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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

29
Set19

Novas do lobo-antunismo


Eremita

Screen Shot 2019-09-29 at 09.30.36.png

Já não há Sebastianismo, nunca houve um Quinto Império, a irmã Lúcia morreu, Salazar também e até António Costa não se sente nada bem das costas, mas o Lobo-Antunismo persiste há uns bons 25 anos. Este movimento pimbo-patriótico, que tende a crescer nas semanas que antecedem a divulgação do Nobel da Literatura, acaba de se revigorar pela voz de Bernaaaaaaaaaaaaaaaaaard-Henri Lévy (BHL), que estranha a demora na atribuição do Nobel ao nosso homem. Os Portugueses adoram estes elogios feitos por estrangeiros e mais ainda teriam adorado se soubessem quem é BHL e que este filósofo, cineasta e madeireiro consegue o feito de ser ainda mais vaidoso do que o próprio Lobo Antunes. Marcelo assegurou depois o momento que sempre vem após a constatação desta enorme injustiça: esvaziar o Nobel de importância, numa espécie de cúmulo do "quem desdenha quer comprar", ou não fosse ele, ainda anos antes de ser Presidente, obcecado com atribuições de taças e tacinhas aos nossos. O Lobo-Antunismo extinguir-se-á com a atribuição do Nobel ao escritor ou com a sua morte. Só a fama do escritor será eterna, pois já se provou que não pressupõe a perenidade dos hábitos de leitura, nem sequer voltar a abrir algum dos seus livros. 

29
Set19

Mimetismos


Eremita

Screen Shot 2019-09-29 at 00.03.41.png

fonte

Pesa-me educar as miúdas em Ourique, privando-as de civilização.  Por isso, instruí o moço de recados para que as acompanhe em incursões à capital. Hoje levou-as ao Oceanário e trouxe um total de 64 minutos de gravações, curtos vídeos em que elas, coladas aos vidros dos diferentes aquários, vão comentando a vida animal com grande entusiasmo. Mas o melhor aconteceu ao jantar, já de novo em Ourique. Terminada a sobremesa, puseram-se a brincar com um cacho já quase sem uvas, imaginando que era um dragão-marinho-folhoso, como os que viram de tarde. A Evolução precisou de milhões de anos para produzir o espectacular caso de mimetismo em que um peixe faz de planta e às minhas pequenas bastou um instante para irem de outra planta ao mesmo peixe. Não, não as faz geniais, é só mais um exemplo da sua ligação aos bichos, que por ser tão forte ainda transformará o surpreendido pai num junguiano ou criatura ainda mais mística.

28
Set19

Quem são os derradeiros cépticos das alterações climáticas?


Eremita

Na imprensa , circulou há uns dias uma notícia de que um grupo de 500 cientistas enviou uma carta às Nações Unidas em que põe em causa as previsões do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), que considera alarmistas. Na altura, fiquei curioso e escrevi a um dos signatários da carta, pedindo os nomes dos 500 cientistas. Na resposta, fui informado de que essa informação seria revelada a 17 de Outubro, numa conferência de imprensa a ter lugar em Oslo. Por terem recebido muito pedidos semelhante ao meu ou por causa do sucesso estrondoso nas últimas semanas do movimento Extinction Rebellion, este grupo resolveu entretanto antecipar a divulgação da lista dos 500 cientistas.

Como por vezes me esqueço de que tenho filhas, uma propriedade high maintenance e inúmeros biscates para sacar trocos e ir sobrevivendo em Ourique, a minha ideia inicial era descrever estas pessoas recorrendo a dados bibliométricos e biográficos. Percebo agora que jamais terei tempo para fazer esse trabalho, mas talvez um profissional da informação queira investir uns dias nessa empreitada. Assim, embora seja provável que a informação já esteja em toda a parte, partilho o pdf que recebi.  A quantidade de cientistas italianos surpreendeu-me e aposto que estes 500 nomes escondem inúmeras outras curiosidades. Se algum jornalista veio aqui parar, sugiro que largue a low handing fruit e faça o seu trabalho. 

28
Set19

A pura impureza da alma


Eremita

... houve rivalidade entre polícias, uma delas não cumpriu o estipulado pela PGR, fê-lo por uma boa causa e não para obstaculizar a investigação (atenuante importante), e o objectivo de qualquer investigação a um furto de armas foi cumprido: recuperaram-se as armas. Penélope, Aspirina B

A haver justiça cívica e patriótica a 6 de Outubro, o PSD ficaria de fora da Assembleia da República na próxima legislatura. (...) Entretanto, quão mais se sabe do caso mais saliente é a gravidade do mesmo mas não por causa de Azeredo Lopes, o alvo político de todos os oportunismos e culpabilidades; um ministro da Defesa – tutelando uma área ministerial sui generis, a qual responde directamente ao Comandante Supremo das Forças Armadas – apanhado naquela que é, sem dúvida, a crise mais complexa e obscena do putrefacto Exército português depois do 25 de Novembro. Valupi, Aspirina B

Naturalmente, esta contradição apenas demonstra a pluralidade de vozes que se juntam no Aspirina B, o que é um "acontecimento positivo", para usar o registo lava mais branco de Penélope, que sobre Tancos nos pede para não perdemos a "noção"; uma coisa é certa: não estará a referir-se à noção do ridículo. As imprecisões úteis (não recuperaram todas as armas), a parvoíce, aquela vontadezinha de suspender a democracia que sempre reemerge, as insinuações sacanas ao bom estilo Cofina de autoproclamados defensores do Estado de Direito... Enfim, nem quero pensar no que se escreveria por aí se alguém ainda lesse blogs e algum blogger pudesse realmente estancar a pequena perda de votos do amado PS, mas confesso o meu fascínio por aqueles que comprometem o bom senso e a decência de forma voluntária e sem estar sob efeito de qualquer embriaguez utilitarista. Eis as impurezas da alma no seu estado mais puro. 

 

 

 

27
Set19

A pornografia das emoções


Eremita

É possível que discussões que deveriam ser sobre estética se desvirtuem quase sempre em polémicas repetitivas sobre a liberdade de expressão porque as primeiras são mais exigentes e as segundas estão mais perto das emoções. Sejamos francos: em território nacional, a Missa em Si menor, de Bach, fez verter menos lágrimas do que Sonhos de Menino, um dos plágios de Tony Carreira. Suspeito também que quem tente manter a discussão no plano da estética seja acusado de elitista, o que é muito menos proveitoso do que dar ares de paladino da liberdade de expressão. Assim, sempre que um artista nos propõe um trabalho polémico, criticá-lo tende a ser visto como censura e vai-se da estética à ética num ápice. Geralmente, aparece depois um humorista a teorizar sobre a liberdade de expressão, dizendo-nos que as "palavras não são actos" e que censurar é contraproducente porque nos permite identifcar os perigosos energúmenos que, de outro modo, ficariam caladinhos e a salvo da humilhação pública. O humorista, por ser o canário da mina onde se explora o filão do politicamente correcto, sente-se legitimado a repetir este discurso ad nauseam mesmo quando o assunto deveria ser outro. Isto é um problema, porque a crítica pode ser feita sem pressupor uma proibição que vá além da censura social e se perde sempre uma excelente ocasião para discutir o gosto e a função da arte subversiva.

O último episódio deste fenómeno recorrente foi a discussão sobre a letra e o vídeo do tema BFF, do rapper Valete. Resumindo para quem ainda não viu: um homem, depois de avisado de que a sua mulher o anda a trair,  arma-se com uma caçadeira e supreende a adúltera na cama com o melhor amigo dele. A tensão cresce até ao momento em que a mulher se vê com os canos da caçadeira na boca e diante da probabilidade de uma bala lhe perfurar a traqueia, como nos informa Valete — esquecendo-se que daquele ângulo seria mais provável perfurar outros órgãos mais vitais, mas podemos estar perante um caso de deformação profissional de quem ganha a vida por ter muita garganta. Retomando: a arma não chega a ser disparada e percebe-se depois que fora um sonho dele, mas que a traição dela e do best friend forever era real. Durante o governo de Passos Coelho, Adolfo Luxúria Canibal fez algo parecido no tema Pelo Meu Relógio São Horas de Matar, chegando inclusivamente a concretizar mortes no vídeo. A diferença essencial entre os dois vídeos é o alvo: Valete escolheu a mulher adúltera numa altura em que se condena cada vez mais o crime passional, e Adolfo optou por matar políticos em plena crise económica. Por outras palavras, Valete subiu a parada, indo contra a maré, pois o assassínio de um político imaginário e corrupto — embora não o assassínio real de políticos carismáticos como JFK, Luther King ou Olof Palme — comove menos do que a mulher morta num contexto de violência doméstica.

Isto continuará um dia; não sei bem quando, mas sei para onde vou.

 

 

 

26
Set19

Cenas da vida conjugal*


Eremita

 

* Yamandy Costa e Elodie Bouny são um casal e vivem juntos. Ela toca o segundo movimento da peça La Catedral (Allegro Solemne), do grande Barrios, respeitando a partitura,  e ele improvisa. Seria demasiado fácil rematar a nota com estereótipos de género ou sobre o Brasil e a França. 

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