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OURIQ

Um diário trasladado

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Um diário trasladado

19
Jul18

Manuel Pinho: do direito de não falar ao dever de não ouvir


Eremita

Há uns meses, pronunciei-me com entusiasmo sobre o magnífico cliffhanger de Ricardo Sá Fernandes. Esta semana percebemos que dificilmente vamos ter um esclarecimento de Manuel Pinho sobre os alegados pagamentos do BES enquanto foi ministro. O que se conclui da lamentável ida de Manuel Pinho ao Parlamento é que os deputados não deviam ter aceitado as condições por ele impostas. Pinho terá certamente o direito de não falar, mas é um direito de todos - e até um dever de cidadania, acrescento - não o ouvir sobre mais nenhum assunto enquanto ele não falar sobre o que realmente interessa. O Estado de Direito pede-nos que não nos precipitemos em juízos e estamos dispostos a fazê-lo por percebermos o que está em jogo, mas há limites e as provocações devem ser evitadas. Dar tempo de antena a Pinho enquanto especialista em política de energia, defensor da baixa do preço da electricidade, teórico do populismo e crítico da promiscuidade entre o poder político e as empresas é demasiado penoso. Pode não haver ética republicana, mas que haja ao menos pudor.

 

18
Jul18

As nossas memórias, figuras e narrativas


Eremita

Alega a articulista que a figura de Njinga “representa a complexidade da história da escravatura”. Ou seja, uma estátua sua mostraria ao cidadão comum que os negros também estavam envolvidos no tráfico de escravos e seria, portanto, e de certo modo, uma estátua didáctica. Mas trata-se, a meu ver, de uma fraca justificação. O que parece haver aqui é gato escondido com rabo de fora, sendo que o dito gato é mais uma frente do combate pela memória. Por outras palavras, mais uma tentativa de invasão do nosso espaço público com memórias, figuras e narrativas que não são nossasJoão Pedro Marques, Público

Como corolário da discussão em curso sobre a memória da escravatura, a ideia de erguer uma estátua à rainha Njinga em território nacional é péssima. A erguer-se alguma estátua seria uma representativa dos próprios escravos, feita de um modo que os dignificasse. Isto parece-me evidente e só quem estiver muito enredado na retórica da política identitária não chegará à mesma conclusão. Mas também João Pedro Marques vai por atalhos muito discutíveis. 

 

Para definir que figuras e narrativas não são as nossas precisamos de definir primeiro quem somos. Temos afrodescendentes. É uma comunidade creio que inferior a 2%, mas mais numerosa do que a comunidade judaica, que está a construir o seu museu em Lisboa. Não me interpretem mal: louvo o aparecimento de um museu judaico e antecipo que nesse museu se aprenderá algo sobre as perseguições aos judeus e a Shoa. Ora, o último pogrom feito por portugueses terá sido em 1506 e não houve participação directa de Portugal na Shoa, enquanto Portugal e muitos portugueses tiveram um papel de grande destaque no comércio de escravos africanos até ao século XIX. Como, então, negar aos afrodescendentes portugueses um monumento em Portugal à memória de um dos aspectos mais trágicos da sua história?

 

Naturalmente, o que somos é mais complicado do que o parágrafo anterior deixa subentendido. Dependendo da região, existem em Portugal 3 a 12% de linhagens femininas oriundas da África subsaariana, o que aumenta consideravelmente o número de portugueses com uma ligação de ancestralidade aos escravos ou às comunidades de onde saíram escravos. 

 

E podemos ainda acrescentar que os dois parágrafos anteriores denunciam uma visão redutora do que são as nossas memórias, figuras e narrativas, pois qualquer português sem vínculo genético (recente) a África relaciona-se de forma mais engajada - assumindo a culpa ou preferindo a relativização - com a memória do tráfico negreiro do que um cidadão nepalês. O exemplo mais à mão é, naturalmente, o próprio João Pedro Marques, que, a partir da história da escravatura, tem vindo a criticar com notável insistência a chegada da política identitária à "luta de memórias". 

 

O tema merece mais tempo, mas o tempo é curto.

 

 

 

 

 

15
Jul18

A fífia feminista da FIFA


Eremita

jude-law_0x440.jpg

 

 

Entendo que se acabe com a tradição dos beijinhos das meninas ao ciclista vencedor e todas as formas tradicionais de decoração dos eventos desportivos à custa de mulheres contratadas. Mas a recomendação da FIFA para que não se filme as mulheres giras que estão na assistência é absurda, embora não surpreenda. Se estivermos de acordo quanto ao interesse de transmitir imagens de pormenores da assistência durante os tempos mortos do jogo, incluindo os momentos patuscos, ternurentos, jornalisticamente relevantes e também aqueles cujo interesse é apenas estético, o problema não é a câmara centrar-se numa mulher bonita que descobriu na assistência.

 

Para que a recomendação da FIFA faça sentido é preciso espalhar a ideia de que os realizadores dos canais institucionais que transmitem os jogos fazem zoom nos decotes e nádegas das mulheres, o que não me lembro de alguma vez ter acontecido, se exceptuarmos o caso peculiar que envolveu a paraguaia Larissa Riquelme - essas práticas existem sobretudo entre os fotógrafos. Também os comentadores reagem às imagens das mulheres vistosas controlando a espontaneidade, isto é, como se estivessem na presença de uma tia. Só por ingenuidade se pode pensar que o enquadramento das imagens e os comentários reflectem os olhares furtivos e o que realmente se passa na cabeça de um homem quando se cruza na rua com uma mulher sensual. Ora, se à custa de muitas cartas e telefonemas para a RTP ao longo de décadas e outras formas de ajustamento à evolução da nossa sensibilidade colectiva chegámos já a este nível de domínio dos impulsos mais primitivos, que fez inócuas as imagens mulheres giras nos estádios de futebol, ao ponto de poderem ser vistas na mesma sala pelo adolescente borbulhento e seus pais sem grande perturbação da paz doméstica, para quê acabar com o prazer absolutamente inocente de ver uma mulher gira depois de uma bola sobre a trave e antes do pontapé de baliza? 

 

Obviamente, a única mudança que faz sentido é começar a mostrar também homens giros. Se quisermos levar o caso mesmo muito a sério, podemos até, a bem da paridade, criar estatísticas sobre a exposição de mulheres giras e homens giros na assistência. Mas as feministas não propõem esta medida de elementar bom senso por serem vítimas das suas próprias formulações. O "male gaze" que tem de serivdo a tanta teorização transforma qualquer homem numa caricatura libidinosa de impulsos incontroláveis, quando abundam os exemplos - e descrevi um no parágrafo anterior - de que é possível chegar-se a um destaque da mulher gira que é mais estético do que sexual. Um homem que afirme não ver em Jude Law nenhuma beleza ou sensualidade acima da média ou não perceber o consenso quanto ao seu apelo físico ainda que dele discorde, mente ou então é uma criatura diminuída na sua faculdade de apreciar a beleza. Qualquer homem heterossexual é também capaz de encontrar na assistência homens giros e mostrá-los com o mesmo grau de sublimação com que as mulheres anónimas da assistência passam nas transmissões televisivas oficiais. Mas as feministas preferem perder uma oportunidade para contrariar uma das formas mais primárias e subliminares de homofobia (a ideia de que os homens heterossexuais não sabem ou não devem avaliar outro homem) em favor de um caminho que só conduzirá a um puritanismo absurdo e hipócrita. Eis um caso exemplar de desarticulação nas políticas identitárias. 

 

Um dos grandes momentos da televisão que presenciei este ano aconteceu quando Fernando Mendes, numa daquelas inúmeras tertúlias sobre bola, fez comentários elogiosos ao aspecto físico de um jogador. De repente, instalou-se um enorme desconforto entre o painel constituído apenas por homens para lá da meia idade e Fernando Mendes insistiu no assunto, com gozo evidente. É o que tem de ser feito e, muito sinceramente, se as feministas não estragarem tudo, ainda podemos retomar o bom caminho. 

12
Jul18

Qual é a vossa coutada de irracionalidade?


Eremita

Para muita gente, é o clube de futebol. Não tenho essa relação com o Sporting. Não sei sei há alguma vantagem em manter coutadas de irracionalidade, apesar de ver com simpatia a ideia de que, podendo funcionar como sorvedouros de defeitos, nos deixam mais capazes de agir e pensar correctamente quanto a tudo o resto. São duas as minhas excepções em que a irracionalidade impera: o Japão e os japoneses (a melhor nação e o melhor povo do mundo) e a localização geográfica da Batalha de Ourique. Nunca discutam estes dois temas comigo, pois seria uma pura perda de tempo. 

12
Jul18

Cinco Reis Muçulmanos para Dom Afonso Henriques?


Eremita

Portogallo_Alentejo_Alfonso_Henriques.jpg

Como disse antes: é impossível alterar o passado. Mas podemos alterar o presente. Mas para alterar o presente precisamos compreender e reconhecer o passado. Como maneira de reconhecer a história complexa e interrelacionada de Portugal e África, e da própria escravatura, e para contribuir para a criação de uma narrativa arqueológica das futuras gerações, faço uso de uma sugestão de Linda Heywood, historiadora e professora na Universidade de Boston, EUA. Numa palestra sobre o seu livro Nzinga de Angola. A Rainha Guerreira de África (editado em Portugal pela Casa das Letras, 2018) na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa no último dia 10 de maio, a historiadora sugeriu que Lisboa tivesse uma estátua de Rainha Njinga. Creio que a sugestão deve ser considerada, uma vez que esta figura feminina africana representa a complexidade da história da escravatura. Além de ter rompido estereótipos de género ao liderar verdadeiros exércitos, Rainha Njinga possuiu escravos e também os vendeu, tendo assim participado no tráfico de escravos. No entanto, também defendia que havia limites de quem poderia ser ou não ser escravizado e também lutou contra os colonizadores portugueses. No fim da sua vida, converteu-se ao cristianismo e fez as pazes com Portugal. Quem sabe se a materialização de uma Rainha Njinga no espaço urbano de Lisboa nos ajude a despir-nos de uma visão maniqueísta da escravatura? E quem sabe se, ao despir-nos de uma visão maniqueísta da escravatura, conseguimos reconhecer melhor o passado? Cláudia Silva, Público

Ainda não sujeitei esta proposta à tortura da lógica que devemos aplicar a qualquer opinião, nomeadamente as opiniões originais. Foi a originalidade o que me atraiu. Em vez de um revisionismo histórico que nos obrigue a tirar dos pedestais todos os homens brancos que se destacaram no nosso passado mas praticaram actos que hoje condenamos, teríamos um revisionismo histórico que daria pedestal a todos os protagonistas de outras etnias que também se destacaram, independentemente de terem igualmente praticado actos hoje censuráveis. A ideia, se a percebi bem, é manter os critérios de selecção e alargar a base de recrutamento, adoptar um All Bastards are Equal Act. Assim, em nome de uma visão da História adulta, isto é, que reconheça a realpolitik, mas também multicultural, veríamos materializada em alguma rotunda ou até numa praça uma estátua da rainha Njinga, que também teve e vendeu escravos. Não sei sinceramente o que pensar. Levada ao extremo, a política identitária cria absurdos - se cada grupo identitário se for fragmentando em subgrupos até à atomização, isto é, até ao indivíduo, cada um de nós ganha o direito a propor a sua estátua (en passant, que não demore a estátua do Vitor Silva Tavares!), e podemos vir a ter mais estátuas em Lisboa do que habitantes ou mesmo turistas. Mas argumentar com slippery slopes improváveis é uma péssima forma de discutir, sobretudo a política, que é a arte do possível, do entendimento,  da ponderação. Por isso, convoquei o Fausto, que já está a preparar um relatório sobre as vantagens e os perigos de colocarmos junto à estátua do Dom Afonso Henriques, alusiva à Batalha de Ourique*, uma estátua dos cinco reis mouros que ele derrotou ou então - estamos atentos, podemos sempre inovar a inovação - de um elemento anónimo da infantaria mourisca. Aguardemos. 

 

* [paráfrase]: Discutimos Deus e a virtude. Discutimos a pátria. Discutimos a autoridade e o seu prestígio. Discutimos a família e a sua moral. Discutimos a glória do trabalho e o seu dever. Mas não pomos em causa que a batalha de Ourique ocorreu perto da actual vila de Ourique e quem o fizer será imediatamente censurado.

10
Jul18

Delayed gratification


Eremita

Agora que os doze miúdos, o jovem treinador e, exceptuando o mergulhador que morreu, todos os restantes elementos das equipas de socorro saíram ilesos desta incrível história, mas não sem antes ter libertado a tensão acumulada ao longo destes dias, falado com a L. como se os tailandeses fossem nossos vizinhos e de nó na garganta quando ela me relatou, com emocão, a nobreza, altruísmo, humildade e coragem do treinador de 25 anos, tendo a seguir prolongado esta grande e rara alegria lendo vorazmente sobre o assunto e indo em busca das inúmeras ilustrações inspiradas que foram sendo feitas um pouco por todo o mundo sobre o que parece ter sido um dos mais expressivos instantes de empatia global dos últimos anos, talvez já não seja precipitado, antes pertinente, mas em todo o caso não mais adiável, sugerir a Elon Musk que enfie o raio do mini-submarino pelo cu acima e documente no Twitter como a invenção vai vencendo as partes mais sinuosas do seu intestino grosso. 

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