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OURIQ

Um diário trasladado

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Um diário trasladado

27
Fev19

Mariana Vieira da Silva e a ética republicana


Eremita

Luís Aguiar-Conraria escreveu o óbvio sobre o caso de nepotismo por interposta pessoa que foi a promoção de Mariana Vieira da Silva (MVS), mas é um artigo que ganhou pertinência com o silêncio de socialistas como Seixas da Costa e Eduardo Pitta, a propaganda insuportável do blog dos amigos do PS e, sobretudo, as manifestações de amiguismo (e, em alguns casos, sectarismo) de tantos profissionais da opinião. Pedro Mexia, Ricardo Araújo Pereira, Daniel Oliveira e - não o ouvi mas quase aposto - Pedro Adão e Silva , que conhecem MVS, juram que ela é competente e assim resolvem o assunto. Mas o assunto não fica resolvido, antes pelo contrário. A alegada competência de MVS apenas torna o caso mais complexo e interessante. Primeiro, porque nos leva a perguntar se MVS tem um extra de competência relativamente a outro candidato para o lugar que compensa a amolgadela na ética republicana que  a sua promoção provocou - é uma pergunta retórica, acrescento. Segundo, porque a competência torna MVS mais imputável. A questão é: por que motivo MVS não recusou a promoção, tendo em conta que devia ter presente a possibilidade de conflitos de interesse futuros, o desconforto que a sua promoção iria provocar e  a sua associação futura a escolhas "nepotistas"? É a única pergunta que gostaria de ver respondida, mas que nenhum jornalista provavelmente lhe fará.

 

A propósito, recomendo The class pay gap - why it pays to be privileged. Os ingleses estão uns anos à nossa frente na reflexão sobre o privilégio de classe, embora me pareça que o esvaziamento da noção de mérito pessoal que se vai lendo e ouvindo nos meios anglo-saxónicos seja um beco sem saída. 

 

Declaração de interesses: também eu conheço MVS e tenho dela boa impressão. 

 

 

 

22
Fev19

Amar noutra língua


Eremita

Hi – I'm reading "Sérotonine (LITTERATURE FRA) (French Edition)" by Michel Houellebecq and wanted to share this quote with you.

Je connus donc charnellement des jeunes filles de différents pays, et j’acquis la conviction que l’amour ne peut se développer que sur la base d’une certaine différence, que le semblable ne tombe jamais amoureux du semblable, même si en pratique de nombreuses différences peuvent faire l’affaire : une extrême différence d’âge, on le sait, peut donner lieu à des passions d’une violence inouïe ; la différence raciale conserve son efficacité ; et même la simple différence nationale et linguistique n’est pas à dédaigner. Il est mauvais que des aimés parlent la même langue, il est mauvais qu’ils puissent réellement se comprendre, qu’ils puissent échanger par des mots, car la parole n’a pas pour vocation de créer l’amour, mais la division et la haine, la parole sépare à mesure qu’elle se produit, alors qu’un informe babillage amoureux, semi-linguistique, parler à sa femme ou à son homme comme l’on parlerait à son chien, crée les conditions d’un amour inconditionnel et durable. Si encore l’on pouvait se limiter à des sujets immédiats et concrets – où sont les clefs du garage ? À quelle heure va passer l’électricien ? – ça pourrait encore aller, mais au-delà commence le règne de la désunion, du désamour et du divorce. 

A minha experiência é diametralmente oposta. Aliás, defendo que não se pode amar em estrangeiro e que a verdadeira forma de aumentar o leque de oportunidades não é a bissexualidade, antes o bilinguismo. Amar em estrageiro é algo que se tolera no Verão, mas que se torna absurdo mal o dia começa a diminuir de tamanho. Há uns dias, aqui em Ourique, ouvi uma mulher a falar ao telefone em inglês funcional, aquele dialecto globalizado, simples na gramática, pobre no vocabulário, vazio de cultura, que hoje todos falamos. Incapaz de transmitir subtileza, humor ou retórica,  é uma língua insuficiente para amar. Naturalmente, a mulher falava com o ex-marido. 

20
Fev19

Big little lies


Eremita

 

Uma pequena grande mentira que persiste é a ideia de que as manifestações de género devem ser simétricas, caso contrário estamos perante uma injustiça. Na sua forma mais primária, para contrabalançar o male gaze que objectifica a mulher deveria haver um woman gaze que também transformaria os homens em objectos sexuais. É muito provável que a frequência de torsos masculinos nus na publicidade esteja a aumentar, mas não há grande evidência de que algum dia teremos um woman gaze equivalente ao masculino. Apesar de ouvir podcasts femininos e feministas com regularidade, encontro as conversas mais animadas e naturais sobre corpos de homens no podcast de Joe Rogan quando homens heterossexuais em tertúlia comentam os lutadores de MMA. Porém, é evidente que as mulheres têm um olhar próprio e que o seu acesso aos meios de produção o tem tornado cada vez mais conspícuo. Segundo essa forma de ver o mundo, os homens são umas bestas violentas. A simetria é, assim, imperfeita, no verbo e no complemento: o homem deseja a mulher sexualmente apelativa e saturou a cultura com essa figura; a mulher teme o parceiro violento, que começa a ser cada vez mais recorrente na ficção. O último exemplo é a série Big little lies, adaptada de um romance escrito por uma mulher, produzido por uma mulher e que tem três mulheres como protagonistas. Uma é casada com um tipo que tem com ela make up sex  precedido de violência doméstica e outra é mãe solteira em resultado de uma violação. O homem da terceira mulher é a excepção, um companheiro sensato e leal que irradia a libido de um ursinho de pelúcia. Dois milhões de anos depois de termos deixado a savana, a produção cultural para massas mais sofisticada do planeta não se libertou da diferença entre os sexos quanto à força física e predisposição para a agressividade. Nunca se libertará, mas é particulamente instrutivo ver essa diferença a ser retratada por mulheres. Habituemo-nos.  

 

06
Fev19

Esperança Imobiliária


Eremita

Anunciei uma nova série para 2019. Em rigor, a série deveria chamar-se "Frustração imobiliária" e não "Esperança Imobiliária", mas seria um  título demasiado colado ao livro Especulação Imobiliária, de Italo Calvino. 

 

A ideia era relatar as peripécias em torno de uma obra que - percebo agora - provavelmente jamais será feita. Mas a incapacidade também engendra a sua acção: aquele que não faz, ensina; aquele que não cria, critica; aquele que hesita, justifica-se, etc. Neste caso, a impossibilidade de construir liberta a imaginação. Posso agora trocar a Física de Newton pela dos desenhos animados, erguer uma Sagrada Família ou qualquer coisa bojuda à Oscar Niemeyer, inventar investidores manhosos e oportunidades de negócio estapafúrdias, explorar a megalomaia de Fausto Gomes.

 

Pior do que o esquerdista que se tornou conservador e passou a odiar os seus antigos companheiros, só mesmo o realista comedido que deixou de sonhar e se vinga censurando os sonhos dos outros. Esta série é um manifesto contra os moribundos da sensatez. 

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