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OURIQ

Um diário trasladado

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Um diário trasladado

20
Mar19

Peter Singer e Moçambique


Eremita

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fonte

It makes no difference whether the person I can help is a neighbor's child ten yards away from me or a Bengali whose name I shall never know, ten thousand miles away. ... The moral point of view requires us to look beyond the interests of our own society. Previously ..., this may hardly have been feasible, but it is quite feasible now. From the moral point of view, the prevention of the starvation of millions of people outside our society must be considered at least as pressing as the upholding of property norms within our society. Peter Singer

Um dia terei de ler tudo o que Peter Singer escreveu para tentar perceber por que motivo discordo tanto  —  e de um modo quase visceral  —   das suas posições sobre a dieta, o "altruísmo efizaz", o aborto e o utilitarismo em termos gerais. Entretanto, fiz um donativo para as vítimas moçambicanas do ciclone e não sinto qualquer problema de consciência em não ter procurado saber se há vítimas nos países vizinhos. Como se explica isto? Talvez entendendo o altruísmo como uma manifestação de empatia que não pode ser absolutamente racional para que evitemos a analysis paralysis. O número da conta está neste artigo.

19
Mar19

Dia do pai


Eremita

Uma infância feliz e o apoio incondicional do meu pai ao longo que quase cinco décadas fazem-me corar quando oiço as recorrentes histórias de tirania paterna. Só não me invade um sentimento de culpa por saber que o ressentimento tende a ser mais divulgado do que a gratidão. Este modesto contributo não corrigirá esse viés intemporal, mas publique-se.

19
Mar19

Dia do palhaço


Eremita

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Muito se perora. Não sou excepção e reconheço em mim um interesse particular pelas questões de género. Que diferença essencial existe entre o pai e a mãe na nossa casa? As nossas miúdas sabem. Elas cedo perceberam que a minha especialidade distintiva é a palhaçada, das brincadeiras físicas às intermináveis trocas de acusações sobre quem, afinal, é "patareco". Também as disciplino, claro que sim. Mas passados três anos,  é a palhaçada que me define. 

17
Mar19

Houllebecq e as birthstrikers


Eremita

Screen Shot 2019-03-17 at 11.34.21.png

"Sa mère avait regretté ce mari volage mais munificent, et qui d’ailleurs lui laissait pas mal de liberté de son côté, mais surtout elle n’avait pas supporté l’idée de se retrouver seule avec sa fille, son mari était certes un queutard mais également un père assez tendre, qui prenait une grande part dans les soins de l’enfant, et elle ne se sentait aucune fibre maternelle, absolument aucune, et avec les enfants dans le cas de la mère c’est tout un, soit on se dévoue totalement à eux, on oublie son propre bonheur pour se consacrer au leur, soit c’est l’inverse qui se produit, et ils ne sont plus qu’une présence immédiatement gênante et rapidement hostile. Sérotonine, de Michel Houellebecq
Houellebecq tem algo de idiot savant, isto é, a sua prosa oscila entre um admirável conhecimento profundo e sincero da solidão e uma embaraçosa ignorância quanto às relações humanas. Veja-se a afirmação categórica e absolutista sobre a maternidade, que só se explica por uma experiência de filho mal amado que não seria depois amenizada pela paternidade (Houllebecq não tem filhos). Aliás, cada vez mais a mulher é capaz de se realizar como mãe e profissional, o que reforça o anacronismo.
 
Um dos raros exemplos que, pelo radicalismo aparenta dar razão a Houllebecq, é o das BirthStrikers,  as mulheres (e alguns homens) que abdicam da procriação em protesto contra o “climate breakdown and civilisation collapse”. Mas estas mulheres não são sequer mães e, não só suspeito que estejam a usar as alterações climáticas para sublimar outros (legítimos) receios,  como aposto que em alguns anos muitas mudarão de ideias, independentemente do estado do planeta. Houllebecq ficou refém do seu passado; elas são reféns de um futuro que nem sequer lhes pertence. Prefiro de longe Lisístrata, a personagem de uma peça grega de Aristófanes que iniciou uma greve sexual entre as mulheres para acabar com a Guerra do Peloponeso. 
 
 
 
 
12
Mar19

Greves de fome à portuguesa


Eremita

"I have hope, indeed. All men must have hope and never lose heart. But my hope lies in the ultimate victory for my poor people. Is there any hope greater than that?

Bobby was slightly embarrassed to admit that he was paying a bit more attention to religion. I’m saying prayers – crawler! (and a last minute one, some would say). But I believe in God, and I’ll be presumptuous and say he and I are getting on well this weather. I can ignore the presence of food staring me straight in the face all the time. But I have this desire for brown wholemeal bread, butter, Dutch cheese and honey. Ha! It is not damaging me, because, I think, “Well, human food can never keep a man alive forever,” and I console myself with the fact that I’ll get a great feed up above (if I’m worthy). But then I’m struck by this awful thought that they don’t eat food up there. But if there’s something better than brown wholemeal bread, cheese and honey, etcetera, then it can’t be bad.

Bobby Sands died on the 66th day of hunger strike. Nine of his comrades followed him to their deaths. Francis Hughes, Ray McCreesh, Patsy O’Hara, Joe McDonnell, Martin Hurson, Kevin Lynch, Kieran Doherty, Tom McElwee, “Red Mickey” Devine. Just under a month before his death Sands was elected to the British parliament." Fonte

Parece que depois da greve de fome de um enfermeiro roliço abortada ao segundo dia, é agora um elemento da PSP que resolve iniciar o mesmo tipo de protesto. Não conheço os percursos profissionais de cada uma destas figuras, mas suspeito estarmos perante um dos vários efeitos perversos que as carreiras no sindicalismo geram. Para minorar o embaraço colectivo, espero que a moda não pegue. Não assistimos à costumeira farsa depois da tragédia, é mesmo um caso imoral que o ridículo não chega a tornar cómico. Recorrer à greve da fome para resolver questiúnculas salariais é uma ofensa à memória de todos aqueles que morreram de fome por grandes causas. 

 

07
Mar19

Orientação política e imprensa: "mau trabalho"


Eremita

Faz todo o sentido chamar atenção para as contas de merceeiro que o Expresso fez sobre a representação dos partidos nos media. O formidável Valupi excitou-se tanto que descreve o trabalho como o "mais interessante artigo publicado num jornal desde o começo do milénio". É díficil estimar as partes de ironia e hipérbole nesta apreciação de Valupi, pois no post imediatamente anterior ele diz que não há imprensa em Portugal. Já o entusiasmo de Valupi é muito fácil de explicar: a contagem dos políticos com púlpito mediático permite-lhe concluir que estamos perante um ataque continuado e estrutural ao PS. Enfim, a peça é importante porque desmente a ideia, alimentada durante décadas pela direita, de que a esquerda domina os media. Eu bem desconfiava, mas este assunto é demasiado importante para ser tratado por jornalistas sem cultura estatística e matemática. Qualquer análise minimamente séria e sustantiva tem de incluir políticos, sim, mas também  jornalistas e colunistas com orientação política clara. Terá depois de estimar a influência de cada uma destas figuras recorrendo a métricas (share, tiragem, likes, partilhas e comentários, só para mencionar o óbvio) e à evolução destas ao longo do tempo. Não se faz em duas horas, o tempo que a jornalista do Expresso deve ter perdido a juntar os seus dados, mas também não seriam precisos 2 meses. 

05
Mar19

Moby-Dick e outras pilas


Eremita

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Como expliquei em tempos, Ricardo Araújo Pereira (RAP) complica-me a vida. A Lia adora-o e ri mais com as piadas dele do que com as minhas. Chamem-me primário, mas perturba-me que outros homens sejam mais capazes do que eu de provocar reacções físicas na minha mulher. A quantidade de piadas falhadas que acumulo nesta casa deu-me inclusive uma ideia catita sobre um homem frustrado por ter a ambição mas lhe faltar o talento para o humor. Creio que é um ângulo ainda pouco explorado e - com a minha megalomania típica para títulos - chamei a este  conto "O artista do riso". Mas disperso-me. Gostaria apenas de frisar que as obsessões não são um problema. A obsessão pode ser uma força criativa poderosa e, quando tudo falha à nossa volta, é à obsessão que vamos buscar a força para atravessar o deserto. Em registo life coaching, afirmo que o problema não é termos uma obsessão, mas esquecermos que ela existe. Melville escreveu sobre isto de forma muito capaz, eu serei apenas mais sintético. Por saber que invejo RAP (mais talentoso para o humor do que eu, mais alto, mais bem sucedido e bem pago, etc.), censuro o impulso de o criticar, embora sonhe com o dia em que alguém escreverá sobre o seu trabalho um texto demolidor. De resto, ando há anos a preparar esse texto. Já li muito sobre teoria do humor, da filosofia pré-Bergson às referências pós-Victor Raskin, e se me perguntarem qual é a minha principal motivação, seria desonesto não glosar a personagem de Bill Murray em The Life Aquatic, respondendo simplesmente: "vingança". Daí a minha atenção às pouquíssimas críticas de que a nossa unanimidade nacional é alvo. "O Sr. Araújo e as suas merdas" despertou-me naturalmente a curiosidade e até as glândulas salivares. Infelizmente, descubro que quem o escreveu tem uma obsessão ainda mais primária do que a minha. Afinal, criticar o RAP por ciúme é menos ridículo do que fazê-lo para vingar Sócrates.

 

03
Mar19

Neto de Moura e os limites da compaixão


Eremita

Eu sinto-me humilhada, vexada pelo senhor e a sua repugnante ideia de “sociedade”, mulheres e adultério. Acho que o senhor não me respeita e ofende todas as mulheres deste país. O adultério não é crime, a não ser na sua cabeça que me abstenho de qualificar ainda mais. A questão é que o senhor é juiz e põe em causa a segurança das pessoas, desde que sejam mulheres. Isso ofende-me. A ideia de lhe dar um soco na cara até me pode passar, assim de repente, pela cabeça, mas não o farei. No meu quadro moral e seguindo os preceitos da lei e Constituição, acho que a violência física não é de todo desculpável – nem contra um juiz que a desculpa. Ana Sá Lopes, Público

Tenho um lado contrarian, provavelmente mais um sinal de vaidade do que de nobreza de carácter, que me leva a estar do lado daqueles que todos atacam. Não serei original, sendo de grau as diferenças entre as pessoas quanto a este impulso. A partir de que volume de humilhação pública abdicamos da crítica que, se não fosse feita por tantos, também seria a nossa, e passamos para o lado de quem é criticado? É um limite muito difícil de estimar, mas, no meu caso, talvez esta revelação ajude: sinto hoje por Sócrates alguma compaixão. Naturalmente, este limite resulta de algum algoritmo moral que põe em equação a intensidade da humilhação pública e a gravidade da falha de quem é criticado, inevitavelmente ponderadas pela nossa experiência pessoal e os nossos interesses. Daí a importância de Neto de Moura. Não me recordo de ver alguém ser tão criticado pelo exercício das suas funções. A humilhação pública deste juiz tem sido absolutamente avassaladora. Mas ainda assim, não sinto compaixão pelo homem. Se não me juntei ao coro de críticos de Neto de Moura foi por ele me ter feito peceber que, em certas alturas, é melhor ser um mero amplificador de vozes com autoridade moral ou importância superiores. Pela primeira vez, cedo a palavra para que a palavra de outros, como a da Ana, ecoe melhor e doa ainda mais. 

03
Mar19

José Mário Silva e a deontologia


Eremita

No Expresso, li ontem uma crítica muito elogiosa de José Mário Silva ao mais recente livro de contos de Alexandre Andrade. O Alexandre (que eu conheço), é um autor de culto, como romancista, contista e até blogger (é dele o mítico Bsk). Tem uma prosa sublime, frequentemente irrepreensível, percebendo-se ao fim de poucas linhas que estamos perante um autor de um universo próprio que combina uma erudição de largo espectro com a preciosidade que é o humor fora de moda mas intemporal. Lê-lo é sempre um enorme prazer, que nos enche de uma alegria temperada por uma quantidade homeopática de envidia sana, porque ele é melhor do que nós como escritor e, muito provavelmente, como pessoa. Não me choca por isso que José Mário Silva (que também conheço) tenha escrito a crítica literária mais elogiosa a aparecer na imprensa pelo menos desde a última recensão a um livro de Lobo Antunes assinada por alguma mulher em estado de êxtase. A minha única questão, sem querer passar por João Pedro George requentado, é esta: por que motivo o José não deixa explícito na sua crítica que é amigo de longa data do Alexandre? Eis uma omissão que me encanita. 

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