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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

21
Set18

O drama antes e depois da nova PGR


Eremita

Primeiro, mostraram vontade. Depois, fingiram recuar, por entre notícias contraditórias. Finalmente, na noite das facas longas do regime, deram o golpe, e despediram a Procuradora-Geral da República, Joana Marques Vidal. Atreveram-se mesmo. Rui Ramos

O dramatismo investido na nomeação do Procurador Geral da República (PGR) atingiu o ridículo nesta passagem de Rui Ramos, o grande denunciador da "oligarquia". Pergunto-me o que daria um combate entre Ramos e a sua némesis,  Valupi, o grande teórico da conspiração contra Sócrates e  - insiste ele - o PS. Não resta a menor dúvida de que as visões do mundo que têm Ramos e Valupi são mais interessantes do que a realidade. Também as alucinações são mais interessantes do que a realidade, os sonhos do que a higiene matinal, a miragem do que o deserto. Enfim, as crianças vão continuar a brincar às conspirações, a rapaziada do Expresso vai manter a tradição das manchetes que não se confirmam e, entretanto, os adultos decidiram, creio que bem.

 

Por mim, depois de Joana Marques Vidal, seria agora bom que Carlos Alexandre saísse do caminho do ex-PM, pois é a melhor forma de afastar dúvidas quanto à justeza da decisão final. Para Portugal, o único final feliz possível para a incrível operação "Marquês" é a condenação de Sócrates num julgamento exemplar, livre de qualquer suspeita. Qualquer outro desfecho é trágico para o país. Mas Ramos e Valupi, cada um à sua maneira, querem outros finais, que são diametralmente opostos, e tudo farão para servir os seus interesses sectários. Trocarão agora Ramos e Valupi de papéis, pelo menos até se perceber o rumo da nova PGR? Não sabemos. Mas a dramatização está garantida, pois, sendo imune à realidade, não depende do comportamento da nova PGR. 

 

17
Set18

Será Rui Ramos um populista?


Eremita

Se é inegável que Vasco Pulido Valente ficará associado ao uso da palavra "indígena" (7630 entradas no Google), Rui Ramos está a trabalhar com afinco para ficar associado ao termo "oligarquia (4060 entradas no Google). Mas enquanto o "indígena" de Pulido Valente era um simples tique de snobismo, o uso crescente do termo "oligarquia" por Rui Ramos parece obedecer a um qualquer programa. Resta saber em que medida a definição de Ramos de oligarquia difere da dos populistas que andam por aí. E se não difere, não será Ramos um populista?

 

 

15
Set18

Mais um uivo de Lobo Antunes


Eremita

 

antonio-lobo-antunes-sitting.jpg

fonte

Temos* uma relação complicada com Lobo Antunes e a sua obra, mas ficámos* contentes com a sua entrada na La Pléiade. É verdade que a influência da cultura francesa  no mundo e em Portugal diminuiu vertiginosamente e para qualquer português com menos de 50 anos que não esteja ligada aos livros ou à França a importância dada a esta notícia é incompreensível, pois não vale um tweet - parafraseando um antigo colega de ignorância desconcertante: o que é Che Guevara? Quem é Bossa Nova? Esse Pléiade deve ter gajas mesmo boas a dançar em cima das colunas de som... É inegável que entrar nesta colecção da grande literatura mundial é uma enorme honra, como se percebe consultando o catálogo das 809 obras entretanto publicadas. Grande notícia, Marcelo já puxa o lustro a mais uma condecoração, viva Portugal. O único problema foi Lobo Antunes ter feito de Lobo Antunes. Eu iria até mais longe: Lobo Antunes caricaturou-se. Qualquer humorista de segunda categoria que tivesse de escrever umas piadas para um sketch de Eduardo Madeira sobre esta notícia iria pôr Lobo Antunes a dizer o que o escritor efectivamente disse: "É muito maior do que o Nobel". Admito que estivesse a ser sincero e a afirmação é perfeitamente defensável dentro de um universo geográfico, cultural e geracional limitado, mas o que sobressai é o grau de ressabiamento e a obsessão, tão avassaladora como a do capitão Ahab. O que diria Melo Antunes destes recorrentes uivos a propósito do Nobel? Não sabemos, mas sabemos que um homem se recolhe quando quer lamber as suas feridas. Não nos estragues a festa, Lobo Antunes. 

 

* Este plural majestático é de tipo experimental. Sempre desconfiei do académico que recorre ao plural majestático. É uma daquelas convenções ocas e talvez até contraproducentes, pois não cria a pretendida impressão de modéstia e gera algumas dúvidas: haverá no autor um desejo inconsciente de desresponsabilização? Ouvirá ele vozes? Por outro lado, o que mais me vem irritando na prosa, excluindo o abuso da terceira pessoa do presente do indicativo do verbo ser, uma palavra que soa como aquelas buzinas rocas que indicam uma resposta errada e matam qualquer melodia, é o protagonismo à boleia da celebridade, a inscrição das nossas vidinhas na vida de alguém com uma reputação maior do que a nossa, a ausência de tacto que nos leva a aproveitar um óbito para relatar a nossa banalidade. Mas não sei onde está a justa medida, como se estabelece um vínculo que não cause irritação no leitor. Parece-nos ser um daqueles talentos que o respeito pelas convenções não substitui. 

 

14
Set18

Uma brilhante gestão de expectativas


Eremita

À luz do que temos visto, e continuamos a ver, acontecer no processo que envolve Sócrates*, só por milagre se fará justiça na Justiça onde a parte mais importante do seu futuro será decidido. Valupi

 

* O artigo de opinião assinado por José Sócrates desenvolve a ideia da importância dos sorteios nas nomeações delicadas, como a de um Procurador Geral da República ou um juiz. Tenho em conta o que escrevi recentemente, só posso concordar com a crítica de Sócrates. Se a ausência de sortieo é motivo suficiente para invalidar todo o processo e o contribuinte pagar uma choruda indemnização ao ex-PM, os especialistas e Pedro Marques Lopes que se pronunciem.

 

14
Set18

A Medicina e o meu pai


Eremita

Screen Shot 2018-09-09 at 13.05.24.png

 

Esta tabela é tirada de uma notícia do Público que anuncia, com algum alarme, a saída dos cursos de medicina do top 5 dos cursos universitários com médias de entrada mais altas. O alarme é excessivo. A nota do último aluno a entrar é um critério enganador, porque entre dois cursos igualmente pretendidos pelos melhores alunos o que tiver menos vagas aparecerá à frente na lista. Mas nem vale a pena lembrar estes detalhes técnicos. O curso de Medicina continuará a ser o que mais prestígio social dá, mesmo não sendo aquele que o mercado mais valoriza. E pouco adianta lembrar que os grandes magnatas estão mais associados à ciência, à tecnologia, às finanças e aos negócios do que à Medicina, porque sempre assim foi. O prestígio da medicina não assenta sequer na garantia do acesso à classe média, nem na miragem de uma vida de classe média alta, pois radica no protagonismo que o médico assume nos momentos mais complicados que vamos tendo na vida - diante de nós, ele aparece-nos de bata, asseado e com um discurso sensato, mas o que ouvimos é o eco das cantorias de um feiticeiro com pinturas tribais que terá tratado com magia os nossos antepassados remotos.

 

O meu avô paterno já não está entre nós há muitos anos, mas suspeito que esta notícia não teria abalado a sua convicção de que o único curso que vale a pena tirar é Medicina (com a possível excepção do Direito). Também o meu pai não ficará muito convencido com este domínio das engenharias e da computação. Ambos me tentaram convencer a ir para Medicina, com os argumentos do costume, e ambos contrariei com argumentos que talvez não voltasse a usar. Foi a primeira vez na vida que tive realmente de fazer valer a minha voz, com a possível excepção de um "momento Spartacus" anterior - que hoje suspeito ser uma memória plantada. Creio que não cheguei a utilizar o argumento decisivo, não sei se por na altura não o ter presente ou por vergonha. A verdade é que a minha personalidade nunca lidaria bem com o "erro médico" e escolher Medicina teria sido um grande risco. 

 

Já não me surpreende a insistência do meu pai. Ele e os seus dois irmãos escaparam à monocultura da banana e a uma existência remediada num lugarejo da ilha da Madeira graças aos estudos. "Subiram" efectivamente na vida, como quase não vi acontecer aos meus amigos, talvez por muitos dos meus amigos terem já partido de um patamar mais alto, mas também porque os filhos do meu avô paterno são particulamente inteligentes, trabalhadores e ambiciosos. Ainda hoje, duas décadas passadas, me pergunto se ter ido para Biologia foi a melhor decisão, podendo na altura ter ido para onde quisesse. Recomeçando, voltaria a não escolher Medicina, não só por um imperativo de prudência, mas por ter entretanto percebido que os cientistas são, em regra, mais interessantes do que os médicos (que não fazem investigação); talvez tivesse ido para Bioquímica, Matemática ou Física. Mas a escolha do curso é irrelevante; a longo prazo, o mais provável seria ter vindo parar a Ourique, qualquer que tivesse sido o meu percurso académico e profissional.

 

O que realmente conta, o que ganhei daqueles meses de pressão constante do meu pai para ir para Medicina ou Engenharia foi uma lição de parentalidade, que sempe valorizei mas ainda mais depois de também eu ter sido pai. O meu pai nunca exerceu a sua autoridade além do que seria tolerável. As discussões eram constantes, na minha presença e na minha aparente ausência (atrás da porta da sala, eu ouvia as conversas que o meu pai tinha com os seus amigos sobre este assunto), mas pararam abruptamente no momento em que entrei na universidade. Se fosse só isto não seria especialmente louvável. O que mais estimo foi ele não ter guardado nenhum rancor por eu não ter seguido os seus conselhos. Nos anos seguintes, foram muitas as minhas "crises existenciais" relacionadas com os estudos e o trabalho, mas pude contar com o apoio dele sempre, de uma forma absolutamente incondicional, sem jamais me cobrar a irreverência dos meus 17-18 anos. Tenha eu a mesma decência quando chegar a minha hora.  

 

13
Set18

Do maniqueísmo grotesco


Eremita

A qualidade dos posts desta agremiação é muito desigual, havendo quem escreva e pense bem, mas também quem pense mal e escreva prosa muito aborrecida. Nesta última categoria destaca-se Cristina Miranda, que no post "Bolsonaro não é de Extrema-Direita" se superou. Cristina Miranda odeia tanto a extrema esquerda que vai ao ponto de eufemizar o discurso cavernícola de Bolsonaro. O post tem várias citações arrepiantes de Che Guevara, mas nenhuma de Bolsonaro, cujo pensamento aparece expurgado das suas conhecidas propostas ou desabafos horrendos sobre os pobres e outros inimigos. É uma escolha que define um modo de pensar primário, assente no maniqueísmo. Naturalmente, os comentários que já adornam a prosa são do mesmo calibre, havendo até por lá uma entusiasmada negacionista do Holocausto. É tudo francamente nojento e desconcertante. Mas quem, com mais de 25 anos, alguma leitura e água canalizada em casa, consegue pensar como Cristina Miranda, mostrar-se entusiasmado por chavões como se fossem versos originais e perde tempo a transformar-se de pessoa em caricatura? Surpreendentemente, esta prosa não surge num portal manhoso que ninguém conhece, mas no Blasfémias, o blog de política mais popular do país. Nivelando por baixo, se é este o nível de discussão, estamos fritos. E para quem quiser fazer de mim um defensor de Che Guevara, mostrando que não percebeu nada, a sugestão é óbvia: junte-se aos fãs da Cristina Miranda. Com sorte, ainda acaba a tomar um café com uma negacionista, assim em jeito de brinde. 

11
Set18

Consenso em ciência


Eremita

A propósito de uma conferência no Porto com uma malta que nega as causas antropogénicas do aquecimento global, o disparate tem andado à solta nos jornais e blogs. Eu diria que ninguém acerta uma e assim continuará a ser até alguém perder algum tempo a estudar e explicar se há e, havendo, o que é o consenso científico, nomeadamente se o epíteto transforma radicalmente a definição. Noutros tempos, eu poderia ter sido um aristocrata ocioso com o sótão do palácio transformado em laboratório e imensos lacaios que me libertavam o tempo para estudar madrugada adentro fenómenos como o magnetismo, fazendo ainda uma perninha na alquimia. Mas os tempos são outros e preciso de ir lavar a loiça, fazendo ainda planos de fotografar uns eletrodomésticos para pôr à venda no OLX.

 

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