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OURIQ

Um diário trasladado

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Um diário trasladado

29
Jun19

Nuno Bragança escrevia com graça


Vasco M. Barreto

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Não surpreende que o eremita tivesse decretado férias grandes como quem anuncia uma interrupção dos trabalhos no Ouriq. Desde pelo menos um dos nossos momentos fundadores que conhecemos os tiques autocráticos da figura. Pois bem, eu ainda não fui de férias e o Judeu, que estará veraneando em parte incerta mas nunca será um turista, a qualquer momento pode enviar um postal ilustrado que se leria aqui como um manifesto. Não há férias grandes. Reformulo, pegando no "machado", a metáfora preferida dos praticantes de uma curiosa escrita de violência desproporcionada, gratuita e inconsequente (enfim, ritualizada): as férias grandes são para os funcionários públicos sem ambição. 

Continuemos a socar inimigos imaginários. José Pacheco Pereira escreveu um texto preguiçoso e desinspirado sobre o acordo ortográfico. Ninguém espera do nosso único intelectual público um estilo esmerado, a força vem-lhe da cultura, do largo espectro de interesses e da facilidade com que lida com as ideias, mas há limites e "não me venham com..." traumatiza até o leitor veterano. Se era para homenagear Vasco Graça Moura, mais valia ter optado por um tema menos batido, pois a comparação com outras redacções de qualidade superior torna-se inevitável. Mas é verdade que a originalidade pode ser vista como uma busca de novos nichos ecológicos que se alimenta do instinto de sobrevivência da espécie. É por isso que a associamos à juventude ou aos perpetuamente marginalizados e Pacheco não cumpre nenhuma das condições.

Agora em mixed martial arts sem luvas. Quantos minutos demorará Alberto Gonçalves a escrever uma crónica? Já terão reparado que é sempre a mesma crónica, o que desperta uma inquietação recorrente: quanto saca ao Observador? O eterno sketch, que dá ao escritor uma renda, não é um recurso ao alcance de todos. Primeiro, é preciso identificar e responder a uma procura do mercado. Segundo, poucos conseguem conjugar a recusa de pensar a actualidade com uma capacidade de observação e sentido de humor acima da média. Quando não resulta em inacção, a conjugação de forças antagónicas cria invejáveis máquinas de encher chouriços. 

Termino – pensemos num imaginário duelo novecentista de pistolas  –  com Vasco Pulido Valente, que pôs em causa o sentido de humor de Nuno Bragança. O Público anda mesmo a abusar das mentiras. Certo, a queda de popularidade de VPV  lembra a do PCP na incapacidade de renovação geracional que reflecte; para cada dois leitores de VPV que morrem, haverá um novo leitor ou nem isso, talvez um terço de leitor. Certo, os números das tiragens e assinaturas de jornais fazem de Portugal um país de brincadeira. Mas tenhamos presente que só existem 5 mil exemplares da obra completa de Nuno Bragança nas casas dos portugueses e que deste universo doméstico potencial de 20 mil pessoas, menos de mil terão lido passagens do livro e menos de um (talvez um terço) se sentirá motivado para fazer o fact-checking destes faits divers, if you follow my drift – Nuno Bragança, muito dado a passagens noutras línguas,  jamais optaria por esta concatenação de expressões estrangeiras feitas, note-se.

Um dia investigarei se tem pernas a tese de que Bragança é o Joseph Heller português. Não sei se merece sair da "clandestinidade"; esse impulso ressuscitador caprichoso, tão frequente em académicos e jornalistas de cultura, só aumenta a nossa ansiedade. Sei apenas que o homem escrevia com graça. Não há em A Noite e o Riso a inteligência de Sinais de Fogo e talvez a componente infanto-marialva da graça de Bragança torne a prosa datada, mas tenho a certeza de que ainda arranca sorrisos e talvez até aquela rara gargalhada que rompe o silêncio. Em todo o caso, desconfio sempre dos ajustes de contas entre conterrâneos ou gente da mesma geração, sobretudo quando o visado está morto. VPV e Bragança rivalizavam nas páginas de O Tempo e o Modo? Giro, mas e daí? Terá Bragança roubado uma namoradinha a VPV em 1967? Não se pode descartar, mas so what? VPV, que passou algumas vezes a mão pela babugem da ficção (é dele o guião de O Delfim), que é um literato (relê a obra completa de Eça todos os fins-de-semana e sentiu necessidade de criticar o bestseller Equador), responderá sempre que nunca inalou – Bragança também não faria esta amálgama de metáforas. Desconfio que o nosso grande catastrofista terá mais pena de não ter escrito um romance – o seu Glória, segundo o freudianíssimo prefácio do autor, não é um romance – do que de não ter produzido uma obra de referência sobre Hitler, ambição sensaborona e megalómana por ele confessada em jeito de balanço de vida. Nunca admitirá a outra frustração, que faria dele uma Clara Ferreira Alves, o exemplo nacional do romancista que não chega a escrever um romance, o que seria insuportável para um homem que cultiva alguma misoginia nos ódios de estimação. Aliás, corrija-se já o lapso: depois de décadas de hesitação, até Clara Ferreira Alves publicou entretanto um romance. Bragança mostrou outra garra. Morreu novo e pode estar na "clandestinidade", mas cumpriu a vocação. Teve a coragem de publicar ficção e consta que se levantava às cinco da manhã para escrever – isto tresanda a inverdade, mas é irrelevanteLadies and gentlemen of the jury, apresento-vos duas passagens de A Noite e o RisoO assunto é menor, mas como ir de férias quando até os historiadores corrompem a verdade?

Exhibit A

Não se ficou nisso, é óbvio: pistola à cinta só por si não soluciona briga, coldre à cowboy só tem sentido funcional. Destarte, em hora e meio o nosso Rato já pusera cinco virgens a imaginar loucuras. Escolhendo a que, dentre elas, reunia mais calibre de apelidação e beleza mais sumida, acabou encaminhando-a até um extremo do parque, que era vasto e tinha buxos seculares. Ali,  a jovem delirante recebeu a prenda, inestimável: ver cair o único véu que a separava dos volumes titilantes, e contemplá-los com afagos de noviça. "Depois disso, generalizei– assim ouvi mais tarde o Júlio,  a epitafiar a sua carreira.

Exhibit B

A coisa passou-se num ponto de Hábitos Suíços. O Doutor escreveu no quadro os dados do problema:
«Quando um pobre nos quer lamber as botas, devemos ou não untá-las previamente?
Em caso afirmativo, justifique a resposta.»
Como eu estava sentado ao lado do melhor aluno, decidi aproveitar esse acaso para lhe perscrutar as qualidades racionais: fingindo escrever, olhava de soslaio o ponto dele. Não tardei a ficar completamente absorvido pelo que aquele fedelho magro ia transportando dos miolos para o papel. Lembro-me perfeitamente, era assim:


1.1 Se o pobre me lambe as botas, espera que eu espere isso.
1.2 Se eu untar as botas com nada, o pobre pode pensar que eu sou ou

distraído ou
desconhecedor dos costumes ou
desprezador da miséria.

1.3 Qualquer destes três pensamentos pode fazer zangar o pobre, ou seja, levá-lo a cometer algum pecado.
1.4 Para impedir o pobre de pecar é pois necessário untar as botas que ele vai lamber.

2.1 Se eu untar as botas com qualquer dos produtos com que habitualmente elas se untam, o resultado pode ser idêntico ao de 1.2, com as nefastas consequências de 1.3.
2.2 Visto que devo untar as botas com um produto que me atrevo a chamar não-botoso, há que saber se este deve ser salubre ou insalubre.
2.3 Se o produto foi insalubre, o pobre pode apanhar uma doença e morrer. Ora, não se deve matar pobres, porque cada um deles representa esmolas possíveis, quer dizer Boas Acções. Como dizia o Poeta, «os pobres são os degraus da escada que conduz os ricos ao Céu.»
2.4 O produto deve, portanto, ser salubre, a fim de preservar a saúde dos pobres, a qual é a garantia físico-química da salvação dos ricos.

3.1 Se o produto foi muito salubre, isso pode ter as seguintes consequências:
3.1.1 robustecer demasiadamente o pobre;
3.1.2 atrair um numero excessivo de pobres à lambedela.
3.2 A consequência 3.1.1 é de evitar, porque um pobre muito robusto decide-se a deixar de ser pobre, o que é um mal pela razão apontada em 2.3
A consequência 3.1.2 também é de evitar, pelo mesmo motivo e ainda porque, quando o número de pobres lambedores aumenta muito, a paciência do rico lambido diminui bastante.

3.3 O produto deve, pois, ser moderadamente salubre, até porque a moderação é a principal qualidade a exigir a um pobre.

23
Jun19

MEC: um capital infinito de simpatia


Eremita

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Já lhe aconteceu?
Já. Digo sempre que sim. São meus amigos.

Escreveu a dizer bem?
Sim. De coisas que são uma merda. Faço-o com toda a honra. Temos a ideia de que somos incorruptíveis, mas ou se é amigo ou não se é. “Ah dizes isso, porque é teu amigo.” Exacto. A reputação cai um bocadinho? Who cares? Entrevista no Público

 

Podemos perdoar aos outros o que nunca nos perdoaríamos mas fica sempre por explicar se o fazemos por bondade ou desinteresse. É muito menos dúbio admirar nos outros o que nunca nos perdoaríamos. Vou até ao ponto de uma admiraração a dois tempos, primeiro pela falha e depois pela sua revelação na entrevista, esquecendo a sua parte de traição. Il vaut mieux avoir tort avec MEC que raison avec João Pedro George. 

 

 

 

 

22
Jun19

Do limbo da memória


Eremita

Na juventude, cruzei-me uma vez com o António Poppe e recordei esse episódio há uns dias. Nunca mais o vi, mas li hoje que trabalhos de Poppe faziam parte do "tesouro" de obras de arte que Ricardo Salgado escondera num armazém climatizado de Loures — you can't make this stuff up. Parece que duas evocações desligadas de Poppe bastaram para que o procurasse no Youtube  e o resgatasse unilateralmente do limbo da memória. Uma máquina com propriedades telepáticas que nos notificasse sempre que alguém nos resgatasse unilateralmente na sua memória seria uma tentação, mas não consigo decidir se nos faria sentir ainda mais sós ou um pouco mais acompanhados. 

 

21
Jun19

A poção de Panoramix (23)


Eremita

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Estamos a chegar a uma altura em que já se escreveu sobre tudo. Há duas décadas também seria essa a sensação e é assim há muitos anos, o que sugere sermos vítimas de uma ilusão. Mas parece-me deveras improvável que não exista por aí um tratado sobre a alcunha, ainda que seja apenas uma edição de autor de um professor de instrução primária de um pueblo na periferia de Cusco, Peru. Se eu escrevesse tal livro⁠ — coisa que não farei⁠ — dividiria a alcunha em quatro tipos. Há a alcunha auto-imposta, a mais ridícula de todas e que tende a ser um reflexo megalómano. Temos a alcunha inspirada nas características físicas, geralmente a mais cruel e a menos imaginativa. Existe a alcunha que traduz características psicológicas, que pode ser muito castiça ou não. E guardei para o fim a alcunha biográfica, isto é, aquela que surge na sequência de um episódio. É na infância e adolescência que a alcunha se estabelece. Deixo a cada um a tarefa de indexar as alcunhas que conhece. Aqui escreverei apenas sobre Panoramix.


Falamos de uma alcunha que dispensa chave dicotómica, pois como éramos imberbes só pode ser do tipo biográfico. O instante fundador aconteceu a meio de um dos nossos campeonatos. A nossa equipa perdia, essencialmente por falta de preparação física. Há por aí a ideia de que as crianças e os adolescentes têm uma energia inesgotável. É uma ideia errada. Tudo é relativo e os outros corriam claramente mais do que nós. Talvez fosse resultado das nossas noitadas com o ZX spectrum. O certo é que naquele Verão não estávamos com força. Foi então que N. se lembrou dos suplementos vitamínicos. A equipa começou a tomar doses moderadas de vitamina C, mas em menos de uma semana tínhamos feito a escalada para o exagero: consumíamos quantidades inconcebíveis de pastilhas efervescentes coloridas: "O meu mijo já sai cor de laranja", queixou-se um a dada altura. Mas continuávamos a perder e sem fôlego. Só N. não desarmou e insistiu em explorar outras alternativas. Dos produtos orgânicos às afinações na dieta, nada parecia resultar. O eureka de N. surgiu numa tarde de televisão, durante um intervalo para publicidade: era a Coca-cola. N. experimentara já o ligeiro frenesim que tomava conta dele depois de beber três Colas. O seu golpe de génio foi perceber que era preciso isolar do refrigerante o princípio activo que dava energia. Fosse outro o lugar e a época, talvez houvesse no prédio um engenhocas, ou um daqueles miúdos tímidos com kits de química e microscópio. Não havia ninguém. As ciências naturais não entravam num prédio de magistrados. Só que N., comnhecido por ter um raciocínio escorreito, lembrou-se de evaporar a água da Cola-cola. As primeiras experiências falharam mas ao fim de uns dias tinha o método optimizado: uma simples fervedura prolongada num caldeirão destapado. Ao fim de umas horas, 10 litros de Cola-cola estavam reduzidos a uma pasta caramelizada que cabia numa mão fechada. N. moldava depois a pasta com ajuda de uma forma, punha o produto no congelador e após algumas horas apresentava-nos uma tablete de aspecto duvidoso, que se trincava fria "para não perderem a energia vital nos dentes" e era insuportavelmente doce. Confesso que tomei aquilo. E funcionava. Consumida a meia-hora do encontro, entrávamos com fogo no rabo e com uma dose suplementar ao intervalo ninguém nos agarrava. Cada jogador ficava a 20 litros de Coca-cola por encontro, a época ia a meio e a equipa tinha 8 elementos. Basta fazer as contas para perceber que era uma brincadeira cara. Mas funcionava e ninguém tinha vontade de parar.


O volte-face veio de novo da televisão: escândalo de dopping na Volta à França. Os mais escrupulosos acusaram o toque. N. ainda argumentou: "A Coca-cola não é uma substância proibida. Não sejam parvos". Mas a verdade é que nós tínhamos uma vantagem sobre os outros. Em poucas semanas passáramos para a frente. "Querem perder o campeonato, é?" ameaçou-nos N. Ninguém queria perder. Movidos a Cola-cola limpámos os jogos que faltaram e conquistámos a nossa primeira taça. Ficámos eufóricos nessa noite. Veio depois uma leve ressaca, que foi crescendo devagar. Como se nos quiséssemos livrar de uma recordação má, nos dias seguintes a taça foi passando de mão em mão, até acabar no quarto de N. E ele, que continuava feliz e em paz, atacou a raiz do problema. Chamou-nos e disse: "Quem de entre vós não tem a colecção dos álbuns do Astérix?" Todos tinham, menos um. "Não te preocupes, empresto-te os meus. Queria que esta noite lessem o Astérix entre os Bretões. Amanhã voltamos a falar, está bem?". Assim fizemos. Ninguém percebeu a ideia de N., mas de manhã ele explicou-nos:


- Lembram-se de me terem dado dinheiro para as Colas? Bem, eu acabei por comprar uma bicicleta e nos últimos jogos aldrabei as tabletes. Aquilo era só açúcar. Açúcar castanho. Comido gelado nem se percebia a diferença.


- Tu compraste uma bicicleta com o nosso dinheiro?


- Sim, e peço-vos desculpa por isso. Mas não estão a perceber? Não leram o livro? O açúcar dos últimos jogos foi como o chá que o druida deu aos Bretões na falta de poção mágica. A malta não precisou daquilo para vencer os últimos jogos. Ganhámos com mérito. Sem dopping!

 

As sensações ambivalentes provocam alguma azia e uma geral sensação de mal estar: queríamos esmurrar N. e abraçá-lo também. A taça voltou a ser um objecto cobiçado. Ninguém chegaria a ver a bicicleta nova de N., mas ou não nos lembrámos mais disso ou não houve coragem para colocar a pergunta. Panoramix é hoje o homem mais bem-sucedido entre todos os que moravam naquele prédio e entretanto cresceram.

 

Da série A Bola no Olival, 100 textos curtos sobre a infância antes da puberdade no bairro Olivais Sul (Lisboa) no final dos anos 70, princípio dos anos 80. Os textos apareceram pela primeira vez no extinto A Memória Inventada e estou a republicá-los no Ouriq com pequenas emendas e acrescentos. 

20
Jun19

Prioridade ao soundbyte


Eremita

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Nos EUA, Ocasio-Cortez anda a ser grelhada por ter usado a expressão "never again" (uma referência explícita ao holocausto) depois de ter dito que havia campos de concentração dos EUA. Por cá, João Miguel Tavares é aplaudido por achar que "banalidade do legal" era uma coisa tão bem esgalhada que não se podia desperdiçar. Para deleite da populaça, afinfou uma ad hitlerum em Constâncio, que partilhará uma costela de burocrata como o nazi Otto Adolf Eichmann. Na mesma crónica, o nosso jornalista que não faz política teve ainda espaço para desprezar o Estado de Direito. Os discursos do 10 de Junho deixaram o homem on fire e eu estou quase a mudar-me para o Aspirina B

20
Jun19

DVP quiz


Eremita

Sem deixar de ter presente que, ao contrário do que se diz, as perguntas podem revelar ignorância e até estupidez, arrisco: há um alvo concreto?

20
Jun19

Justificação do cúmulo da vaidade


Eremita

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Sabemos que só uma dose de vaidade acima da média ajuda a manter um blog muitos anos, mas poucos serão aqueles que perdem tempo com uma edição sistemática de todos os posts passados. Este cúmulo da vaidade viola inclusive uma das regras do código de conduta não escrito da blogosfera, a saber: não modificarás o que escreveste, mais pelo respeito devido a quem connosco se envolveu numa discussão do que por receio de perturbar a organização do espaço-tempo. Em minha defesa, adianto que a motivação inicial foi inocente, pois queria apenas ilustrar todos os posts com uma fotografia, para que as referências a posts antigos que agora aparecem junto de cada post ficassem mais bonitas, isto é, sempre com imagens. Mas ao mexer nos posts antigos a tentação da revisão é inevitável e, além de corrigir gralhas, introduzirei certamente mudanças consideráveis nos textos, sobretudo nas séries, bem como novos links

 

Trabalhar sobre posts passados abre a possibilidade de linkar posts mais recentes entretanto escritos e imaginar o blog como uma rede em que cada post é um nodo ligado a qualquer outro nodo. O número de palavras de um post impede a realização de uma rede completa em que cada nodo está ligado directamente a todos os outros, o que — de resto — seria um trabalho hercúleo, pois os actuais 2 571 posts do Ouriq implicariam 3 303 735 links. Mas reforçar a conectividade dos posts e tentar uma rede em que a partir de um texto seja possível chegar a qualquer um dos outros (ainda que não por link directo) tem o apelo irresistível dos projectos inúteis. Ninguém vai reparar, mas um dia o Ouriq deixará de ser um blog alongado segundo a seta do tempo e tenderá para a esfericidade, assim se cumprindo a nossa quixotesca luta contra a tirania da actualidade. 

 

19
Jun19

Escreva sobre Miguel Duarte, senhor embaixador


Eremita

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Há poucas coisas mais irritantes do que receber instruções de um desconhecido petulante sobre os assuntos que devemos abordar, nomeadamente quando se pressente algum ascendente moral, mas irritar faz parte da vida. Ora, sendo difícil imaginar um incidente com maior potencial para se tornar num problema diplomático do que a acusação da justiça italiana a Miguel Duarte, o nosso embaixador, que vai a todas e está em todo o lado, ainda não encontrou vagar para se debruçar sobre o caso. Marcelo já se pronunciou e esteve bem, mas a chamada vaga de fundo tarda e toda a ajuda conta.

19
Jun19

O silvo da gadanha (22)


Eremita

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No princípio do Verão chegavam uns homens envergando as fardas tristes dos empregados da Junta de Freguesia. Vinham com longas gadanhas, que usavam para aparar a relva do nosso campo. Anos depois estes homens seriam dispensados, reciclados, relocalizados ou sumariamente despedidos por causa das segadoras mecânicas. Os meus amigos ficaram fascinados pelas máquinas, que eram vermelhas e pareciam uns karts lentos, mas eu desconfiei logo à primeira interacção, quando os vi a cortar a relva no sentido do comprimento do campo. Tanto o meu pedido para orientarem as máquinas no sentido da largura como a pergunta de saber se seria possível desenhar as barras de contrastantes tonalidades de verde dos campos oficiais — "ia ajudar no fora de jogo…"—, foram recebidas com enfado. Disseram-me para não os incomodar e que tinham ordens para poupar as máquinas e não abusar das curvas (se as orientassem no sentido da largura do rectângulo de jogo acabariam por ser obrigados a curvar mais vezes). Era gente nova e apressada, seguramente com um segundo emprego. Tive logo saudades dos segadores a força de braços, que eram homens de meia-idade e ali no nosso relvado pareciam rejuvenescer. Às vezes traziam as mulheres com eles, que colhiam a relva cortada e a punham em grandes sacos de serapilheira de plástico. Almoçavam sempre à sombra do mesmo plátano novo e comiam uma merenda preparada em casa. Impressionava-me a técnica com que cortavam a relva, os movimentos curtos, interrompidos sem cadência definida por um mais amplo, que cortava o silêncio com um silvo. A lâmina, enorme e curva como um sabre árabe, tinha já fendido inúmeras vezes a biqueira das bocas que calçavam. Um dia deixaram-me brincar com uma gadanha, sempre de olho em mim e vigiando os meus os movimentos. Mesmo assim experimentei uma irreprimível sensação de poder e no dia seguinte estava lá de novo, para brincar com eles outra vez. Creio que foi por causa daquelas tardes que depois demoraria tanto tempo a perceber a personificação da morte na forma da ceifadora de vidas. Para mim uma gadanha era, antes de mais, um brinquedo.


Brinquedos seriam também as duas das máquinas de cortar relva negligentemente abandonadas pelos técnicos durante uma pausa para umas cervejas. A oportunidade surgiu já após a minha desagradável interacção com eles e a tal justificação de evitar fazer curvas com as máquinas. O nosso plano inicial era usar as máquinas para cortar a relva no sentido da largura do campo, mas a sede de vingança acabou por tomar conta de mim e consegui convencer o meu parceiro a abusar das curvas ainda mais: "olha, pá, vamos antes começar no centro do campo e cortamos isto aos círculos concêntricos, não achas? Afinal, quando foi a última vez que alguém deixou de marcar um golo por estar fora de jogo, hã?

 

Da série A Bola no Olival, 100 textos curtos sobre a infância antes da puberdade no bairro Olivais Sul (Lisboa) no final dos anos 70, princípio dos anos 80. Os textos apareceram pela primeira vez no extinto A Memória Inventada e estou a republicá-los no Ouriq com pequenas emendas e acrescentos. 

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