis é um bom ensaísta. 

Screenshot 2020-02-01 at 10.55.45.png

Estamos, assim, perante uma nova arrumação das forças políticas de direita com drásticas consequências do ponto de vista da celebração de entendimentos políticos entre elas. Não só parece totalmente excluída a possibilidade de uma coligação pré-eleitoral como nem sequer se afigura provável a formação de um Governo com participação activa de todos os partidos da direita, mesmo no caso em que esta disponha de maioria na Assembleia da República. É aqui, aliás, que reside a grande novidade histórica. Como resolver este problema? De uma forma muito simples: se essa situação se realizar, a da existência de uma maioria parlamentar de direita, Rio não hesitará em propor a formação de um Governo monopartidário do PSD, com o apoio parlamentar do CDS, do Chega e da Iniciativa Liberal. Estes terão que sustentar tal Governo, sob pena de serem acusados de favorecer os partidos de esquerda. No fundo, o resultado da simultaneidade da opção centrista do PSD e da extrema polarização de uma parte significativa da direita portuguesa terá como consequência a criação de uma espécie de nova “geringonça” agora aplicada a este espaço político. Francisco Assis, Público

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