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OURIQ

Um diário trasladado

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31
Jan19

O lusotropicalismo


Eremita

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[Efeitos retroactivos]

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Como em Portugal a crítica que se faz ao SOS Racismo é exactamente igual às que se ouvem nos EUA e na França a propósito de organizações semelhantes, o lusotropicalismo só pode ser uma treta. 
30
Jan19

Mamadou Ba no Perguntar não Ofende


Eremita

"Perguntar não ofende" é uma expressão sensaborona mas que foi o nome de um magnífico blog e é hoje o nome do podcast do Daniel Oliveira, o primeiro jornalista português famoso a ter percebido o potencial deste formato, que obviamente não se esgota nas tertúlias mal amanhadas entre a malta das redacções. O último episódio é uma oportuníssima entrevista a Mamadou Ba

30
Jan19

Pacheco Pereira, embrulha...


Eremita

Toda a minha vida ouvi esquerdistas de cátedra ou de casta explicarem aos filhos de proletários como eu* de que forma devíamos ou não devíamos ser de esquerda. Agora ouço-os explicarem aos negros como é que eles devem ou não ser anti-racistas. Há uns anos ouvi-os explicar aos homossexuais que deveriam adiar as suas lutas “particularistas” em favor das lutas das “massas”. Agora pedem aos negros que não cedam ao “politicamente correto” e que esperem pelo fim do capitalismo que acabará magicamente com o preconceito — ou que neguem a realidade que sentem na pele, apenas porque um barbudo do século XIX terá explicado que aquilo que eles sentem é uma coisa diferente.

Tal como o cardeal explica que o que está na Bíblia não significa o que lá está escrito, ou o psicanalista freudiano que tudo explica pela relação com a mãe, também o pontificador do marxismo julga deter o monopólio da interpretação correta do marxismo e vive na obsessão de tudo reduzir a uma explicação de classe. O que não cabe, caricatura-se como “esquerda identitária” ou “politicamente correta”.

Uma proposta singela: e se em vez disso lhe chamássemos antes “esquerda que vê uma desigualdade injusta baseada em características de nascimento que não escolhemos e não podemos controlar, e por isso a quer combater, erradicar ou corrigir”? Concordo, é muito longo. Para encurtar, podíamos tentar só “esquerda”. Rui Tavares, Público

* Esfregar na cara dos outros as nossas origens humildes, algo que Henrique Raposo leva a um cúmulo patético, está cada vez mais na moda e é apenas mais uma manifestação da febre identitária. No meu caso, sempre me senti dividido, pois não sei se, em função das conveniências, é ético lembrar apenas o lado humilde da minha família (os meus avós paternos) ou o lado de "casta" (os meus avós maternos). Eis um caso de mestiçagem social que tem sido pouco discutido.

 
27
Jan19

9


Eremita

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fonte

Nona entrada de Canhotismo: a Coligação das Minorias ou simplesmente A Coligação das Minorias... ou A Educação de um Revolucionário... ou Julião: um Percurso Político... ou outro título qualquer. A nona entrada é primeira revelação dos manuscritos de Julião censurados pelo próprio. Julião escrevia o seu pensamento político à mão, usando uma caneta de tinta permanente que estava na família há duas gerações e, obviamente, tinha um aparo destro. A desadequação da caneta tornava a escrita penosa e não melhorava a caligrafia, mas era uma forma de Julião se motivar para a luta política. Curiosamente, Julião escrevia as suas cartas de amor ao computador, em Times New Roman, 12-point, por vezes pondo todo o texto em itálico, porque acreditava na grafologia e não gostava de se expor em demasia. Das várias bengalas que caracterizam o estilo de Julião, muito parco no uso de vírgulas, destacamos os termos e expressões da literatura científica e o "Companheiros" com que inicia muitos parágrafos, mesmo que nenhum destes textos tenha alguma vez sido proferido em público, pois Julião falou sempre de improviso. 

 

A nossa luta   [data ilegível por causa de uma mancha de manteiga]

 

Companheiros, os reaccionários liberais querem assustar-nos quando nos dizem que, levada às últimas consequências, a interseccionalidade tende assimptoticamente para o liberalismo. Nós estaríamos numa etapa primitiva do caminho que eles já percorreram. Mas os liberais apenas inadvertidamente nos lembram que a nossa luta, a nossa arte, é encontrar a justa medida, saber travar a dinâmica da interseccionalidade no momento certo, muito antes da atomização da sociedade no indivíduo e da promoção do livre arbítrio ilusório em que eles marinam - o livre arbítrio terá de ser uma ilusão circunscrita ao Direito, não pode continuar a contaminar a política. Mas retomo: que momento é esse? Que ninguém se engane: o momento em que o canhotismo estiver ao nível da cor da pele, do género, da orientação sexual e da confissão religiosa. Não está; veja-se como nos ignora o intelectual público. O cúmulo da interseccionalidade não pode ser @ transexual homossexual negr@ que se ajoelha diante da estatueta de uma qualquer divindade exótica. O cúmulo, a figura caricatural de sketch humorístico terá de ser @ transexual homossexual negr@ que se ajoelha com o joelho esquerdo. Só o canhoto ainda traz no corpo a tensão virgem da revolta. Não é o negro que já se rebeliou. Não é a mulher que foi perdendo força vital a cada  vaga feminista. Não é o homossexual que tão depressa conquistou direitos sociais nas sociedades ocidentais. Não é sequer o transexual, que começa a ganhar protagonismo na luta pelos seus direitos. Somos nós, companheiros, nós os canhotos, a minoria que transitou de uma opressão milenar para a invisibilidade sem um pedido de desculpas ou recompensas, sem dúvida devidos dado o sofrimento da nossa gente, mas que nos anulariam. Nós somos a minoria silenciosa e, por isso, o único núcleo capaz de unir todas as minorias. Quem julgar ridículas as nossas pretensões só nos dará mais força, pois o consenso que se criou foi forjado para nos manter dominados ao nível da consciência, onde estão as grades mais grossas. Menos Marx e mais Gramsci, companheiros. Nós somos antes de tudo revolucionários da ideologia.

 

Companheiros, seria um erro exigir desculpas, seria um erro lutar pelo nosso direito ao reconhecimento. Nós não queremos reconhecimento, queremos o poder. As outras minorias falharam duplamente. Falharam primeiro quando não exibiram a magnanimidade do oprimido, não a coisa cristã de dar a outra face, antes o instinto da união, a capacidade de ver além da condição de cada um. O canhoto não pode lutar em nome dos canhotos, ele tem de se transcender e lutar por todas as minorias. Os outros falharam depois ao deixar que as suas parcas conquistas os neutralizassem. O canhoto nunca esgotará a sua força, por maior que seja o seu sucesso. O canhoto nunca renegará a sua condição em troca da integração na sociedade. O canhoto nunca se vitimizará, pois a sua condição de vítima é um recurso esgotável. Por não ser absolutamente genética, como a cor da pele, nunca a condição biológica fará de nós uma linhagem marginalizável e exposta aos ciclos de perpetuação de pobreza e ao estigma. Por ser congénita e imutável, nunca o canhoto cederá à tentação da hegemonia demográfica, ao impulso expansionista, à propaganda. O canhoto emerge quando menos se espera em qualquer família, seja qual for a condição social e a interseccionalidade. Por isso, somos naturalmente feitos para liderar num tempo em que não há regime alternativo à democracia liberal e o populismo cresce como ameaça. Nós somos  a personificação do antídoto populista. Nós somos - perdoem-me a provocação -  o verdadeiro povo eleito, filhos de um acaso legitimador com regras invioláveis, que estabelece um paralelo óbvio com os sorteios tão essenciais à Democracia Ateniense. Nós não somos apenas a minoria silenciosa, fomos até agora a minoria abstracta, sem cultura e sem identidade, mas vítimas de estigmatização. É esta a quadratura do círculo que nos legitima. Não caiamos no erro identitário, companheiros. Que nenhum de nós exija uma História e uma cultura. Sabemos que existiu, mas a nossa identidade terá sempre a força da disssuasão, não é para ser usada, sob pena de perdermos para sempre a nossa autoridade moral. Temos de saber recusar a narrativa identitária e vitimizadora,  temos de recusar publicamente a identidade canhota, pois trocamos a identidade pela liderança. O canhoto que lembrar canhotos célebres é um canhoto idiota. Não seremos apenas mais uma minoria nesta longa cadeia das conquistas sociais, seremos o cimento que federará todas as minorias. 

25
Jan19

Um abraço solidário aos portalegrenses


Dr. Fausto Gomes

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Conterrâneos do Alentejo e companheiros de Ourique na diáspora, 

Como muitos, também investi algum tempo a encontrar portalegrenses ilustres desde que se soube que o jornalista João Miguel Tavares (JMT) será o comissário das celebrações em Portalegre no próximo Dia de Portugal. A condição de alentejano impede-me de desprezar JMT e os ataques permanentes do Aspirina B levam-me até a defendê-lo, porque também sou amigo de Platão, mas sou mais amigo da minha terra. Aqui nunca me apanharão a perder tempo com um senhor de Vilar de Maçada, do concelho de Alijó, que é a verdadeira causa do ódio a JMT. Enfim, olhando para a lista de comissários, onde encontramos intelectuais de grande calibre (António Alçada Baptista e João Bénard da Costa), bem como cientistas com grande projecção internacional (Elvira Fortunato e Manuel Sobrinho Simões), reconheço que a escolha de JMT, essencialmente um profissional da indignação manhoso, só tem "shock value", nada mais.

 

Não vale a pena perder tempo com grandes interpretações, nem fazer intriga sobre quem terá tido esta ideia peregrina; já se sabia que Marcelo é um brincalhão. O que esperavam de uma criatura de Celorico de Basto, um topónimo cheio de ressonâncias lúcidas, até algo circenses? Mas afinal, quem se lembra dos discursos dos comissários? Citem-me de cor uma frase... Se comento este episódio é sobretudo para deixar um abraço aos portalegrenses. O lisboeta é um bicho sem capacidade empática, ele não sabe o que sofremos no interior. Como se não bastasse o portalegrense mais famoso de sempre não ser de Portalegre (José Régio nasceu e morreu em Vila do Conde), a institucionalização de JMT como filho pródigo de uma terra que também é a do estimável arquitecto João Luís Carrilho da Graça tem de ser entendida como uma provocação capaz de federar todos os alentejanos contra mais uma humilhação de Lisboa. Ainda temos paz social, mas é uma paz podre. Chamo-me Fausto Gomes e aprovo-me. 

24
Jan19

Sérotonine


Eremita

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Comecei a ler Sérotonine, de Michel Houellebecq. Acompanho-o há muitos anos e com prazer desigual (entre outros, vibrei com Les Particules Élémentaires e SoumissionExtension du domaine de la lutte deixou-me algo indiferente e La Possibilité d'une île pareceu-me uma obra falhada). Houellebecq passou de enfant terrible a romancista oficial da França sem qualquer cedência, impondo-se pela força das suas vendas e como o único intelectual francês que é uma estrela internacional - há umas décadas haveria talvez uma dezena, o que diz muito da perda de influência cultural da França. A este estatuto ímpar junta o de profeta do futuro iminente, cimentado com a publicação de Submission; o livro relata a ascensão ao poder de um muçulmano e foi publicado no mesmo dia da chacina nas instalações do Charlie Hebdo por extremistas muçulmanos. Dizem-me agora que Sérotonine também prevê coisas, nomeadamente os  Gilets Jaunes,  mas parece-me forçado, um cherchez la prémonition viciado. O que me interessa em Houllebecq é o mesmo de sempre: o tratamento da solidão.

 

Sérotonine tem ainda um interesse extra para mim. Ando há meses a namorar a ideia de escrever sobre os antidepressivos, não um romance (haja bom senso) mas um ensaio. Deixando de lado as motivações pessoais, o problema enuncia-se assim: não encontro nas minhas leituras uma abordagem franca e frontal a este tema. A polarização parece ter cristalizado no "Plato not Prozac" versus "os antidepressivos são como a insulina". Creio que é possível fazer melhor. Os antidepressivos são medicamentos fascinantes, por serem os únicos em que uma eventual prova de que não vão além do efeito placebo deixaria muito mais felizes do que indignados todos aqueles que os tomam com proveito. De resto,  sempre que fico com dúvidas sobre gastar o meu tempo num assunto com uma bibliografia já tão vasta, basta ver algum vídeo do Will Self a perorar contra os antidepressivos para me sentir insuflado por um espírito de missão e capaz de levar esta empreitada até ao fim. Daí a curiosidade de saber que tratamento Houellebecq faz do tema. Vou nas primeiras páginas, estou sem dúvida dentro da cabeça dele, mas as peças ainda estão a ser postas no tabuleiro. A propósito,  meu livrinho também se vai chamar "Serotonina" (a ideia precede a publicação do livro de Houellebecq e a diferença de escala é tão grande que falar-se de plágio seria de uma arrogância patética e até algo alucinada), mas com um subtítulo (roubado a José Augusto França) que também é anterior ao Sérotonine: "História Física e Moral".  Temos então: "Serotonina - História Física e Moral". Um belíssimo título, se me permitem. Ao nível do título creio mesmo que o marcador acusa Houellebecq 0 : Eremita 1. Só falta mesmo escrever o resto. 

 

23
Jan19

Meritocracia histérica


Eremita

Ou o objectivo Panenka

A única vaca sagrada que parece ter o futuro assegurado é a meritocracia, não no sentido de caminharmos inexoravelmente para uma sociedade cada vez mais meritocrática, apenas na medida em que não podemos criticar a meritocracia sem que caia sobre nós a suspeita do ressabiamento. Para esta ausência de discussão também conta - na intimidade - a dificuldade em se admitir a falta de mérito e - na esfera pública - a dificuldade em se admitir que somos diferentes à nascença, seja qual for a qualidade do berço. Daí que se fale muito mais frequentemente nas vítimas da mundialização do que nas vítimas da meritocracia, apesar de estes dois grupos se equivalerem em grande parte. Porém, se ninguém nega que a democracia, inventada há mais de 2000 mil anos, pode sempre ser melhorada, não estará também a meritocracia sujeita a afinações? Naturalmente, estes pensamentos invadiram-me quando a minha carreira começava a ruir.  Mas - insisto - o contexto e a causa próxima são irrelevantes para avaliarmos a pertinência da reflexão. Até um ressabiado merece o benefício da dúvida e pode estar cheio de razão na tese geral que apresenta, independentemente de sabermos se a tese explica o seu falhanço concreto. 

 

Uma carreira começa a ruir um pouco como as casas - daí a escolha do verbo. Há uma primeira hipótese perdida (a primeira racha) que espoleta um ciclo vicioso (as infiltrações) e rapidamente a situação deixa de ter remédio. Com o abandono da carreira, tudo desaparece então a uma velocidade surpreendente, tal como a casa abandonada que, parecendo ressentir-se da falta de atenção, tende a acelerar  a sua ruína de um modo que faz um aldrabão do mais consciencioso e capaz avaliador resistência e durabilidade dos materiais. 

 

Continua

 

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