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OURIQ

Um diário trasladado

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Um diário trasladado

17
Out19

Roth on Bloom


Vasco M. Barreto

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What Bloom would call a “knowing,” Marxist-Historicist reading of his criticism would locate it within and as part of a high point of mid-American individualism, less of the rugged than the spiritual kind. He belonged to the cultural moment that gave us Clement Greenberg, Abstract Expressionism in both art and poetry, American Buddhism and the new age movement. His Falstaff was a cold war figure and one of the few times that he conceded the word to a contemporary comes when he quotes Anthony Burgess: “The Falstaffian spirit is a great sustainer of civilization. It disappears when the state is too powerful and when people worry too much about their souls.” That this individualism was never unitary or solipsistic is one of the ironies that Bloom haters and also his very few remaining conservative cultural cheerleaders love to miss.

“The greatest of all fictive wits dies the death of a rejected father-substitute and also of a dishonored mentor”—Bloom about Falstaff, again. Like many of his generation, Bloom strived to ensure that he would avoid this fate, but misapprehended the danger: He permitted no Prince Hals. He founded no school, unlike de Man down the hall, and appeared to disown some of his best students before they could disown him. There was an actual son, rumored to be troubled—either in mind or body—and much beloved. It was for the sake of his health care, it was said, that Bloom had submitted to the indignity of writing all those cheesy Chelsea House introductions and then The Western Canon, the work where he sold out most clearly to a side in a game of politics and political criticism he’d previously refused to play.

Unsurprisingly, this is the work that has most immediately damned him to be misconstrued in the immediate construction of his posterity. The vociferous canon debates, both at the time and ongoing, slowly took the place of the conversations within canons that Bloom thought made original writing possible. And Bloom, with his lists and rankings and fiat value judgments, even when he could always back them up, contributed greatly to this, and so, ultimately, to the misunderstanding and outright decanonization of his own early work. One could hear the usual smirking and jeering in the early version of the New York Times obituary hed: “Critic Who Embraced Western Canon.” They made it sound like a conversion experience, or a shipwreck. Marco Roth (provalmente o melhor texto sobre Harold Bloom entre todos os que li e também os que não chegarei a ler)

17
Out19

A social-democracia, a democracia cristã e a democracia socialista entram num bar...


Vasco M. Barreto

Mas a Europa, no final da Segunda Grande Guerra, recompôs-se, como também sabemos. Os vários Estados europeus abraçaram a social-democracia, um ideário concertado nos finais dos anos quarenta entre de De Gasperi, primeiro-ministro italiano, e Adenauer, o chanceler alemão. Curiosamente, ou não, ambos eram democratas-cristãos. Esta raiz ou génese cristã do Estado Social não deve ser subestimada. De facto, ela confronta-nos, hoje em dia, com um enorme paradoxo. A Democracia Cristã, ao contrário do que se poderia esperar, foi a grande pioneira da protecção social dos mais pobres: não alijou a carga da caridade para cima das costas dos cidadãos, pelo contrário, erigiu-a – transformando-a – como obrigação política dos Estados. Este desafio, esta obrigação, este imperativo partiram da Direita.

Por meandros longos de explicar, esse programa da Democracia Cristã foi apropriado pela Esquerda socialista. Compreende-se: a União Soviética, apesar do contributo decisivo que dera para a vitória sobre o Nazismo, levantou, sobretudo depois do XX Congresso do PCUS em 1956, dúvidas e desconfianças irrespondíveis sobre a bondade do comunismo e sobre a viabilidade da Revolução social e política. A Esquerda socialista virou Esquerda social-democrata: uma ideologia de compromisso entre o capitalismo e o socialismo, tendo este sido relegado para um futuro incerto. A social-democracia, em contraste com o liberalismo oitocentista, era firmemente estatista, exigindo ao Estado assistência aos mais depauperados, a criação de uma pesada gama de serviços sociais, uma economia de mercado regulamentada, uma farta redistribuição da riqueza e, no termo de um mais ou menos longo processo gradual, a realização da igualdade total: a revolução, sem Revolução. A costela democrata-cristã condescendeu com este destino socialista projectado no longo prazo… e utópico. Mas, creio, subestimou o valor simbólico da promessa de uma sociedade sem classes.

A Social-Democracia viveu disto durante décadas. A tal ponto que acabou por se confundir com um regime em que o Estado democrático só era democrático se olhasse pelo povo como um pai olha pela sua família: férias pagas e subsídios de toda a ordem e feitio. A liberdade tornou-se (ou continuou?) secundária, até mesmo dispensável. Um Estado democrático era aquele que distribuísse mais dinheiro e prodigalizasse mais “serviços” e mais “direitos”. Muitos anos passados sobre a colaboração entre De Gasperi e Adenauer, este programa, originariamente um programa democrata-cristão, foi apropriado por uma nova esquerda anti-revolucionária, anti-violência e gradualista: a social-democracia, estabelecida depois da Segunda Guerra e largamente financiada pelo Plano Marshall dos EUA. Nos países do sul da Europa continuou a usar-se a roupagem ideológica socialista, mas, ontem como hoje, nada de verdadeiramente essencial separa os dois credos, o socialista e o social-democrata. Fátima Bonifácio, Público

Tenho sérias dúvidas quanto a esta tese de que a social-democracia está alicerçada na democracia cristã. Sérias dúvidas. Seriíssimas. Mas não podemos ir a todas, nem há tempo para ler e debater. 

16
Out19

É já a melhor substituição de ministro


Vasco M. Barreto

Nunca percebi a escolha de Ana Paula Vitorino para o Ministério do Mar. Exceptuando a direcção da revista Cluster do Mar entre 2012-2015, não havia uma linha no currículo desta engenheira civil da área do urbanismo e dos transportes que justificasse a decisão de António Costa, a menos que para o Governo o mar fosse, na prática, o porto de Sines. Esta escolha absurda realça a sensatez que foi agora a nomeação de Ricardo Serrão Santos. Com uma carreira sólida na ciência (não apenas um título d  "Ph.D." para decorar o nome ) e um percurso elogiadíssimo no Parlamento Europeu, tem o currículo perfeito para a pasta. Curiosamente, Seixas da Costa nem se lembrou de mencionar Ricardo Serrão Santos no seu comentário ao novo Governo. E porquê? Não sabemos, mas arrisco: o poder quase sempre esteve, com raras excepções, nas mãos de doutores (de leis) e engenheiros. Ricardo Serrão Santos vem da academia e da ecologia, o que o torna invisível (declaração de interesses: sou biólogo). 

16
Out19

Disney, Cristo e Nietzsche


Eremita

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Há dois dias, a M. percebeu que vai morrer. Não presenciei o momento, mas a L. contou-me que foi uma verdadeira epifania. A J. também assistiu e deve ter percebido pela primeira vez que não é eterna; se não se pôs a chorar, foi porque a mana já chorava e ela entendeu — com notável estoicismo⁠ — que lhe competia ficar calada e quieta. Na manhã seguinte, na cozinha, só na minha presença, a M. voltou a expressar o seu desagrado, embora sem chorar. 

O cristianismo tende a ser desprezado como uma espécie de platonismo para as massas. Os ateus praticantes vão muito mais longe, pois entendem-no como uma grande aldrabice. Mas que jeito daria Jesus para apaziguar uma pequena alma no momento em que se apercebe de que vai morrer. Nós, como pais ateus, dissemos-lhe a verdade, apenas jogando com a ideia de tempo que as miúdas têm, ou seja, tentando fazer da vaga noção de finitude uma quase eternidade. Este episódio fez-me sentir o que já sabia: as famílias católicas têm um trunfo precioso.

Continua

 

15
Out19

"CONDIÇÕES ESPECIAIS PARA POETAS VIVOS"


Eremita

Bom é gostar daquilo que os amigos escrevem
  e não ter de mentir na volta do correio.  (...) 

José Miguel silva

 

Tenho tendência a confiar nas pessoas até uma prova em contrário, mas preciso de várias provas para deixar de desconfiar de um poeta. Diante de uma mancha poética ou ao ouvir aquelas vozes com frémito e cientes da plateia, como a da Catarina Martins, saco da pistola.  Por mim, aplicava-se à poesia o numerus clausus que Sidney Brenner sugeriu para lidar com a proliferação de merda na literatura científica: durante toda a sua vida, cada pessoa podia publicar apenas 30 poemas ou um outro número esmagadoramente finito. Acrescento que a poesia é também o inverso da pornografia, no sentido de ser o género literário que mais perde na transição do papel para o monitor. Mas chega de preemptive pancada. Gostei da selecção do Hospedaria Camões, que tem também o melhor subtítulo da blogosfera. Foi de lá que retirei a citação. 

 

 

14
Out19

Espelho meu, espelho meu, há alguém mais boçal do que eu?


Eremita

O “fenómeno André” é o mesmo que o meu. Cronista no Blasfémias há pouco tempo, sou a que se mantém no pódio das mais lidas. Não é porque sou a melhor. É apenas porque sou a única que consegue chegar a TODA a população. Porquê? Porque os temas que escolho são os que preocupam a maioria dos portugueses; porque quando desenvolvo os temas não tenho medo de tocar nas feridas porque também são minhas; porque não tenho nenhum tema tabu; porque uso linguagem do povo e não há ninguém que, do mais formado até ao que tem menos instrução, que não me entenda; porque pertenço à maior classe do país – o povo – e por isso são milhões a identificarem-se com o meu dia-a-dia de dureza no trabalho, o meu percurso familiar e profissional, os meus fracassos e sucessos. E isto não se aprende na escola. Aprende-se com a vida aqui no fundo da pirâmide. Cristina Miranda, Blasfémias

Os movimentos populistas já foram estudados à exaustão, mas o delírio vitorioso desta senhora em registo de descarada ego trip não nos deve surpreender. Uma das vantagens de se ler pouco é a ilusão de que temos ideias originais. Infelizmente, vamos ter de aturar estes inverted snobs nos próximos anos. Habituem-se.

14
Out19

Contradições


Eremita

Ricardo Araújo Pereira fica muito incomodado sempre que, a propósito de uma polémica sobre liberdade de expressão, surgem vozes a pedir o despedimento de alguém. Mas o que é esta diatribe de RAP senão um assassínio da competência de Pedro Marques Lopes, como raras vezes se vê entre a malta da opinião, que equivale a um incentivo para que dispensem Marques Lopes dos seus vários gigs

13
Out19

Tiro ao Livre


Eremita

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Suspeito que não votei no Livre precisamente por causa das críticas que João Júlio Cerqueira fez. O Livre entendeu que seria uma boa ideia amarrar-se à política identitária e a coisa correu-lhe bem. É muito provável que cresça agora por ser a némesis natural do Chega. Aliás, um cínico diria que Rui Tavares está a dar baile a toda a gente e sabe muito bem o que pretende ganhar com a sua diabolização aberta de André Ventura, mas seria preferível que estas manobras de mediatismo e a fixação identitária de Katar Moreira nos permitissem também ouvir o discurso estruturado de Rui Tavares sobre a Europa, a menos que o Livre queira continuar a ser um partido boutique com um grupo parlamentar de 1 a 3 deputados.

Entretanto, contaram-me que Katar Moreira tem sido atacada nas redes sociais com uma violência e deselegância incomuns. Nas minhas breves leituras da opinião publicada, também vou notando uma irritação a crescer nos dentes que parece toldar o raciocínio. É assim provável que a chegada ao Parlamento de Joacine Katar Moreira esteja para a direita ideológica que vocifera contra as políticas identitárias como a eleição de algum presidente trapalhão para os humoristas profissionais, isto é, simplifica-lhes tanto trabalho que eles se vão tornando displicentes. Vejamos dois exemplos. 

Houve quem achasse escandaloso que Joacine Katar Moreira festejasse a eleição para o parlamento junto à bandeira da Guiné. Eu achei ridículo, mas sou suspeito. Acho sempre ridículo que alguém exalte o país a cuja miséria fugiu em detrimento do país que lhe permitiu prosperar . Alberto Gonçalves, Observador

Tenha calma, homem [Rui Tavares], como a sua própria experiência demonstra, não basta ser eleito uma vez para condicionar os votos dos eleitores no futuro, é preciso fazer alguma coisa que os eleitores reconheçam como útil para ganhar a eleição seguinte. Henrique Pereira dos Santos, Corta-Fitas

Admitindo que não é por falta de escrúpulos, como se explica que pessoas capazes escrevam coisas tão estúpidas ou ignorantes? Só pode ser mesmo a irritação que o Livre causa. Obviamente, podendo a bandeira da Guiné-Bissau representar o povo guineense e não o Estado, e aceitando-se que uma pessoa pode ter laços fortes a dois países, o Alberto passa de fino ironista a demagogo nacionalista que só não usa o "volta para a tua terra" para não desvirtuar o seu esmerado estilo. E ainda obviamente, Henrique Pereira dos Santos aposta na distracção ou falta de memória dos seus leitores, porque a explicação mais simples para o falhanço da candidatura de Rui Tavares em 2014 foi a mudança de partido. Em 2009 concorreu pelo já então sólido Bloco de Esquerda e em 2014 pelo recém-formado Livre e, na prática, tendo em conta os ataques de Louçã, contra o Bloco. Também a boca de que Rui Tavares não fez nada ("de útil") quando esteve no Parlamento Europeu (2009-2014) é insustentável. Rui Tavares, apesar de ter pertencido a dois grupos parlamentares pequenos, o que reduz a margem de actuação de um eurodeputado, foi muito activo (1, 2), tendo produzido mais relatórios num mandato do que muitos farão em três, e é o autor de um relatório marcante sobre os abusos de Viktor Orbán que foi adoptado pelo Parlamento Europeu e é hoje conhecido como o "Tavares report". Haverá mais algum relatório hoje designado nos media pelo apelido de um outro eurodeputado português? Enfim, a ideia de que os portugueses votam para o Parlamento Europeu em função da prestação dos eurodeputados no mandato anterior não faz qualquer sentido e quem tiver alguma dúvida deve olhar para o percurso de Nuno Melo, que vai lá passar pelo menos 15 anos apenas a mandar (muitas) bocas nas sessões parlamentares.

Concluindo: se duas pessoas com experiência no universo da opinião assinam as asneiras que cito, não deve surpreender que os anónimos das caixas de comentários sejam uns autênticos trogloditas. 

 

13
Out19

Peter Thiel


Eremita

Talvez haja outro tech investor e entrepreneur capaz de citar John Milton, Maquiavel, Carl Schmitt, René Girard e Joseph Ratzinger, mas não será seguramente Mark Zuckerberg. 

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