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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

31
Jan20

O problema de José Miguel Júdice


Eremita

There are these two young fish swimming along, and they happen to meet an older fish swimming the other way, who nods at them and says, “Morning, boys. How’s the water?” And the two young fish swim on for a bit, and then eventually one of them looks over at the other and goes, “What the hell is water?” DFW, in The New Yorker *

A forma como José Miguel Júdice tentou defender-se na televisão e no Público é aparentemente desconcertante. Surpreende que um advogado tão bem sucedido se defenda tão mal. E surpreende a sua incapacidade de perceber o que está verdadeiramente em causa. Uns dirão que apenas nos está a fazer passar por parvos, mas há uma segunda hipótese que explica a sua postura: a de que ele acredita que não há nada embaraçoso na sua relação profissional com Isabel dos Santos. No meio da grande advocacia de negócios e das "optimizações fiscais",  trata-se de business as usual. E o que se torna rotineiro vai-se entranhando ao ponto de se tornar imperceptível. 

* Esta passagem surge no romance Infinite Jest e num discurso proferido por DFW em 2005 para uma plateia de recém-graduados

 

30
Jan20

Enfim, Livres!


Eremita

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Mais uma notícia patética. Joacine está quase a dar cabo do Livre. A inabilidade do partido para lidar com ela será um caso de estudo explorado por algum cientista político lusitano. Tendo transformado o Livre em morto-vivo, Joacine procederá daqui a uns meses à colonização daquele corpo, não no sentido literal da reencarnação, mas criando um novo partido, o Livres, que absorverá o que restar do Livre. Para facilitar o processo, a agenda será a mesma do Livre, acrescida das causas identitárias. Até o símbolo continuará a ser o mesmo, só que a papoila terá mudado de cor. Rui Tavares apresentará queixa à Autoridade da Concorrência, que lhe dirá nada poder fazer por falta de jurisprudência. O Livres vai apresentar-se como uma coligação de todas as minorias e fazer com que cada um se sinta minoritário em algum aspecto. No fundo, será a estratégia em que a personagem Julião anda a pensar, só que a sério. Aceito apostas. 

 

28
Jan20

Medo. Tenham muito medo


Eremita

A extraordinária Cristina Miranda descobriu no Google que Portugal já foi o 4º país do sul da Europa com mais homicídios, depois da Itália, Espanha e Sérvia. Reparem que a hierarquização foi feita em número absoluto de homicídios, provavelmente por alguém que, em 2011, resolveu à força criar uma não-notícia quando surgiu este relatório. Tendo em conta que, em 2017, Portugal e a Grécia tinham essencialnente a mesma taxa de homicídio e que os restantes países do sul da Europa são cinco micro-estados, suponho que Cristina Miranda está indignada e quis lançar o alarme por em 2011 se ter matado mais gente em Portugal do que em Andorra. 

 

28
Jan20

Rui Pinto e a imagem de Portugal


Eremita

mw-860.jpg

Fonte

Logo a seguir à Operação Marquês, o binómio Football Leaks-Luanda Leaks é o segundo grande teste de stress à justiça portuguesa. A muitos níveis, este caso consegue até ser mais interessante do que os problemas de Sócrates com a justiça. O desgastado ex-PM está hoje reduzido à reputação de vilão vaidoso, o que acaba por ser aborrecido enquanto espectáculo. Pelo contrário, ao jovem Rui Pinto com cara de querubim de banda gótica atribuem-se qualidades e defeitos, condição essencial para que uma personagem tenha espessura. A Operação Marquês não gera já qualquer polémica na sociedade, agora que se esgotou a crítica à fuga ao segredo de justiça, nem coloca o cidadão perante um dilema. Começamos simplesmente a ficar cansados pelo tempo que o processo já consumiu e a perspectiva da sua eternização. Com Rui Pinto sucede o oposto. O sucessão Football Leaks-Luanda Leaks é fascinante pela exuberância de actualidade. De certo modo, o movimento de apoio a Rui Pinto que começou na última semana nas páginas do Público (Pacheco Pereira, André Lamas Leite, Manuel Carvalho...), apesar das diferenças técnicas, soa a defesa tímida da justiça negociada ("delação premiada" ou colaboração premiada) poucas semanas depois de uma discussão em que a Intelligentsia condenou no abstracto esta ideia recorrendo à famosa “teoria dos frutos da árvore envenenada”. É uma situação paradoxal, pois dizem-nos que nas discussões sobre a justiça não podemos ter casos particulares em mente, mas não só parece ser grande a vontade de discutir um caso concreto, como a conclusão a que se está a chegar difere daquela destilada em abstracto. O caso fascina ainda por colocar em xeque não só a justiça e os media, mas também toda uma sociedade subjugada ao mundo do futebol; o comentador político que também comenta como adepto profissional é a exteriorização mais patética desta monocultura em que o país se transformou. Visto do exterior, Portugal emerge como um país medíocre que foi cúmplice do assalto ao povo angolano e persegue agora o seu Snowden porque o Benfica é uma instituição intocável (12). Para Marcelo, o incansável fã de Portugal, isto deveria ser uma preocupação.

 
26
Jan20

O maior da sua geração


Eremita


"O protagonista não podia ser outro senão Benedict Cumberbatch, o maior actor de língua inglesa da sua geração (nasceu em 1976). O primeiro episódio é uma explosão de overacting de Cumberbatch.

Transposta para televisão por David Nicholls, a partir do quinteto Melrose — compactado em três volumes na edição portuguesa da Sextante — de Edward St Aubyn, o maior escritor de língua inglesa da sua geração (nasceu em 1960), mantém o grau de corrosão do quinteto autobiográfico, violento, inominável, sobre a infância indizível de Edward St Aubyn, abusado pelo próprio pai dos 5 aos 8 anos de idade." Eduardo Pitta, Da Literatura


Gosto muito da fórmula o "maior/melhor da sua geração". A restrição a uma geração dá credibilidade ao veredicto, porque não é preciso "celebrar" num jantar de curso os 25 anos passados sobre uma licenciatura para sentirmos que os indivíduos de uma geração são uma amostra de uma experiência controlada. Sucede que se abusa da fórmula. Em tempos, lembro-me de o Pedro Mexia ter dito que João Reis (nasceu em 1965) era o melhor actor da sua geração. Será? Como se chega à conclusão de que é melhor do que - por exemplo - Rogério Samora (nascido em 1958)? Não faço a menor ideia. É até possível que os dois não sejam sequer actores da mesma geração, apesar de estarem separados por apenas 7 anos; Reis era um miúdo em 1974 e Samora um adolescente. Enfim, só tenho alguma pena de David Nicholls (nasceu em 1966), pois Pitta não o descreveu como o maior argumentista de língua inglesa da sua geração. Foi chato. 
26
Jan20

Luanda licking


Eremita

pedrorosamendes.jpg

Pedro Rosa Mendes

Diz-se da auto-felação que exige dotes de contorcionista ou a coragem de remover umas costelas, mas em sentido figurado a auto-felação está ao alcance de qualquer um e poucos são os que resistem ao seu apelo. 

As suspeitas sobre a cleptocracia angolana têm décadas e muitos foram aqueles que escreveram sobre o assunto. Houve casos de grande coragem, persistência e abnegação, como o de Rafael Marques, e quem tivesse sido prejudicado com processos judiciais por difamação e um despedimento, como o jornalista Pedro Rosa Mendes. Mas salvo erro meu, de Pedro Rosa Mendes nem um tweet se leu nos últimos dias, numa altura em que poderia vir reclamar alguns louros. Também desta vez o jornalista foi a excepção, pois o Luanda leaks desencadeou um show de exibicionismo sem precedentes entre jornalistas e estrelas do comentário televisivo. Subitamente, toda a gente começou a puxar dos galões, como se o "castigo" de não poder entrar em Angola ou uma menção num dos editoriais do jornal de Angola tivessem sido um problema e não apenas um simpático título honorífico involuntariamente atribuído pelo governo de Eduardo dos Santos a alguns dos seus críticos. Lamento,  mas ter ladrado contra Luanda a milhares de quilómetros de Eduardo dos Santos e fora da esfera de influência de Isabel dos Santos ou de Governos de Portugal cúmplices de Luanda não é grande prova de coragem ou civismo, pelo que encher o peito agora é comportamento emotivo e primário de pavão.

Sofisticada e racional foi a resposta de José Miguel Júdice, deixado numa posição delicada pelo Luanda leaks (para já apenas na medida em que o escritório que fundou representou Isabel dos Santos). Júdice pôs em marcha um competente plano de contenção de danos, tendo exibido, ao jeito de um líder magnânimo, solidariedade q.b. com o ex-advogado de Isabel dos Santos e seu ex-colega no escritório,  e  comentado o caso sem o comentar,  adiando respostas para ocasião menos oportuna para todos e mais oportuna para ele. Há muita experiêcia e inteligência nestas declarações de Júdice, no tom e nos tempos. Ouvi-lo não será inspirador, mas é mais instrutivo vê-lo lamber as suas feridas do que assistir a outras lambidelas.  

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