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Ouriquense

22
Set18

Pirilaus à moda do Porto - um repto

Eremita
Adenda a 25.09.18: afinal este episódio é bem mais interessante do que parecia. E o que pode ser mais interessante do que o sexo e a censura? Obviamente, a embriaguez do poder.  
 
João Ribas, director do Museu de Serralves, e Paula Fernandes, curadora, organizaram a exposição de Mapplethorpe com 179 trabalhos do fotógrafo americano. A publicidade institucional vinca a existência desse conjunto.
Mas a administração da Fundação vetou 20, reduzindo a mostra a 159. Também impôs proibição a menores de 18 anos.
João Ribas demitiu-se esta noite do cargo de director.
A administração da Fundação é composta por Ana Pinho, Manuel Cavaleiro Brandão, Manuel Ferreira da Silva, Isabel Pires de Lima, Vera Pires Coelho, Carlos Moreira da Silva, António Pires de Lima e José Pacheco Pereira.
A decisão de interditar as 20 obras foi tomada por maioria ou por unanimidade? Quem votou a favor da interdição? Da Literatura
 
Quem se lembrou de retirar fotos de uma exposição de Mapplethorpe? Também tu, Pacheco? Nas sociedades abertas, como se sabe, qualquer tipo de proibição e em particular a censura tem sempre associado o risco do efeito contraproducente. Ao demitir-se por causa de pilas censuradas*, João Ribas, num gesto de grande dignidade e coerência, inclusive anatómica, pois mostrou ter tomates, só aumentou a pressão para que agora conheçamos as fotos censuradas. A censura não é propriamente inédita, mas profundamente anacrónica. Numa época de conquistas cívicas para todas as orientações sexuais e em que a tecnologia põe gratuitamente à disposição de um adolescente de 14 anos todo o cardápio das opções pornográficas, das fantasias incestuosas à zoofilia equestre, mostrar um pénis numa venerável instituição parece ser o derradeiro tabu, talvez por uma mistura de puritanismo e insegurança masculina, sendo esta inevitável diante dos magníficos bacamartes fotografados por Mapplethorpe. Mas é, se me permitem, uma decisão estúpida como o caralho. Enfim, lanço um desafio. Vamos dar uma pequena ajuda a Serralves e mostrar as 20 vergas que eles provavelmente censuraram. Descubram e mostrem nos vossos blogs essas fotos, pois esta, que não deve ter sido censurada ou então o caso seria do foro clínico, é a minha preferida e não podia perder a oportunidade de a mostrar. 
 
 

Screen Shot 2018-09-22 at 08.07.13.png

 

Adenda a 22.09.18: Após uma leitura mais cuidada, percebo que esta história está ainda muito mal contada, não sendo certo que as fotos censuradas mostrem necessariamente pilas, mas é sábado e não estou com pachorra para alterar o texto. 

21
Set18

Sobre o anonimato e um equívoco

Eremita

Como longe vão os tempos em que teorizávamos com entusiasmo sobre o anonimato nos blogs, serei breve. Este blog nasceu quando me apercebi que estava condicionado por ter percebido que um outro blog que tive era lido por uma aluna minha. Como sempre entendi os blogs como espaços de liberdade, a solução foi encerrar esse blog e começar outro anonimamente. Mas uma vez resolvido o problema pontual, nunca mais me preocupei em esconder a minha identidade, entre outros motivos porque o Ouriquense, ao contrário do blog precedente, nunca foi pensado para seduzir e o passar dos anos só vincou essa tendência. A ideia de "trasladar" experiências quotidianas para outro lugar pareceu-me feliz, um bom algoritmo para a ficcão, e venho acumulando cada vez mais provas de que a ficção existe apenas para maximizar a liberdade individual. A pergunta mais estúpida de sempre é: "o que há de autobriográfico na sua obra?" 

 

Quando alguém revela informação sobre mim que aparentemente não é pública e pensa que me desmascara, há um equívoco. Este blog não é secreto, não aposta no charme do mistério, tem  apenas um autor (Vasco M. Barreto) e nenhuma pretensão à heteronímia. O que conta não é o anonimato aparente do "eremita" e muito menos algum enigma sobre quem escreve (repito, sou só eu), mas a minha vila de Ourique e uma existência ficcionada paralela enquanto estratégias de evasão. Quem me protege é Ourique, não um qualquer anonimato aparente. Isto parecerá algo bizarro, sobretudo porque há muitos meses que não cuido da minha Ourique inventada, mas é o que me importa e em boa hora deixarei de comentar a actualidade e retomarei o rumo virtuoso. Entretanto, preferia que não me aborrecessem com insinuações de que estão a par de coisas sobre a minha vida que não são sequer interessantes, nem nunca foram segredo. 

 

21
Set18

O drama antes e depois da nova PGR

Eremita

Primeiro, mostraram vontade. Depois, fingiram recuar, por entre notícias contraditórias. Finalmente, na noite das facas longas do regime, deram o golpe, e despediram a Procuradora-Geral da República, Joana Marques Vidal. Atreveram-se mesmo. Rui Ramos

O dramatismo investido na nomeação do Procurador Geral da República (PGR) atingiu o ridículo nesta passagem de Rui Ramos, o grande denunciador da "oligarquia". Pergunto-me o que daria um combate entre Ramos e a sua némesis,  Valupi, o grande teórico da conspiração contra Sócrates e  - insiste ele - o PS. Não resta a menor dúvida de que as visões do mundo que têm Ramos e Valupi são mais interessantes do que a realidade. Também as alucinações são mais interessantes do que a realidade, os sonhos do que a higiene matinal, a miragem do que o deserto. Enfim, as crianças vão continuar a brincar às conspirações, a rapaziada do Expresso vai manter a tradição das manchetes que não se confirmam e, entretanto, os adultos decidiram, creio que bem.

 

Por mim, depois de Joana Marques Vidal, seria agora bom que Carlos Alexandre saísse do caminho do ex-PM, pois é a melhor forma de afastar dúvidas quanto à justeza da decisão final. Para Portugal, o único final feliz possível para a incrível operação "Marquês" é a condenação de Sócrates num julgamento exemplar, livre de qualquer suspeita. Qualquer outro desfecho é trágico para o país. Mas Ramos e Valupi, cada um à sua maneira, querem outros finais, que são diametralmente opostos, e tudo farão para servir os seus interesses sectários. Trocarão agora Ramos e Valupi de papéis, pelo menos até se perceber o rumo da nova PGR? Não sabemos. Mas a dramatização está garantida, pois, sendo imune à realidade, não depende do comportamento da nova PGR. 

 

17
Set18

Será Rui Ramos um populista?

Eremita

Se é inegável que Vasco Pulido Valente ficará associado ao uso da palavra "indígena" (7630 entradas no Google), Rui Ramos está a trabalhar com afinco para ficar associado ao termo "oligarquia (4060 entradas no Google). Mas enquanto o "indígena" de Pulido Valente era um simples tique de snobismo, o uso crescente do termo "oligarquia" por Rui Ramos parece obedecer a um qualquer programa. Resta saber em que medida a definição de Ramos de oligarquia difere da dos populistas que andam por aí. E se não difere, não será Ramos um populista?

 

 

15
Set18

...

Eremita

Convencer alguém bilingue das vantagens do bilinguismo é como tentar explicar a um peixe a importância da água. 

15
Set18

Mais um uivo de Lobo Antunes

Eremita

 

antonio-lobo-antunes-sitting.jpg

fonte

Temos* uma relação complicada com Lobo Antunes e a sua obra, mas ficámos* contentes com a sua entrada na La Pléiade. É verdade que a influência da cultura francesa  no mundo e em Portugal diminuiu vertiginosamente e para qualquer português com menos de 50 anos que não esteja ligada aos livros ou à França a importância dada a esta notícia é incompreensível, pois não vale um tweet - parafraseando um antigo colega de ignorância desconcertante: o que é Che Guevara? Quem é Bossa Nova? Esse Pléiade deve ter gajas mesmo boas a dançar em cima das colunas de som... É inegável que entrar nesta colecção da grande literatura mundial é uma enorme honra, como se percebe consultando o catálogo das 809 obras entretanto publicadas. Grande notícia, Marcelo já puxa o lustro a mais uma condecoração, viva Portugal. O único problema foi Lobo Antunes ter feito de Lobo Antunes. Eu iria até mais longe: Lobo Antunes caricaturou-se. Qualquer humorista de segunda categoria que tivesse de escrever umas piadas para um sketch de Eduardo Madeira sobre esta notícia iria pôr Lobo Antunes a dizer o que o escritor efectivamente disse: "É muito maior do que o Nobel". Admito que estivesse a ser sincero e a afirmação é perfeitamente defensável dentro de um universo geográfico, cultural e geracional limitado, mas o que sobressai é o grau de ressabiamento e a obsessão, tão avassaladora como a do capitão Ahab. O que diria Melo Antunes destes recorrentes uivos a propósito do Nobel? Não sabemos, mas sabemos que um homem se recolhe quando quer lamber as suas feridas. Não nos estragues a festa, Lobo Antunes. 

 

* Este plural majestático é de tipo experimental. Sempre desconfiei do académico que recorre ao plural majestático. É uma daquelas convenções ocas e talvez até contraproducentes, pois não cria a pretendida impressão de modéstia e gera algumas dúvidas: haverá no autor um desejo inconsciente de desresponsabilização? Ouvirá ele vozes? Por outro lado, o que mais me vem irritando na prosa, excluindo o abuso da terceira pessoa do presente do indicativo do verbo ser, uma palavra que soa como aquelas buzinas rocas que indicam uma resposta errada e matam qualquer melodia, é o protagonismo à boleia da celebridade, a inscrição das nossas vidinhas na vida de alguém com uma reputação maior do que a nossa, a ausência de tacto que nos leva a aproveitar um óbito para relatar a nossa banalidade. Mas não sei onde está a justa medida, como se estabelece um vínculo que não cause irritação no leitor. Parece-nos ser um daqueles talentos que o respeito pelas convenções não substitui. 

 

14
Set18

Uma brilhante gestão de expectativas

Eremita

À luz do que temos visto, e continuamos a ver, acontecer no processo que envolve Sócrates*, só por milagre se fará justiça na Justiça onde a parte mais importante do seu futuro será decidido. Valupi

 

* O artigo de opinião assinado por José Sócrates desenvolve a ideia da importância dos sorteios nas nomeações delicadas, como a de um Procurador Geral da República ou um juiz. Tenho em conta o que escrevi recentemente, só posso concordar com a crítica de Sócrates. Se a ausência de sortieo é motivo suficiente para invalidar todo o processo e o contribuinte pagar uma choruda indemnização ao ex-PM, os especialistas e Pedro Marques Lopes que se pronunciem.

 

14
Set18

A Medicina e o meu pai

Eremita

Screen Shot 2018-09-09 at 13.05.24.png

 

Esta tabela é tirada de uma notícia do Público que anuncia, com algum alarme, a saída dos cursos de medicina do top 5 dos cursos universitários com médias de entrada mais altas. O alarme é excessivo. A nota do último aluno a entrar é um critério enganador, porque entre dois cursos igualmente pretendidos pelos melhores alunos o que tiver menos vagas aparecerá à frente na lista. Mas nem vale a pena lembrar estes detalhes técnicos. O curso de Medicina continuará a ser o que mais prestígio social dá, mesmo não sendo aquele que o mercado mais valoriza. E pouco adianta lembrar que os grandes magnatas estão mais associados à ciência, à tecnologia, às finanças e aos negócios do que à Medicina, porque sempre assim foi. O prestígio da medicina não assenta sequer na garantia do acesso à classe média, nem na miragem de uma vida de classe média alta, pois radica no protagonismo que o médico assume nos momentos mais complicados que vamos tendo na vida - diante de nós, ele aparece-nos de bata, asseado e com um discurso sensato, mas o que ouvimos é o eco das cantorias de um feiticeiro com pinturas tribais que terá tratado com magia os nossos antepassados remotos.

 

O meu avô paterno já não está entre nós há muitos anos, mas suspeito que esta notícia não teria abalado a sua convicção de que o único curso que vale a pena tirar é Medicina (com a possível excepção do Direito). Também o meu pai não ficará muito convencido com este domínio das engenharias e da computação. Ambos me tentaram convencer a ir para Medicina, com os argumentos do costume, e ambos contrariei com argumentos que talvez não voltasse a usar. Foi a primeira vez na vida que tive realmente de fazer valer a minha voz, com a possível excepção de um "momento Spartacus" anterior - que hoje suspeito ser uma memória plantada. Creio que não cheguei a utilizar o argumento decisivo, não sei se por na altura não o ter presente ou por vergonha. A verdade é que a minha personalidade nunca lidaria bem com o "erro médico" e escolher Medicina teria sido um grande risco. 

 

Já não me surpreende a insistência do meu pai. Ele e os seus dois irmãos escaparam à monocultura da banana e a uma existência remediada num lugarejo da ilha da Madeira graças aos estudos. "Subiram" efectivamente na vida, como quase não vi acontecer aos meus amigos, talvez por muitos dos meus amigos terem já partido de um patamar mais alto, mas também porque os filhos do meu avô paterno são particulamente inteligentes, trabalhadores e ambiciosos. Ainda hoje, duas décadas passadas, me pergunto se ter ido para Biologia foi a melhor decisão, podendo na altura ter ido para onde quisesse. Recomeçando, voltaria a não escolher Medicina, não só por um imperativo de prudência, mas por ter entretanto percebido que os cientistas são, em regra, mais interessantes do que os médicos (que não fazem investigação); talvez tivesse ido para Bioquímica, Matemática ou Física. Mas a escolha do curso é irrelevante; a longo prazo, o mais provável seria ter vindo parar a Ourique, qualquer que tivesse sido o meu percurso académico e profissional.

 

O que realmente conta, o que ganhei daqueles meses de pressão constante do meu pai para ir para Medicina ou Engenharia foi uma lição de parentalidade, que sempe valorizei mas ainda mais depois de também eu ter sido pai. O meu pai nunca exerceu a sua autoridade além do que seria tolerável. As discussões eram constantes, na minha presença e na minha aparente ausência (atrás da porta da sala, eu ouvia as conversas que o meu pai tinha com os seus amigos sobre este assunto), mas pararam abruptamente no momento em que entrei na universidade. Se fosse só isto não seria especialmente louvável. O que mais estimo foi ele não ter guardado nenhum rancor por eu não ter seguido os seus conselhos. Nos anos seguintes, foram muitas as minhas "crises existenciais" relacionadas com os estudos e o trabalho, mas pude contar com o apoio dele sempre, de uma forma absolutamente incondicional, sem jamais me cobrar a irreverência dos meus 17-18 anos. Tenha eu a mesma decência quando chegar a minha hora.  

 

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