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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

21
Out18

Estamos nisto


Eremita

Entretanto, os blasfemos continuam entusiasmadíssimos com a oportunidade que Bolsonaro lhes dá para desabafarem sobre Maduro e afins. Com a possível excepção de Cristina Miranda, é gente com estudos. De tão obsceno, chega a ser fascinante. Curiosamente, o tom do Insurgente é muito mais civilizado. 

21
Out18

Do vício das entrevistas


Eremita

Screen Shot 2018-10-21 at 09.38.50.png

Público

Um outro senhor que dá sempre boas entrevistas é Vasco Pulido Valente. Há alguns paralelos com as de Lobo Antunes, mas tendem a ser mais informativas e sem aquela vaidade doentia do escritor. Aliás, a arrogância de Pulido Valente não poupa o próprio Pulido Valente e não me parece ser uma pose, pois há ali uma frustração genuína e muita lucidez no "suficiente mais" com que avalia a sua vida. 

20
Out18

Sobre uma cadela


Eremita

Screen Shot 2018-10-20 at 15.57.26.png

Estamos prestes - a horas ou até apenas alguns minutos - de receber uma cadela em casa. A minha apreensão é grande. O que se segue é um voto de vencido ou, em rigor, o motivo por que não vetei a decisão da L. de voltarmos a ter um cão em casa.  A vida doméstica não é democrática; na melhor das hipóteses, será um simulacro de democracia, como as tais democracias musculadas que estão muito na moda, embora sem presos políticos e assassínios de Estado, mas o simples facto de um casal ser constituído por duas pessoas inviabiliza uma democracia e a solução de o desempate caber aos filhos não me parece um processo civilizacional. O valor essencial à conjugalidade é a tolerância. Que não sobrem ilusões: fora da área segura de sobreposição de afinidades, a vida doméstica funciona enquanto cada elemento do casal conseguir tolerar os impulsos autocráticos do outro. Que esses impulsos sejam expressos de forma delicada, como um pedido, é uma mera convenção social com o seu q.b. de hipocrisia. Se eu me tivesse oposto à vinda do cão, ficaria uma tensão no ar. Não era um pedido que a L. me fazia, mas uma negociação tácita.

 

Não me sinto enganado. A L. tolerou vir para Ourique e tolera os meus projectos algo quixotescos de empreendedorismo agrícola. Ela quer um cão, eu quero um pomar. É um sistema de troca directa. Mas o amor ajuda. Ter duas meninas ajuda. Deixar árvores às filhas é uma consolação que acaba por atenuar a projecção de todas as arrelias associadas a eguer um pomar que passarão pela cabeça da L., do risco financeiro aos fins-de-semana perdidos. A certeza de que as nossas meninas vão adorar o cão atenua as minhas previsões pessimistas, dos excrementos no tapete aos serões em que terei de ser eu a levar o bicho à rua, e até me faz esquecer o argumento irrefutável de ser má ideia investir emocionalmente em animais que viverão menos do que nós. Que a ausência de um cágado ou de um papagaio nesta casa, os animais de estimação longevos que eu teria escolhido, seja vista como uma prova de amor. Enfim, diizem-me que a cadelinha (ver foto) se vai chamar Ofélia (também não fui consultado, Q.E.D.) e até já me vou esforçando por me afeiçoar ao nome, apesar da sua carga trágica. 

20
Out18

Mais uma entrevista a Lobo Antunes


Eremita

Sou um viciado em entrevistas a Lobo Antunes. O escritor diz sempre a mesma coisa, pelo menos há 20 anos, embora na última descreva um episódio extraordinário em que quase morreu quando era bebé, que eu desconhecia (talvez por distracção). A entrevista na imprensa escrita ao escritor é um ritual com as seguintes características: 1) o interlocutor tende a ser uma mulher mais nova (Alexandra Lucas Coelho, Isabel Lucas, Anabela Mota Ribeiro, Cristina Margato, Ana Paula Arnaut, etc.); quando são homens a entrevistá-lo, não se cria a tensão erótica anacrónico-nostálgica que parece animar Lobo Antunes. O escritor ou a entrevistadora dirão: 2) que os seus livros se escrevem sozinhos - ninguém como Lobo Antunes alimenta o mito do escritor predestinado; 3) que ele sempre soube que iria ser escritor (ver 2); 4) que tem uma memória prodigiosa; 5) que não é vaidoso, em choque com a evidência produzida durante a própria entrevista; 6) que é superiormente inteligente (o que me parece inegável); 7) que não lê os seus livros, desconsidera as crónicas e não viu o filme feito a partir das cartas que escreveu à sua mulher quando estava na guerra; 8) que o Nobel não é importante; 9) que tem grande admiração pelas pessoas simples e não é snob - um caso caricatural de snobismo invertido; 10) que George Steiner disse qualquer coisa, em regra um elogio a Lobo Antunes; 11) que era muito bonito e levava mulheres para a cama sem precisar de mexer um dedo (antes da cama, presume-se - ver 1); 12) que A Cartuxa de Parma é um milagre ou algo do género; 12) que só precisa de escrever mais 1, 2 ou 3 livros - é muito difícil antecipar o número - para a obra ficar completa  ou "redonda"; 13) que Melo Antunes tinha tomates; 14) que Cardoso Pires era um grande amigo; 15) que ninguém escreve como ele; 16) que viu homens acobardados de calças mijadas; 17) que gosta muito dos irmãos, apesar de não serem génios como ele (ver 9); 18) que chorou em algum momento (não durante a entrevista, pois é sempre um choro em diferido). A entrevista tende a vir acompanhada com fotos do escritor, em regra de pullover, fumando e com uma estante de livros em segundo plano. 

20
Out18

Electra


Vasco M. Barreto

 

Screen Shot 2018-10-20 at 10.32.23.png

A convite do jornalista António Guerreiro, escrevi para a Electra um artigo sobre o eterno debate em torno da inteligência das diferentes etnias. Não sei se está nas bancas, mas está na loja do MAAT. O turismo e o seu impacto nas cidades, um dos temas predilectos de Guerreiro, é o assunto central do terceiro número da Electra. Há ainda marxismo, estudos feministas, estudos pós-coloniais, a "epiléptica" cidade de São Paulo, uma história do beijo no espaço público urbano, uma reflexão sobre escultura, um perfil da escritora Maria Velho da Costa e um diário em fac-simile do artista plástico Pedro Cabrita Reis. Apesar de não haver palavras cruzadas, horóscopos e classificados a anunciar sexo, creio que a cultura vendida pela Fundação EDP sai bem mais em conta (9 €) do que a nossa electricidade. 

12
Out18

As mulheres que odeiam as mulheres


Eremita

Há uns dias, Helena Matos gozou com as parlamentares portuguesas que se manifestaram contra Bolsonaro. Na segunda-feira, na sua medíocre estreia na SIC como "a procuradora", Manuela Moura Guedes repetiu o número. Há razões para acreditar que para Moura Guedes havia a motivação adicional de se vingar de uma antiga colega de painel num programa televisivo para ela - e todos nós, receio - de má memória, mas ninguém duvide que também estas reacções são uma consequência do #MeToo. Um exemplo mais óbvio é a conversa forjada por Teresa Rita Lopes e Raquel Varela a propósito do caso Ronaldo, cuja causa próxima é esta crónica de Ana Sá Lopes. Rita Lopes e Varela limitam-se a replicar o pequeno terramoto que foi o texto colectivo de reacção ao #MeToo publicado por artistas e intectuais francesas. Mas sobre o #MeToo ainda é infinitamente mais gratificamente ler as mulheres do que os homens, talvez pela combinação de autoridade moral, liberdade, interesse e conhecimento que as distingue dos homens. As fracturas entre mulheres são muito curiosas e creio conseguir provar que, apesar de ser homem heterossexual e branco (tenho de me habituar a esta fórmula), não tenho o mesmo gozo perverso com que a direita comenta as fracturas da esquerda, nem me move o fascínio por aquelas figuras paradoxais que criticam ou atacam os seus , como o judeu neo-nazi do filme The Believer

 

Adenda: por coincidência, no Público surgiu uma crónica com o título deste post (não é propriamente um rasgo de originalidade, bem sei), que reitera uma série de argumentos já em circulação é precisamente o texto que não quero escrever.

 

Continua

11
Out18

A única virtude de Bolsonaro


Eremita

Até lá, Bolsonaro (tal como Trump e os outros fascistas de turno, cada um que aparece sempre considerado como pior que o anterior) é apenas um político como os outros, que defende coisas certas e erradas, sendo a classificação de certas ou erradas em cada uma dessas políticas uma coisa muito subjectiva... (...) 

O que um político diz, interessa muito pouco, o que interessa mesmo é só o que faz. Henrique Pereira dos Santos, Corta-fitas

 

Bolsonaro não é Hitler, não é Mussolini, não é sequer Franco. Em bom rigor, se quisermos ater-nos a um debate intelectual de natureza escolástica, ele não é bem a representação do fascismo. Há nele, contudo, na dimensão medíocre que a sua pobre personalidade proporciona, tudo aquilo de que a tradição fascista historicamente se alimentou. O anti-iluminismo, a exaltação sumária da unicidade nacional, a apologia da violência, o culto irracional do chefe. Bolsonaro é pouco mais do que um analfabeto ideológico com todos os perigos que isso mesmo encerra. Ele e a sua prole de jovens tontos significam hoje o maior perigo com que se depara o mundo ocidental. Francisco Assis, Público

 

Uso e abuso de uma citação de Vergílio Ferreira que muito me marcou quando li o livro Pensar: "envelhecer é a desautorização progressiva daquilo que nos entusiasmou"*. Já concordei mais com o nosso existencialista. Creio hoje que o entusiasmo é menos perecível e mais recuperável do que a capacidade de indignação. Lutar contra a indiferença que se vai apoderando de nós é muito mais urgente e mais difícil do que ir inventando experiências que nos entusiasmem. O entusiasmo recupera-se marcando um salto de pára-quedas que garanta uma embriaguez de adrenalina. E a capacidade de indignação, como se recupera? Não há programa nem receita, pois estamos dependentes das circunstâncias. Eis então o único mérito de Bolsonaro: ter criado uma circunstância perfeita para percebermos não só quem é de esquerda e de direita, mas sobretudo quem ainda se indigna com o discurso deste homem, inadmissível numa sociedade decente, e quem tem um ódio tal à ideologia de esquerda que está disposto a tolerar tudo. Não vou perder tempo com o que alguns malucos, idiotas ou propagandistas profissionais escrevem nos blogs de direita portugueses. Mas o post com que Henrique Pereira dos Santos, um homem inteligente, culto e com cultura cívica, branqueia o discurso de Bolsonaro e lhe dá o benefício da dúvida conseguiu indignar-me. Defender a ideia de que aquilo que um político diz não interessa é passar uma verdadeira certidão de óbito à política. Se suspendermos o juízo até o político estar no exercício do poder, acabam as campanhas eleitorais, acabam os debates, acabam as propostas, acaba o compromisso, acaba tudo. Independentemente do resultado da segunda volta das eleições presidenciais no Brasil, o próprio Henrique Pereira dos Santos terá muita dificuldade em continuar a intervir na sociedade mantendo-se fiel à sua ideia estapafúrdia, urdida apenas à medida da mediocridade e alarvidade de Bolsonaro. Mas é refrescante poder discordar tanto de alguém. Obrigado, Bolsonaro. Obrigado por teres conseguido dois feitos da ordem do milagre. É que não imagino mais ninguém capaz de me rejuvenescer 20 anos e levar Francisco Assis a escrever prosa realmente de esquerda. 

 

* A citação não será exactamente assim, porque entretanto perdi o livro e não tive oportunidade de a confirmar.

 

 

09
Out18

O leme


Eremita

Quando se discute a política brasileira, Trump, a emigração ou o #MeToo, só os extremistas são ouvidos. A opinião moderada passa por pífia. Mas eu diria que o moderado é, cada vez mais, o homem do leme que tenta avançar com o navio pelo meio da tempestade, apanhando de ambos os lados. É preciso uma certa vocação, até algum solipsismo, porque os extremistas parecem-se todos uns com os outros mas os moderados são-no cada um à sua maneira. 

 

 

08
Out18

Sara: Marco Martins e a decoração de interiores


Eremita

 

Entre várias actividades de pastorícia parental (as miúdas passaram o tempo a fugir da cama e em incursões até à sala), vi a série de Bruno Nogueira realizada por Marco Martins, que conta com Beatriz Batarda no principal papel e tem um elenco de estrelas do teatro, cinema e televisão. A ideia de uma actriz dramática que deixa de saber chorar é boa, mas até agora só vi caricaturas (a própria personagem interpretada por Batarda, o cantautor andrajoso e desafinado, o guru à Gustavo Santos interpretado por Nogueira, um Miguel Guilherme a fazer de Miguel Guilherme, etc.). Mas gostei de ver o apartamento onde a protagonista vive com o pai, de divisões cheias, decadente q.b. e genuíno. Marco Martins parece ter uma especial predilecção por este tipo de interiores vividos e jeito para os filmar. Já o contraste com as casas modernaças de decoração minimalista me pareceu pouco subtil ou, para recorrer ao argumentário da série, muito à telenovela. 

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