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Ouriquense

30
Set18

A inércia da tradição

Eremita

Oito anos depois de defender a audição de livros, continuo na defensiva. O meu método evoluiu. Agora repito de imediato a audição de um capítulo e admito até uma terceira escuta antes de avançar. Estando reunidas as condições necessárias, conjugo em simultâneo a audição e a leitura, mas não abdico de ouvir apenas, pois é a melhor forma de rentabilizar o tempo investido em tarefas monótonas como correr, lavar a loiça ou conduzir numa auto-estrada. Tenho estado a ouvir Ada and Ardor, de Nabokov, e a experiência é viciante. Uma verdadeira escuta, sobretudo de obras complexas na língua original  e com abundância de longas orações subordinadas, exige mais concentração do que a leitura - disso tenho absoluta certeza e só dirá o contrário quem nunca experimentou ouvir um livro. Isto deveria bastar para acabar com esta síndrome do impostor e este problema de consciência, mas há algo mais que ainda não consegui identificar. Talvez seja a inércia da tradição. 

29
Set18

O destino de Sócrates

Eremita

Como já expliquei e é do mais elementar bom senso, fiquei satisfeito com o resultado do sorteio do nome do juiz de instrução do processo Marquês. A saída de cena de Carlos Alexandre era necessária para trazer isenção ao processo. O que me pareceu estranho foi o sorteio ter sido "electrónico". Bem sei que o sorteio é sempre assim, só não costuma ser tão mediático. Mas então que papel cumpriram as pessoas (jornalistas e uma advogada, creio) que assistiram ao sorteio e aparecem nesta fotografia? 

 

Seriam porventura capazes de detectar algum vício no sorteio electrónico? Claro que não. Mais valia a coisa ter sido feita à moda antiga, com duas bolas dentro de um saco de pano preto, sendo possível a qualquer um testemunhar que havia realmente duas bolas de peso, dimensões e textura idênticas, apenas diferindo na cor (por exemplo). Os jornalistas puderam confirmar que um computador regurgitou um nome, mas não podem assegurar a aleatoriedade da escolha. Este é mais um daqueles casos em que o aparato tecnológico não trouxe qualquer vantagem, antes pelo contrário. O reverso do ludita é o parolo fascinado com o progresso. 

 

Não estou a levantar dúvidas. Acredito que o sorteio decorreu de forma perfeitamente normal. Mas a presença dos jornalistas funcionou apenas como simulacro de selo de garantia. Para quem, como eu, tem à partida confiança nas pessoas e nas instituições, isto não é um problema. Mas eu, sem grandes inquietações, até como empadão de carne em restaurantes. Esta etapa do processo Marquês devia ter sido pensada para destrunfar os maluquinhos das teorias da conspiração, que já se manifestaram em todo o esplendor da estupidez racional .

 

O meu receio é que, arrastando-se o processo durante décadas, Sócrates venha a ser julgado por uma inteligência artificial que entretanto substitua os juízes, servida por uma memória jurídica ilimitada e capaz de avaliar as provas directas e o mais complexo e subtil conjunto de provas indiciárias através de sofisticados algoritmos de raiz bayesiana imaginados pelos melhores estatistas e matemáticos. Qualquer que fosse a decisão dessa maquineta, seria um fim trágico para o cultor do "choque tecnológico", apesar da harmonia que o remate redondo incute nas narrativas. 

29
Set18

...

Eremita

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[Arquitectura e quartos de hotel]
 
 Há pelo menos um grande escândalo de sexo anal por geração. 

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29
Set18

Como não se discute política cultural

Eremita

Screen Shot 2018-09-29 at 09.03.24.png

 

Pacheco Pereira utilizou o Público para desabafar. Nada contra, pois Santana Castilho faz o mesmo todas as semanas há vários anos e até nos divertimos. Mas ao optar por não falar sobre o caso concreto de Serralves, entendeu amanhar uma amálgama de coisas sobre cultura como pretexto para zurzir naqueles que o associaram ao caso da alegada censura e da demissão de Ribas. De um texto escrito para cumprir um objectivo tão pequeno não se pode esperar muito e, se Pacheco Pereira quiser mesmo discutir modelos de financiamento da cultura, seria bom perder mais algumas crónicas com o assunto, deixando o ego e a honra de fora.

 

Já ninguém quer saber da França e o modelo de política cultural "Malraux-Lang" tende a ser apresentado - Pacheco não foge à regra  - como um "instrumento intocável de propaganda nacional, política e local". De resto, os nossos liberais, tendencialmente anglófilos, adoram cascar na França estatizada e Lang (do Malraux já não se lembram) dá sempre um jeitão. 

 

A verdade é que os Franceses lêem livros. A paisagem urbana mudou com a chegada dos telemóveis, mas nos anos noventa, quando fui viver para França, a frequência de pessoas que liam livros no metro de Paris deixava-me a pensar se não teria vindo de um país de analfabetos funcionais, pois em Portugal ninguém lia livros nos transportes públicos. Os Franceses lêem em média 16 livros por ano; os Portugueses compram, em média, menos de dois livros por ano (os valores não resultam de uma comparação controlada, mas a amplitude da diferença é esclarecedora). A França, hoje sempre vista como o exemplo da perda de hegemonia cultural no mundo, ainda tem uma verdadeira cultura literária, com mercado que disponibiliza toda a grande literatura em edições de bolso baratíssimas, estrelas intelectuais, tradição de debate. Quem "não tem tempo" para ler pode limitar-se a comparar durante o jogging a qualidade dos podcasts da France Culture com os nossos podcasts de alta cultura para perceber que a diferença é abissal. Os Franceses discutem a sério. Mesmo as discussões muito mediatizadas, sempre afectadas pela componente teatral, têm um nível da argumentação, riqueza de informação e choque de ideias sem paralelo em Portugal, um país em que Pedro Adão e Silva e Pedro Marques Lopes fazem um programa de "debate" cujo único contraste é a qualidade da exposição de uma mesma ideia  - aliás, em Portugal todos os programas com painel fixo não são de debate, pois 95% do tempo é gasto com monólogos pensados antes do programa, não havendo tempo para discutir. E não divago, porque isto está tudo ligado. A ideia de que as elites não são afectadas pelo nível cultural médio do país deve ter sido posta a circular pelas  elites e carece de confirmação empírica.

 

É claro que Maulraux e Lang não são os únicos pais da cultura literária da França, mas terão tido alguma responsabilidade na massificação da leitura e do consumo de livros. E tendo em conta o nosso atraso cultural e o desprezo do mercado pela cultura, pergunto-me se não precisaremos mesmo de um Maulraux ou de um Lang para assegurar o mínimo indispensável. Como escreve Pacheco, Portugal "não tem sequer um corpus da sua grande literatura disponível quer em edições críticas, quer em edições populares de qualidade". Não estou a ver LeYa a resolver este problema, mas a imaginação dos nossos liberais deve ultrapassar a minha.

 

Também a ideia de uma política cultural à Vasco Graça Moura, que Pacheco defende, isto é, exclusivamente dedicada à preservação do património e sem políticas que derivem de "opções de gosto", é um velho debate que precisa de ser recuperado, talvez começando por perguntar: o que não é uma opção de gosto? Mas seria mais útil contar com Pacheco depois de o cronista ter dito ou escrito o que lhe vai na alma sobre Serralves. Até lá, seria bom que se dedicasse a Orwell, Trump, à bibliofilia ou qulquer outro dos seus temas recorrentes.

 

 

27
Set18

I believe

Eremita

O testemunho de Christine Blasey Ford não é apenas credível, é o cúmulo da credibilidade. Confesso a minha surpresa: eis uma mulher ponderada, discreta, rigorosa e empática, que nada tinha a ganhar com este processo a não ser uma consciência pacificada, que é professora de psicologia na Califórnia e, como se não bastasse, especialista em memória e traumas, a revelar um episódio de violência sexual de um modo irrepreensível. Tal postura não se treina em casa. Kavanaugh e os republicanos bem podem insisitir na descredibilização de Ford, mas até prova em contrário o homem fez o que ela diz que ele fez quando era adolescente e, o que é tão ou mais grave, mentiu descaradamente nas últimas semanas. Nunca a inversão do ónus da prova me pareceu tão pouco criticável. 

26
Set18

O efeito Kavanaugh

Eremita

Efeito Kavanaugh: introspecção revisionista de todas as interacções com mulheres desde a mais tenra idade que, na época pós-#metoo, passou a afligir o homem com a ambição de chegar a um cargo de grande escrutínio público, mas também qualquer homem que reconheça o valor da vida examinada. 

 

 

22
Set18

Pirilaus à moda do Porto - um repto

Eremita
Adenda a 25.09.18: afinal este episódio é bem mais interessante do que parecia. E o que pode ser mais interessante do que o sexo e a censura? Obviamente, a embriaguez do poder.  
 
João Ribas, director do Museu de Serralves, e Paula Fernandes, curadora, organizaram a exposição de Mapplethorpe com 179 trabalhos do fotógrafo americano. A publicidade institucional vinca a existência desse conjunto.
Mas a administração da Fundação vetou 20, reduzindo a mostra a 159. Também impôs proibição a menores de 18 anos.
João Ribas demitiu-se esta noite do cargo de director.
A administração da Fundação é composta por Ana Pinho, Manuel Cavaleiro Brandão, Manuel Ferreira da Silva, Isabel Pires de Lima, Vera Pires Coelho, Carlos Moreira da Silva, António Pires de Lima e José Pacheco Pereira.
A decisão de interditar as 20 obras foi tomada por maioria ou por unanimidade? Quem votou a favor da interdição? Da Literatura
 
Quem se lembrou de retirar fotos de uma exposição de Mapplethorpe? Também tu, Pacheco? Nas sociedades abertas, como se sabe, qualquer tipo de proibição e em particular a censura tem sempre associado o risco do efeito contraproducente. Ao demitir-se por causa de pilas censuradas*, João Ribas, num gesto de grande dignidade e coerência, inclusive anatómica, pois mostrou ter tomates, só aumentou a pressão para que agora conheçamos as fotos censuradas. A censura não é propriamente inédita, mas profundamente anacrónica. Numa época de conquistas cívicas para todas as orientações sexuais e em que a tecnologia põe gratuitamente à disposição de um adolescente de 14 anos todo o cardápio das opções pornográficas, das fantasias incestuosas à zoofilia equestre, mostrar um pénis numa venerável instituição parece ser o derradeiro tabu, talvez por uma mistura de puritanismo e insegurança masculina, sendo esta inevitável diante dos magníficos bacamartes fotografados por Mapplethorpe. Mas é, se me permitem, uma decisão estúpida como o caralho. Enfim, lanço um desafio. Vamos dar uma pequena ajuda a Serralves e mostrar as 20 vergas que eles provavelmente censuraram. Descubram e mostrem nos vossos blogs essas fotos, pois esta, que não deve ter sido censurada ou então o caso seria do foro clínico, é a minha preferida e não podia perder a oportunidade de a mostrar. 
 
 

Screen Shot 2018-09-22 at 08.07.13.png

 

Adenda a 22.09.18: Após uma leitura mais cuidada, percebo que esta história está ainda muito mal contada, não sendo certo que as fotos censuradas mostrem necessariamente pilas, mas é sábado e não estou com pachorra para alterar o texto. 

21
Set18

Sobre o anonimato e um equívoco

Eremita

Como longe vão os tempos em que teorizávamos com entusiasmo sobre o anonimato nos blogs, serei breve. Este blog nasceu quando me apercebi que estava condicionado por ter percebido que um outro blog que tive era lido por uma aluna minha. Como sempre entendi os blogs como espaços de liberdade, a solução foi encerrar esse blog e começar outro anonimamente. Mas uma vez resolvido o problema pontual, nunca mais me preocupei em esconder a minha identidade, entre outros motivos porque o Ouriquense, ao contrário do blog precedente, nunca foi pensado para seduzir e o passar dos anos só vincou essa tendência. A ideia de "trasladar" experiências quotidianas para outro lugar pareceu-me feliz, um bom algoritmo para a ficcão, e venho acumulando cada vez mais provas de que a ficção existe apenas para maximizar a liberdade individual. A pergunta mais estúpida de sempre é: "o que há de autobriográfico na sua obra?" 

 

Quando alguém revela informação sobre mim que aparentemente não é pública e pensa que me desmascara, há um equívoco. Este blog não é secreto, não aposta no charme do mistério, tem  apenas um autor (Vasco M. Barreto) e nenhuma pretensão à heteronímia. O que conta não é o anonimato aparente do "eremita" e muito menos algum enigma sobre quem escreve (repito, sou só eu), mas a minha vila de Ourique e uma existência ficcionada paralela enquanto estratégias de evasão. Quem me protege é Ourique, não um qualquer anonimato aparente. Isto parecerá algo bizarro, sobretudo porque há muitos meses que não cuido da minha Ourique inventada, mas é o que me importa e em boa hora deixarei de comentar a actualidade e retomarei o rumo virtuoso. Entretanto, preferia que não me aborrecessem com insinuações de que estão a par de coisas sobre a minha vida que não são sequer interessantes, nem nunca foram segredo. 

 

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