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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

03
Mai19

A prostituta dos pernetas (6)


Eremita

bola velha.jpg

Três trajectórias mágicas que ninguém arquivou: os arcos em voo rasante das andorinhas, o livre directo em arco do Corso e o perfil de mar picado desenhado no ar pela oscilação vertical e com arrastamento dos peitos da prostituta, quando se passeava junto à linha lateral. As primeiras noções de geometria descritiva foram adquiridas naquele relvado. Mas em boa verdade, por maior que fosse o esplendor da Primavera e a inspiração do Corso, os erros defensivos deviam-se em exclusivo a faltas de atenção provocadas por aqueles peitos que, contrariamente ao que se diz, não desafiavam a gravidade, mas com ela brincavam. Prostituta das redondezas e a única a trabalhar a céu aberto naquelas bandas, a rapariga especializara-se em pernetas motorizados, que recebia junto a uma das linhas laterais, apenas meio protegida pelos troncos das faias. Apesar do limitado repertório de gestos técnicos da moça, o quarteto defensivo não deixava por isso de apreciar as nuances com que a clientela mergulhava a cara naquele rego profundo, que ela, ao colo deles, oferecia. Uma das consequências mais inesperadas desta rotina, que se prolongou durante vários anos, foi a progressiva e inconsciente valorização de quartetos defensivos extremamente jovens, formados por uma canalha em quem a revolução hormonal ainda não tinha ocorrido e que depressa ganhava indiferença por aquele espectáculo marginal. A libido atiraria depois muitos desses miúdos para o banco dos suplentes, na verdade um lancil de passeio num ponto que abria um ângulo perfeito entre duas faias e deixava ver quase sem ser visto. Gozava-se em silêncio, na certeza de que ao menor comentário o pano cairia. Sentíamos que aquele era o maior espectáculo do mundo e, talvez por estarmos equipados com calções e camisolas dos grandes clubes nacionais e europeus, não interpretávamos  o nosso deleite como uma traição ao desporto-rei.

02
Mai19

Cães e filhas


Eremita

Os cães mostram um entusiasmo constante e canino quando o dono chega a casa. As minhas filhas só mostram entusiasmo quando lhes apetece e ainda não percebi se obedecem a alguma fórmula complexa. 

02
Mai19

O primo da América (5)


Eremita

bola velha.jpg

E um dia chegou o primo americano, um miúdo bonito e loiro que só queria ir ao Éden ver filmes do Bruce Lee e me dava umas valentes coças sempre que brincávamos às lutas. "Give it up, man!" gritava ele, enquanto me apertava o pescoço e me mantinha com as espáduas no chão, greco-romanicamente vencido. E eu desistia, claro, fodido, mas inteiro. Fui acumulando derrotas atrás de derrotas sem um plano de vingança, até que me lembrei de o convidar para uma peladinha, coisa que fiz já à tardinha, para que ao serão pudesse desfrutar a véspera do payback day. O dia seguinte chegou. Estava uma tarde de Verão propícia para a prática do futebol, como então já se dizia. Seis contra seis, com guarda-redes, o meu primo a atacar na equipa adversária e a entrar pelo meu corredor. Babei-me de excitação. Pensei nas mil e uma formas de lhe roubar a bola, de o humilhar com umas ratas e de o magoar com uns balázios em jeito de alivianço defensivo. Duas horas depois, exausto, estava com as espaldas assentes no relvado, humanamente vencido e a olhar o céu. O cabrão do primo americano tinha sido o melhor jogador em campo. Ele não sabia jogar à bola mas corria mais, tinha mais força e a sorte dos principiantes. Marcou golos incríveis, sem nunca saber muito bem o que fazia. Digo eu. Os deslumbrados do bairro quiseram logo contratá-lo para a equipa do bairro e vieram falar comigo no final do encontro. Passara de besta a empresário. Por sorte, o primo americano regressava a Boston no final do Verão. Lembro-me de me despedir dele no aeroporto, desportivamente e justo, como sempre, falando muito depressa e baixinho, para que ele não me percebesse. O meu adeus português, textualmente "Adeus, meu cabrãozinho, não jogas um peido..." é, ainda hoje, a marca de um povo com fome de glória, complexo de inferioridade e um difuso desejo de vingança.

01
Mai19

Vasco Graça Moura


Eremita

Screen Shot 2019-05-01 at 12.58.04.png

Arquivo da RTP

O A Divina Comédia recorda Vasco Graça Moura, 5 anos passados sobre a sua morte. A produção diversificada e avassaladora de Graça Moura sempre nos fascinou. Já comentámos a sua obra e brincámos com a sua fama de grande tradutor (que foi), mas a melhor homenagem que lhe poderíamos prestar foi a sua inclusão no enredo do Ouriq e também no BW. Cito da tábua de personagens:

Vasco Graça Moura

Um dos poucos traços comuns a BW (1), o projecto ultra-secreto (2,) e o Ouriquense (3) é o fascínio por Vasco Graça Moura, o tradutor, poeta, romancista, intelectual do cavaquismo e defensor da língua e do património. A partir de 2011, o narrador fica obcecado com os métodos de trabalho do prolífico autor e pretende saber se ele fez efectivamente todos aqueles versos decassílabos ou se tem uma equipa que trabalha na obscuridade. 

 

(1)  BW é um projecto de romance. Uma das personagens, uma criança praticamente sobredotada, tem um estranho tropismo por Vasco Graça Moura, correndo entre os 3 e os 5 anos para a televisão sempre que o intelectual aparecia para ficar depois colada ao monitor, cheek to cheek com o Vasco e ronronando. 

(2) Francamente, não sabemos o que este projecto ultra-secreto seria...

(3) "Ouriquense" era o antigo nome do Ouriq.

 

01
Mai19

A cadeira eléctrica


Eremita

Screen Shot 2019-05-01 at 16.29.53.png

Fonte

[Publicado a 6.6.2013; republicado a 1.5.2019]

Ninguém se opôs à compra da cadeira eléctrica, embora só o vizinho do 1º esquerdo contasse utilizá-la no imediato, por causa do cancro galopante. "Tivemos uma vida boa" foi o que a sua mulher me passou a dizer quando nos cruzávamos nas escadas. Outros vizinhos do bairro optaram pela mesma solução, mesmo aqueles que ninguém diria que tinham tido uma vida boa. Pedimos dois orçamentos e a diferença de preços foi tal que não houve hesitações. Uma cadeira eléctrica era solução que jamais me havia passado pela cabeça, mas eu vivia entre septuagenários e octogenários que me tratavam como "o menino" do prédio, apesar dos meus quarenta anos. Ainda assim, a solidariedade entre condóminos surpreendeu-me, porque cada um teve de pagar 2000 € e o prédio era de gente modesta. Talvez não valha mesmo a pena viver sem um mínimo de qualidade; o vizinho do 1º esquerdo seria o primeiro a subir à cadeira e os outros iriam a seguir, era só uma questão de tempo. É claro que me lembrei de outras alternativas e que ainda hoje penso se não teria sido melhor optarmos por uma solução mais convencional, mas evito sempre ir às reuniões e limito-me a assinar o livro de actas sem ler o que foi escrito, reparo apenas na beleza da caligrafia e ponho-me a imaginar a qual das vizinhas pertencerá aquela letra tão bem desenhada. Enfim, a cadeira eléctrica não incomodaria ninguém, desde que cada um a ela subisse de livre vontade. E quem sou eu para os criticar? Não imagino a cabeça de um octogenário. É possível que não queira desperdiçar tempo e a cadeira resolveria esse problema.

 

No dia em que a instalaram, fiquei mais descansado. A cadeira vinha com um sistema de segurança bem pensado, que tornava quase impossível a morte acidental: quem quisesse utilizá-la teria de rodar uma chave e carregar depois numa tecla, já sentado. Era ainda preciso manter a tecla pressionada para que a cadeira continuasse a trabalhar, o que servia para dissuadir quem, por capricho e impulso, quisesse brincar aos octogenários cansados. Era uma cadeira para gente com força de vontade. Mas quando os homens que a instalaram fizeram uma sessão de demonstração, muito profissional e sem uma única piada mórbida, ninguém se quis sentar na presença dos outros. Então ocorreu-me que aquele investimento teria sido um desperdício, pois as pessoas iriam continuar a viver conformadas e a cadeira ali ficaria, a um canto, com as luzinhas acesas em vão. Na noite em que  a vizinha do 1º esquerdo apareceu para me dar o número da sua conta bancária, abri-lhe a porta com vontade de desabafar sobre o destino da cadeira. Mas então reparei que, pela primeira vez, a cadeira estava no meu patamar e que a vizinha se apressou a sentar-se de novo, com entusiasmo de criança. Ainda se riu quando lhe desejei boa viagem, estava a cadeira a iniciar a descida do primeiro lance de escadas. É uma boa cadeira, muito silenciosa nos planos inclinados e graciosa nas curvas. 

01
Mai19

Trabalhos de casa


Eremita

evolution.jpg

(pub) fonte

Agora o Ouriq tem sugestões para posts antigos. Não sei se alguém os abre, mas a mudança vai obrigar-me a revisitar e editar textos antigos, o que também passa por acrescentar uma imagem aos posts que apenas têm texto, só mesmo para o blog ficar mais bonito. Enfim, uma trabalheira que nenhuma análise custo-benefício justificaria, mas enquanto formos vivendo assim a inteligência attificial não nos apanhará tão cedo. 

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