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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

05
Out19

Uvas são cerejas


Eremita

Dobrar consoantes e somar apelidos é chão que deu uvas. Está encontrado o intelectual português com o nome mais impressionante. Fora de brincadeiras e salvo erro, nenhum dos partidos lembrou durante a campanha eleitoral a proletarização crescente do ensino universitário, tema do texto de Pedro Levi Bismark e uma das tragédias silenciosas deste país. É um autêntico não-assunto, mas não por falta de reflexão; leiam o ensaio Alfabetizar em Democracia, de José Morais, professor jubilado da Universidade Livre de Bruxelas e investigador em Psicologia Cognitiva de reputação mundial, que tem páginas lucidas sobre o tema na parte final desse livro. Aos professores universitários prolerarizados é dada 1% da atenção mediática dos enfermeiros, estivadores e professores do liceu porque eles não incomodam ninguém, nem as famílias, nem as empresas, e porque quem está fora da academia pensa que são uns privilegiados.

Quando ainda me dedicava, supostamente, a educar a futura elite do país (médicos) também recebia por hora de trabalho real como se me pedissem que servisse cafés à mesa. Quando ainda por lá andava, os regentes das cadeiras, no conforto dos seus gabinetes e contratos vitalícios, nunca se incomodaram com esta vergonha que afecta os mais novos e outros que já não são tão  novos mas, por amor à liberdade, desejo de ver mundo ou incompetência, não souberam garantir a carreira universitária. Esses regentes acomodam-se e nunca lutam por assegurar que aqueles que permitem o funcionamento da sua cadeira sejam pagos decentemente. Aliás, a vergonha vai além da precariedade dos contratos miseráveis e ilegais, renovados ou não ao jeito da jorna por uma máquina administrativa impessoal, pois há colegas que se prestam a dar aulas de graça quando o sistema isso lhes pede. Em rigor, diga-se que muitos dos que dão aulas de graça têm outra fonte de rendimento, mas esta cultura da borla só pode contribuir para a degradação da qualidade do ensino e da investigação. Porque quem ensina de borla tem de ir buscar dinheiro a outra fonte e fará apenas o minímo indispensável para dar as suas aulas. De resto, exceptuando casos raríssimos,  nunca o faz de forma desinteressada. Uns querem sobretudo o "prestígio" da associação à academia, como os médicos que gravam a posição académica na plaquinha do consultório. Outros fazem-nos por desespero e esperança de que um dia alguém se lembre do seu sacrifício e lhes dê uma esmola ou um emprego a sério. Este tráfico de influências miserabilista é o retrato do ensino universitário. A questão, muito adequadamente, ganha contornos académicos: quando alguém chega a reitor, será que não enfrenta este problema porque enquanto foi subindo na hierarquia perdeu a  capacidade de indignação ou subitamente passou a ter enorme interesse em perpetuar a tradição dos professores ao preço da uva mijona?

Que lição retirei desta experiência? Para o país, nenhuma. Para mim e para Ourique: a obrigação moral de pagar aos meus decentemente e de os tratar com respeito, se alguma vez tiver  empregados no monte.

04
Out19

Liberdade


Eremita

Numa outra vida, antes de Ourique, moderei um debate com Mário Centeno e outro com Joaquim Miranda Sarmento. o Centeno de Rio. Curiosamente, só me lembrei disto há instantes. Ai que prazer. Adoro Ourique, continuo a não perceber nada de finanças, e se, em rigor, abdiquei da biblioteca, também afirmo que o melhor do mundo são as crianças, nomeadamente quando dou os beijos e abraços de boa noite nas minhas filhas com cada uma já na sua caminha, o que me dá uma convicção que talvez faltasse ao poeta, mas— enfim — não quero parecer o Louçã.

04
Out19

Freitas do Amaral (1941-2019)


Eremita

 

Freitas-do-Amaral.jpg

fonte

O jovem Freitas do Amaral dava ares de ser muito mais velho do que era. Mas ao contrário daqueles que envelhecem precocemente e têm um aspecto pouco saudável, ele lembrava aquelas pessoas maduras, saudáveis e vigorosas que parecem ser mais novas do que são. Fazendo as contas, talvez então o jovem Freitas do Amaral parecesse ter a idade que tinha, mas este vaivém deixava-me baralhado e imbuía-o de imortalidade. É assim que o recordarei.

Nos blogs de direita que leio, nem uma palavra sobre Freitas do Amaral. Muitos serão cristãos, só que daquela estirpe estranha que vai à missa mas não perdoa. Muitos, pertencendo à geração ipiranguista do Independente ou sendo mais novos, talvez da vaga gloriosa dos blogs de 2003, cultivaram para benefício próprio a mitologia engrandecedora das corajosas vozes de direita num Portugal culturamente dominado pela esquerda. Oportunamente, Seixas da Costa, antes de rematar o post com uma brilhante chapada de luva banca em Paulo Portas que têm a quantidade de movimento de um uppercut de Tyson e espero não ter sido demasiado subtil para os leitores mais novos, lembra que corajoso foi fundar o CDS menos de três meses depois do 25 de Abril. Desde então só apareceram meninos a brincar com a pilinha — e algumas meninhas, admito, mas não me aborreçam com a literalidade. 

 

 

 

02
Out19

Sondagens: PSD no 30%


Eremita

Isto começa a correr mesmo mal para o Observador e Rui Ramos, cuja vontade de correr com Rio é tanta que chegou a pedir uma maioria absoluta para o PS num texto que em que trata os leitores como idiotas. A acreditar nas sondagens, o PS não chegará à maioria absoluta e o PSD  terá uma derrota decente que consolidará a liderança de Rio por mais uns anos. Montenegro continuará a estudar "liderança" em França, Rangel continuará a fazer comentário e prestidigitação em simultâneo na TV, Morgado continuará a escrever coisas sobre a autoridade e o Burke, e Moedas vai ter muito tempo para pensar Portugal no conforto de um gabinete da Fundação Calouste Gulbenkian.

02
Out19

A chegada das maminhas


Eremita

A chegada das maminhas foi saudada pela irmã mais velha e a mãe, mas as pequeninas não perceberam nada, apesar do seu interesse constante por maminhas, inclusive as do pai, que naturalmente se auto-excluiu daquele ritual de passagem espontâneo, só não saindo da sala porque desaparecer seria fazer-se mais notado,  e ali, na mesa da sala com ângulo de visão para a sala onde as manas cúmplices riam, sem poder partilhar o que lhe ia na mente com as pequeninas ou sequer a mulher, todas ainda na mesa, teve tempo para se surpreender com uma decisão que, de tão definitiva e bem formada, só podia ter sido já pensada e estaria guardada para quando houvesse provas de namoro carnal, sem ter então antecipado que por vezes o corpo a toma as rédeas da vida: assim, com a chegada das maminhas, nunca mais voltaria a acabar a comida que a jovem adolescente deixa no prato. Por sorte, nessa manhã havia terminado uma sandes de queijo banal e não restos mais pecaminosos, como fruta ou marisco, e o conforto dessa lembrança era prova de que a sua exclusão daquele ritual tinha uma dimensão retroactiva. No dia seguinte, lembrou-se de que a macroeconomia roubou a palavra mais adequada para descrever o que se passara com ele na véspera: fora um ajustamento.

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