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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

25
Set19

Somos todos meritocratas, certo?


Eremita

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Sabemos que o capitalismo é indissociável da competição e que há duas formas de o atacar apontando baterias à competição. A forma radical é defender o fim real das assimetrias de berço que tornam a competição injusta. Mas uma sociedade baseada numa competição absolutamente justa seria uma distopia em que cada geração não teria herança, memória, família ou diversidade genética, e acreditaríamos na metáfora de que o corpo e a mente são conduzidos pela alma, como numa corrida de carros idênticos em que só o talento do condutor e o acaso fazem a diferença. Obviamente, ninguém quer viver neste mundo, nem sequer o comunista mais puro. O comunismo, a social-democracia, o Estado social, etc. são apenas soluções de compromisso imperfeitas para lidar com este problema. A outra forma, mais branda, é questionar o benefício social da competição, fazendo passar as ideias de que lemos Darwin mal pois encontramos na natureza inúmeros exemplos de cooperação e de que o excesso de quantidade pode desvirtuar a qualidade, isto é, que o culto da competição criou distorções descritas na literatura especializada pelo princípio de Mateus: “aos que tudo têm, mais será dado; aos  que nada têm, tudo será tomado”. Vem isto a propósito de um artigo sobre a meritocracia publicado na The Atlantic.  Quem preferir consumir esta informação enquanto lava a loiça, pode ouvir a conversa entre o autor e Ezra Klein, esse perigoso esquerdista.  "Meritocracia" é, de longe, a minha palavra preferida, pela sua curiosa origem e pelas contradições irresolúveis que encerra, pois trata-se de um termo que liberta e oprime. Como o montado não dá tréguas, não me alongarei mais, mas um dia escreverei sobre o tema. Tenho já um título, "A meritocracia histérica" (uma paráfrase de um termo inventado pelo crítico James Wood), e as pessoas vaidosas sabem bem que, por vezes, um título catita é a principal motivação para escrever o texto ou mesmo a única. 

 

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24
Set19

Como não criticar o vegetarianismo


Eremita

Mas o pior é que os fundamentalistas da causa [vegetarianos] não se ficam por aqui. Para justificarem a sua teoria auto-afirmam-se amigos dos animais e logo, deixam passar o sentimento de que só é amigo destes quem come plantas! É o contra-senso total! Então devo depreender que há espécies de seres vivos privilegiados que não devem ser comidos e outros que até o podem ser? Não serão as plantas elas também seres vivos, tão dignos de serem mantidos  como as galinhas os patos ou os porcos? Não terão elas até maior nobreza no papel ecológico e ambiental que desenvolvem no nosso planeta limpando todos os dias o ar que respiramos, muito mais importante que a galinha que se limita a comer e defecar?  E os insectos, quem os defende? Só os mamíferos ou peixes é que parecem ter direito à vida? Em que ficamos? Cristina Miranda

Alguém explique a Cristina Miranda que nos textos fundadores do vegetarianismo, de Bentham a Singer, o critério essencial é a capacidade de sentir dor. Há várias formas confrontar os vegetarianos e veganos com paradoxos, como lembrar a quantidade de animais que morrem durante uma colheita de cereais. Saber se a noção de dor que usam é antropocêntrica também daria uma boa discussão, obviamente. Mas a mensagem é simples: Cristina, leia mais e escreva menos.

23
Set19

A hora do porco


Dr. Fausto Gomes

Conterrâneos de Ourique, ouriquenses na diáspora, amigos de Ourique, 

A fileira do porco alentejano encontra-se perante uma oportunidade que nos imortalizará com nome de rua ou produzirá gerações de proscritos que pagarão cara a cobardia e inépcia dos seus antepassados. 

Com a má imprensa que os bovinos vão tendo pela sua contribuição para as emissões de carbono, será impossível continuarmos a tratar a posta mirandesa como a carne ex-líbris da nossa gastronomia. A alternativa natural é a carne de porco alentejano, os seus presuntos, os seus enchidos de longa duração. A pegada de carbono do  porco é compatível com a emergência climática e a necessidade de valorizar as terras. A montanheira, essa errância pelo montado em busca de landes e bolotas, numa liberdade que qualquer funcionário público invejaria, permite-nos destrunfar veganos e outras aberrações citadinas. António Costa disse que temos o melhor peixe do mundo? Será que temos? Quem fez tal avaliação? Não transformemos slogans publicitários em directrizes. O'Neill escreveu: "Sigamos o cherne". Mas porquê? Não transformemos os delírios de um surrealista mulherengo em desígnio nacional. Amigos, a única certeza é esta: temos o melhor porco alentejano do mundo! 

O porco alentejano não vencerá apenas porque a vaca já perdeu. O porco alentejano vencerá porque a China continua a ganhar. Os chineses adoram carne de porco e o aumento do poder de compra e dimensão da classe média-alta chinesa criou um mercado de sonho. Como se não bastasse, desde 2018 a peste suína africana já deu cabo de mais de um milhão de porcos na China. O nosso Governo sabe? Será que Lisboa entende que o porco alentejano é o futuro? Eis uma carne livre de pecado, uma carne de um animal cuja história se confunde com a do nosso povo, uma carne que transformamos em produtos de eleição e fáceis de exportar, como os enchidos, os presuntos e as paletas, iguarias ideais para um mercado em que a carne será, cada vez mais, consumida em ocasiões especiais.

Naturalmente, Ourique e a ANCPA têm de liderar este movimento, federando todas as forças do Alentejo. 

Nada temos contra a vaca, mas tudo faremos pelo porco!

Disse.

 

 

22
Set19

Pudor e pachorra


Eremita

Como o meu avô foi um latifundiário alentejano e tenho parentes com patilhas viris, sinto-me obrigado a ir ver o filme A Herdade, mas se é verdade que há uma ameaça de incesto no enredo, conto delegar a tarefa a um dos meus companheiros de blog ou até a uma das personagens fictícias do Ouriq. O recurso ao incesto deveria ser mais penalizador do que a mais estapafúrdia solução Deus ex machina. Sou pela proibição de financiamento público a enredos com incesto. Não é excesso de pudor, é mesmo falta de pachorra. 

 

22
Set19

Os líderes que vieram do frio


Eremita

Screen Shot 2019-09-22 at 10.40.07.pngFontes: 1 e 2.

Nas últimas décadas, a Escandinávia tem tido algumas figuras de fama mundial nas suas áreas. Penso em Dolph Lundgren, Yngwie Malmsteen, Zlatan Ibrahimović, Hans Rosling, Mads Mikkelsen, Stieg Larsson, Karl Ove Knausgård ou Lars von Trier, que se destacaram no cinema de pancadaria, heavy metal neoclássico, futebol, estatística, representação, escrita de policiais ou romances e na realização, respectivamente. Mas salvo uma ou outra excepção, nenhum deles é propriamente uma celebridade mundial conhecida de toda a gente e nenhum parece ter a fama perene de escandinavos desaparecidos ou retirados há muito tempo, como Ingrid Bergman, Greta Garbo, Alfred Nobel, Björn Borg, Olof Palme, os ABBA ou Ingmar Bergman. De resto, ainda há uns  poucos anos, a personalidade dos países do norte mais conhecida seria a Björk, que não é escandinava. Mas na arena política das alterações climáticas as figuras de proa polarizadoras à escala global são dois escandinavos: Lomborg e Thunberg. O dinamarquês Bjorn Lomborg, um cientista político e professor de estatística, assumiu-se como o grande crítico do alarmismo climático desde a publicação do livro Skeptical Environmentalist (2001). E a sueca Greta Thunberg, uma adolescente activista, tornou-se o símbolo da grande luta política das gerações mais novas para salvar o planeta. Não deve ter sido por acaso. Era precisamente de sociedades desenvolvidas e com clima extremo que se esperaria  que estes líderes viessem.

Este texto insípido é apenas uma estratégia minha para  escrever "Yngwie Malmsteen" no Ouriq e não desatar a perorar sobre alterações climáticas e bufas bovinas, assuntos que me fascinam enquanto exemplos sobre o que é o consenso científico e como este se traduz em opinião pública, mas que não domino. Só hoje comecei a ler sobre o tema, escolhendo o famoso Carbon Dioxide and Climate: A Scientific Assessment, de 1979. Estou receptivo a sugestões de leitura, sobretudo as menos óbvias. 

 

 

 

 

21
Set19

Reflexos da memória


Eremita

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Este texto de Rui Ângelo Araújo deixou-me a sorrir. Não só elogia um livro do Bruno (Vieira Amaral), creio que o único* dos bloggers portugueses do princípio do século que se fez bom escritor, como partilha uma experiência de leitura coincidente com a minha: também eu li a Crónica de uma Morte Anunciada de noite e de uma assentada (em rigor, deitado), também usaria uma qualquer imagem relacionada com luz para descrever a experiência e, por algum motivo, também associo o livro aos lençóis da cama, embora a memória seja uma imagem e não um cheiro. Não lemos a mesma edição, a do Rui foi a da Dom Quixote e a minha a do Círculo de Leitores, cuja capa tem uma moldura amarela de surpreendente persistência na memória, mas esta diferença no que seria mais fácil e irrelevante partilhar só reforça as restantes coincidências. 

* O único daqueles que conheci na altura, pois houve outros que viriam a publicar livros bem recebidos pela crítica e leitores (como a Isabela Figueiredo). 

20
Set19

O marido de Elisa Ferreira


Eremita

O marido da comissária indicada por Portugal é presidente da CCDR-Norte, responsável pelo programa operacional que recebe o maior envelope de fundos comunitários do país. Público

Se isto não é um caso de incompatibilidade, precisamos de redefinir a palavra. Salvo desatenção da minha parte, o mais extraordinário é ninguém — entre jornalistas e decisores — ter antecipado este problema, sobretudo depois de meses de notícias sobre incompatibilidades na grande família socialista. Estamos perante um bom exemplo de cultura entranhada. Enfim, sugiro um divórcio em 24 horas porque também a República precisa de mártires (mas o PS paga os 280 €). 

Adenda: a acreditar nesta notícia,  este caso não é problemático porque como "Fernando Freire Sousa [o marido] é “funcionário público” [,] não se aplica o conflito de interesses, já que a sua mulher nunca o beneficiaria a título pessoal, mas, no limite, o organismo público a que o marido preside." Para os burocratas de Bruxelas, o risco do tráfico de influências não é um problema. Para o nosso país, a possibilidade de os fundos beneficiarem certos programas dada a proximidade entre interessados e decisores, não é um problema. Definir a corrupção desta forma caricatural e exclusiva, como um acto em que se entrega uma mala de dinheiro vivo numa garagem pouco frequentada, sem admitir cenários mais subtis, é gozar com os cidadãos. 

 

18
Set19

Sobre bifes


Eremita

bw.jpg

fonte

Somos especistas, fãs do grande Bernard Williams de The Human Prejudice. Peter Singer e outros utilitaristas não comovem, dão calafrios. 

Adenda: nos últimos dias, as declarações sobre mudanças na dieta na Universidade de Coimbra e nas jantaradas de Estado foram motivadas pela luta contra as alterações climáticas. Para se perceber o real valor destas medidas, recomendo um texto de Henrique Pereira dos Santos. Este post foi só para lembrar que  os animalistas andam a viajar à boleia da pressão política criada pelas alterações climáticas. 

 

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