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Ouriquense

31
Jul18

De novo a questão racial

Vasco M. Barreto

A convite de António Guerreiro, escrevi recentemente um artigo para a Electra, que deve aparecer no próximo número (o terceiro) da revista. O artigo é um desenvolvimento de uma questão sobre ciência e ética que trouxe para o Ouriquense e centra-se nas diferenças no Q.I. médio de brancos e negros norte-americanos. Obviamente, as questões raciais não se esgotam neste tópico e quem se interessa pelo assunto deve apreciar esta nova conversa de Sam Harris, desta vez com Coleman Hughes,  um brilhante jovem de 22 anos que tem vindo a ganhar protagonismo desde que começou a publicar na Quillette artigos sobre questões raciais. A tensão mais interessante que este assunto gera é entre os intelectuais negros que play the race card (Ta-Nehisi CoatesMichael Eric Dyson, Cornell West...), muito apreciados pela esquerda norte-americana, e os intelectuais que irritam a esquerda por não estarem dispostos  a usar a herança da escravatura e o racismo vigente como explicações eternas para as estatísticas mais negativas das comunidades negras norte-americanas (Coleman Hughes, Glenn Loury e John Mcwhorter, Thomas Sowell...). Boa escuta e boas leituras.

31
Jul18

Ressacando Robles: o que é ser de esquerda?

Vasco M. Barreto

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Ando demasiado cansado (fisicamente) e sem tempo para investir o necessário nesta questão, mas é a única que sobra do caso Robles, depois de esgotados todos os ajustes de contas e apanhadas com as pontas dos dedos lambidas as últimas migalhas deste grande festim de indignação. Não se trata de branquear Robles. Um político, sobretudo um político moralista, está sujeito a um escrutínio que não se aplica aos outros cidadãos. Não se trata também de definir o pensamento de esquerda, que está para lá de cristalizado. Sem recorrer a bengalas da História e slogans, eu diria que o pensamento de esquerda emana de um desconforto profundo com as assimetrias de berço que nos leva a defender formas de redistribuição da riqueza, entre outros privilégios de linhagem, e a encarar com algum cepticismo a meritocracia. Mas não é a ideologia que Robles nos força a confrontar, antes a prática. O que é um comportamento de esquerda, admitindo que não se deve esgotar no voto à esquerda e na defesa verbal ou escrita das ideias e partidos de esquerda? Não esqueci que o caramelo me pediu que definisse a "esquerda caviar", pois é muito provável que seja a mesma questão, apenas numa formulação mais provocatória e já com o dedo na ferida. 

Continua

 

 

 

27
Jul18

O melhor texto sobre Robles, uma previsão e um peixe de águas profundas

Vasco M. Barreto

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fonte

A dificuldade que a esquerda tem em lidar com este caso não é apenas um exemplo de sectarismo, pois é muito reveladora da superioridade moral do esquerdista. Perante a contradição óbvia entre o que Robles diz e faz, perante as suas embaraçosas justificações, ao esquerdista empedernido só resta o estado de negação e a derradeira panaceia para as discussões incómodas que é o argumento da "falta de prioridade". Veja-se esta figura ridícula de Inês Pedrosa, sem nunca reconhecer que o prédio que Robles e a irmã reabilitaram esteve efectivamente à venda por uma pipa de massa, nem a dúvida legítima que a compra por tuta e meia de um prédio à Segurança Social levanta, sobretudo quando o comprador é alguém com contactos privilegiados na CML. 

 

O que me parece mais absurdo nesta história nem sequer foi Robles ter agido como se quisesse mesmo acabar com a sua carreira política, mas não ter aproveitado o seu investimento para moralizar. Se percebi bem, o homem e a irmã converteram cerca de um milhão de euros em 11 apartamentos com 28-41 m2 e 3 lojas recuperados numa zona histórica de Lisboa. Se, ao invés de ter entregado o negócio a uma imobiliária, que anunciou o prédio a um preço escandaloso e frisando as suas características ideais para "short term rental”, Robles e a irmã tivessem controlado a rentabilização futura do investimento e optado, desde o princípio, pelo arrendamento de longa duração a preços ligeiramente abaixo dos do mercado, ainda seria um investimento rentável - embora muito menos apetecível - que teria preservado e talvez até fortalecido a carreira política de Robles, apesar da dúvida que permanece sobre o conflito de interesses. Infelizmente, é só a posteriori que o caminho virtuoso nos parece evidente, sobretudo quando é o caminho que os outros deviam ter seguido.

 

Adenda: entretanto, Luís Fazenda abre a primeira brecha no Bloco. Robles só não cairá se o PS entender que é mais vantajoso mantê-lo para ir desgastando o Bloco e a imprensa de direita, fazendo outras contas, chegar mesma à conclusão. Mas como é pouco provável que o PS e a direita se entendam e a direita tem demasiados anticorpos contra o Bloco para reagir com frieza, o mais provável é que Robles caia esta semana. Seja como for, o destino de Robles já não está nas mãos do Bloco. 

 

Nova adenda: foi até mais rápido do que imaginei. Obviamente, evitaremos voltar a ouvir à luz deste desenvolvimento as declarações categóricas proferidas por líderes do Bloco nos últimos dias, pois seria demasiado malicioso. Quem sai bem desta história? Fazenda, Luís Fazenda, que emerge como o peixe de águas profundas (todo o partido tem o seu). 

A ortodoxia do Partido Comunista Português fez com continuasse a ser, ainda hoje, um partido importante e influente na sociedade a que pertence. Esse posicionamento foi mantido com sacrifícios, incompreensões, deserções, ameaças diversas, mas resistiu e permitiu que sobrevivesse à queda do muro de Berlim, ao contrário dos partidos comunistas europeus, que desapareceram ou se tornaram completamente irrelevantes. Isto só foi possível porque o Dr. Álvaro Cunhal soube sempre que um partido comunista, em terras de capitalismo, não sobreviveria à influência preponderante dos gramscianos saídos das universidades e das famílias burguesas, meninos com ideias que não correspondem a qualquer experiência ou sentimento de vida, que as trocariam pelo primeiro cheque gordo que lhes pusessem à frente do nariz. Por isso, Álvaro Cunhal, ele mesmo um intelectual que sabia do que a casa gastava, nunca lhes deu demasiada importância e preferiu sempre, para as posições de destaque nos órgãos do partido, pessoas com uma história de vida forjada no mundo do trabalho operário, tradição que ainda hoje se mantém. Aos «intelectuais», trazia-os sobre olho e de rédea curta, e sempre que algum levantava a voz, durava o tempo de um fósforo. O Dr. Álvaro Cunhal e a elite dirigente do Partido Português tinham, e têm, inúmeros defeitos, mas de falta de coerência não podem ser acusados. É por isso que nunca lá encontraremos um caso como o de [o] vereador Robles. No PCP não há lugar para meninos mimados, nem para burgueses emplumados com ideias que não passam de retórica de ostentação. Esse é, por definição, o terreno do Bloco de Esquerda. rui a., Blasfémias

24
Jul18

Carta aberta às colegas de Sara Sampaio

Vasco M. Barreto

Sí, lo confieso. Yo fui testigo del paso de Sara Carbonero por la facultad de Ciencias de la Información de la Universidad Complutense de Madrid (y ella del mío, aunque no se acuerde, todo sea dicho de paso). Y aunque yo terminé la carrera y ella no, lo cierto es que su vida le ha ido muchísimo mejor que la mía." María Jiménez, Tribus Ocultas

Eis um dos artigos mais extraordinários do ano, muito revelador dos tempos em que vivemos. Como explicar esta extraordinária demonstração de inveja nua numa sociedade que inventou a expressão "envidia sana"? Não é possível saber se a autora é mais estúpida ou muito mais inteligente do que o cidadão comum. A plena assunção pública da inveja, do ressentimento ou até da frustração só não tem uma dimensão de kamikaze porque aos pobres jovens japoneses que deram a vida na tentativa de afundar a armada norte-americana não era dada outra opção. O voluntarismo do gesto de María Jiménez quebra uma convenção social, que é o pudor com que censuramos a derrota no espaço público. À sociedade interessam os derrotados a quem conseguimos associar alguém vitorioso, como sucede nos jogos e em todas as competições explícitas, pois não há vencedores sem vencidos. Mas quando o vencido tenta ganhar protagonismo, violando a sua condição de figurante imprescindível e efémero ao assumir-se como derrotado numa competição que só ele sente e a só ele importa, quebra uma regra não escrita e gera um desconforto difuso.

 

María JIménez sentiu um pico de fama, ainda que na condição de criatura infame, pois o artigo que escreveu será o que mais visualizações terá em toda a sua carreira mediana. Nesse sentido, terá sido inteligente e ousada. Só que o gesto fez dela a ressabiada suprema. É possível que o grau de inteligência pouco explique. Há em Maria Jiménez um derradeiro desespero combinado com ambição que lembra Heróstrato, o pirómano grego disposto a destruir uma das sete maravilhas do mundo só para ficar a qualquer preço na História. Mas se ainda hoje nos lembramos do grego apesar dos esforços das autoridades de então em fazer esquecer o seu nome, Jiménez não foi suficientemente longe no seu desespero. A actualidade muda tão depressa que ninguém se lembrará de María Jiménez daqui a uma semana. Até do nome do assassino de John Lennon já poucos hoje se lembram. 

 

Sara Carbonero foi colega de Maria JIménez na faculdade. Há algum anacronismo no artigo, pois a faculdade já não é - nunca foi, aliás - garantia de sucesso para ninguém. De certa forma, uma colega de Carbonero no liceu, na primária ou na creche poderia ter esrito o mesmo artigo. Em algum momento nos cruzamos na vida com alguém que virá a ser muito mais famoso e bem-sucedido do que nós e é inevitável que as perguntas nos ocorram: o que fez ele para merecer o que eu não consegui? O que não fiz eu para não ter o que ele tem? Dependendo da personalidade de cada um, este é um exercício que nos pode deixar deprimidos ou indignados. Como, então, nestes tempos em que a fama se busca pela fama e os likes e as "visualizações" transformaram tudo em métrica, podemos evitar a depressão ou a indignação?

 

Existe a hipocrisia, claro. Na MPB, parece que todos os músicos brasileiros se adoram, mas tamanha magnanimidade, falsa ou genuína, só acontece a partir de um grau mínimo de sucesso, ou seja, entre elites. Precisamos pois de estratégias ao alcance de todos. Não sendo o Ouriquense um blog de personal coaching, abro uma excepção e ofereço-vos duas estratégias. A primeira: cultivarás um estilo. No magnífico Os Passos em Volta, Herberto Helder lembra a importância do estilo. O estilo é uma couraça que nos protege da comparação. O estilo está para a nossa sobrevivência social como a busca de um novo nicho ecológico para a existência das espécies. Se desenvolvermos um estilo que nos distinga, deixaremos de ser um daqueles carros uniformizados usados nas corridas em que apenas o talento para conduzir conta, e assim nos libertamos das agruras da comparação. Estilo. Modo de vestir, de estar, de ser, estilo de vida, uma constelação de interesses única que nos distinga. Mas é preciso mais. Eis a segunda estratégia: serás megalómano na inveja. Invejem em grande. Invejem apenas os que estão distantes no tempo, de preferência mortos, ou aqueles que estão longe no espaço, de preferência em alguma estação orbital. Não invejem os colegas de faculdade, os colegas com quem partilham o escritório, o tipo mais brilhante do vosso local de trabalho. Invejem Einstein, Leonardo da Vinci, a Cleópatra... A inveja megalómana é uma das raras combinações de defeitos que se sublimam em virtude. Seguindo estas duas regras, nenhuma das colegas de liceu de Sara Sampaio será a próxima María Jiménez. 

 

22
Jul18

O fim da democracia em Israel

Vasco M. Barreto

Tem razão Pacheco Pereira (JPP) quando associa o fim da democracia em Israel à aprovação da Lei Básica: Israel - Estado-Nação do Povo Judeu no dia 19 de Julho de 2018, um processo muito bem contextualizado por José Pedro Teixeira Fernandes e cujo resumo da lei copio: “1. O Estado de Israel. a) Israel é a pátria histórica do povo judeu na qual o Estado de Israel foi estabelecido. b) O Estado de Israel é o Estado-Nação do povo judeu, no qual este efectiva o seu direito natural, religioso e histórico à autodeterminação” [...]. 3. [A] unificada e completa [cidade de] Jerusalém é a capital de Israel”. 4. A Língua do Estado de Israel. a) O hebraico é a língua do Estado. b) O idioma árabe tem um status especial no Estado; a regulamentação da língua árabe nas instituições do Estado […] será regulada por lei.” Escreve JPP: "Agora, passa a haver uma situação que institucionaliza o estatuto de cidadãos de segunda, aos árabes israelitas, muitos dos quais, aliás, são cristãos, retirou o árabe de língua oficial de Israel e tornou Israel uma variante de Estado mais parecido com a teocracia iraniana". Este trágico acontecimento tem uma virtude ao clarificar e assumir uma tendência que sempre existiu em Israel e é neste momento maioritária (62 votos a favor, 55 contra). Os árabes israelitas já viviam e continuarão a viver em ghettos, já estavam e continuarão a estar privados de benefícios sociais por não terem feito o serviço militar, já eram e serão discriminados pelos senhorios, pelo direito de propriedade, por viverem em bairros que não beneficiam de serviços municipalizados como a recolha de lixo e a iluminação pública, por terem as suas crianças em escolas que recebem menos financiamento estatal do que as escolas dos israelitas judeus, já para não falar na lei que permite prender quem representar um perigo potencial, que na pratica só manda palestinianos aos milhares para a cadeia. Assim, pouco ou nada mudou. Mas o simbolismo da lei conta e põe os hipócritas em xeque. Quem defendia Israel por ser a única democracia naquela região do planeta terá agora de encontrar outros argumentos, ainda que o fim da democracia em Israel tenha resultado de um processo impecavelmente democrático. É que há, como se sabe, um outro conhecidíssimo exemplo histórico desse paradoxo. 

22
Jul18

O estado das artes

Eremita

Quando hoje em dia se esmiúçam as minúsculas diferenças entre a estética da presença, a estética neo-realista, a estética de lobos-solitários como Aquilino, Agustina e Vergílio Ferreira, e a estética da “política do espirito”, menoriza-se o quanto na verdade concordavam em demasiado acerca do que deveria ser uma “literatura portuguesa”, nomeadamente ruralista, realista, formalmente conservadora, vetada ao Modernismo, diferindo uns dos outros apenas em mais ou menos materialismo, mais ou menos pitoresco, casticismo e vernaculidade, mais ou menos aderência à propaganda dum “povo” imutável na sua “essência” desde os princípios do tempo. A metrópole era um espaço indigno da ficção. A cidade, a capital, foi o centro da ficção modernista: sem a Lisboa de Pessoa, a Paris de Proust, a São Petersburgo de Biely, a Berlim de Döblin, a Londres de Woolf, a Nova Iorque de John dos Passos, a Dublin de Joyce, não haveria Modernismo. Bem, Lisboa evaporou-se aí por volta de 1918. Ainda que Gaspar Simões fosse o autor de Pântano, romance lisboeta de recorte eciano, era-o também de Uma História de Província. Aliás, “histórias de província” resume sucintamente a melhor ficção anterior aos anos 60. Régio tinha Portalegre, Aquilino a Beira, Agustina o Minho, Torga a Montanha, Ferreira Évora, Tomaz de Figueiredo Arcos de Valdevez, e os neo-realistas qualquer canto de Portugal aonde ainda não tivessem chegado a electricidade e estradas asfaltadas. Quem hoje em dia situa a sua ficção nos bairros lisboetas nem se dá conta de como isso foi um direito há pouco adquirido. 

 

(...)

 

Frases curtas. Simples. Poucas orações coordenadas. Conjunções adversativas, népias. Palavras comuns. Léxico reduzido. Um tom neutro. Nada bombástico. Maria Judite não esteve à margem da batalha sem fim do seu tempo contra o vistoso, o “fazer estilo”, para tornar a linguagem literária um instrumento tão insípido que ninguém consegue reter uma única frase na memória por mais do que um dia, o que é sem dúvida o legado mais duradouro desta arte viva. Tão transparente é que é preciso redobrar a atenção para não a decretar medíocre. Pois nem ela nem os seus contemporâneos podiam gostar de presencistas e neo-realistas, mas subscreveram de bom grado as injunções de ambos contra o barroquismo, o formalismo, a pirotecnia e preconceitos afins. A verdadeira literatura é natural, é simples, é jornalística, e como em 1959 não se traduzia senão franceses, que já tinham ganhado a batalha pelo anti-retórico no século XVII, e como ainda ninguém lia por cá estilistas como Anthony Burgess e Vladimir Nabokov, nem os latino-americanos neobarrocos, nem nunca se dariam ao trabalho de descobrir Paul West e Carlo Emilio Gadda, nem sequer editariam o Grande Sertão: Veredas, e sabe-se lá como é que se lembraram de traduzir O Quarteto de Alexandria, e só com muito esforço toleravam Raymond Queneau...

 

(...)

 

É isto a arte viva de Maria Judite de Carvalho, que, para melhor e para pior, antecipa vários aspectos da ficção contemporânea. Uma literatura feita sobre os escombros dos sistemas de valores que davam sentido à vida. Uma literatura urbana e despolitizada, revalorizadora do quotidiano burguês e introdutora dum novo tipo de personagem desapropriado de qualquer possibilidade de esperança. Em que predomina uma sensibilidade a quem a simpatia pela humanidade não a impede de a condenar vezes sem conta e com justiça. Pouco imaginativa. Humor, muito pouco; seriedade, demasiada. Toda conteúdo e nenhum estilo, sem fazer a menor concessão à ideia antiquada de que a prosa deve ser bela. A beleza, claro, foi só mais outro dos valores desses sistemas que entretanto colapsaram. Os escritores da actualidade encontrarão aqui as suas humildes origens. Se parece que Tanta Gente, Mariana foi escrito a semana passada, bem, é porque foi; é que entre 1959 e 2018 o tempo literário se conta doutra maneira. Homem-de-Livro

O conhecimento intimida. Quando o blog Homem-de-Livro foi comentado com entusiasmo por alguns, logo se levantaram umas vozes criticando o seu barroquismo, a exibição de cultura, a arrogância de o autor escrever também - imagine-se! - em inglês. A verdade é que não existe hoje na imprensa quem escreva sobre livros como os bloggers do Homem-de-Livro e Homem à Janela. A explicação não se resume apenas à crise que o jornalismo atravessa, nem à impossibilidade de publicar prosa longa nos jornais. O Observador vingou, é digital (sem limitações de espaço) e tem da melhor crítica literária que podemos hoje ler na imprensa, mas o registo é diferente, sendo evidente a pressa em despachar prosa sobre a novidade literária e o cuidado em ajustar o tom ao nível médio do leitor, que é baixíssimo. Não encontrarão na imprensa - ou então surpreendam-me - um texto sobre ou a pretexto de Maria Judite de Carvalho mais informativo, rico na forma e cuidado na estrutura, apesar de a prosa da escritora ter sido reeditada recentemente. E é sintomático da perda de interesse na literatura e do nível a que se chegou não haver, ao fim de três semanas, um único comentário a este texto magnífico sobre Maria Judite de Carvalho. O conhecimento intimida, mas há limites. Seremos um país falhado se não houver umas dezenas de pessoas fora dos círculos académicos capazes de entabular conversa com o Homem-de-Livro. 

 

 

 

 

22
Jul18

Espanha rejuvenescida

Eremita

Foi muito bem lembrado e eu mostro os números. Portugal: Jerónimo de Sousa (71 anos), Rui Rio (60), António Costa (57), Catarina Martins (44), Assunção Cristas (43). Espanha: Pedro Sanchez (46), Pablo Iglesias (39), Albert Rivera (38). Pablo Casado (37).  Em média de idades, isto dá 55 para 40. Se fizermos uma média ponderada pelos resultados eleitorais de cada partido nas últimas eleições*, dá 56:40. A conclusão que eu retiro é óbvia: Portugal oferece-me uma ilusão de juventude que me sinto obrigado a reconhecer, embora não saiba bem a quem dirigir o agradecimento nem como pensar as consequências. 

 

* Eleições legislativas portuguesas de 2015, usando os dados de 2011 para distribuir os votos da coligação Portugal à Frente pelo PSD e PP; eleições legislativas espanholas de 2016.

21
Jul18

Sobre a catequese laica

Eremita

Por outras palavras, eu não posso ensinar a bondade às minhas filhas, mas posso ensiná-las a terem a guarda levantada em relação aos seus próprios pecados. Elas têm e continuarão a ter os seus grandes momentos de bondade, mas esses momentos nascem e nascerão da sua centelha, não da minha educação. Portanto, quando elas demonstram generosidade, devo ficar feliz por elas e agradecer a Deus. O meu orgulho deve ficar no saco. Este orgulho paternal só pode sair do saco quando elas entram num momento de contrição para pedir desculpa por um erro que cometeram - orgulho na educação cristã que lhes tento dar todos os dias com a ajuda de Deus. Henrique Raposo

Não vale a pena dar o desconto por ser literalmente prosa da Rádio Renascença, pois há muitos anos que Henrique Raposo exibe o seu catolicismo com orgulho. Também não tentarei desmontar a argumentação, que está assente em premissas questionáveis e nos remeteria para a incontornável disputa entre crentes e ateus quanto à origem da moral, que a Primatologia e a Psicologia Experimental deveriam informar. Eis o verdadeiro dilema: se o ateu reconhece eficácia à religião enquanto veículo de transmissão de regras de conduta e, em simultâneo, também desconfia do espectro das alternativas laicas, que vão do eco-vegetarianismo freako-kibutziano ao egoísmo objectivista ayn-randista, com uma larga faixa central em que impera uma difusa transmissão de bons sentimentos e decência através de exemplos sensaborões, sem partilha de um referencial comum legitimado pela tradição, passará a solução por ler a Bíblia às filhas? Reformulando: além do evidente bónus de cultura, já que o desconhecimento dos episódios bíblicos é uma marca de ignorância não erradicável pela estatisticamente garantida exposição na Páscoa ao épico Ben-Hur, haverá algum mérito numa catequese expurgada de fé e aditivada com espírito crítico? Não seria para já, pois ainda são muito pequenas, mas para quê ler-lhes as Ducla Soares da vida e deixá-las à mercê das editoras de livros infanto-juvenis se temos Mateus, Lucas, Marcos, João e até Paulo? 

19
Jul18

Prosa de estrangeirado

Eremita

Ouçam o Governo Sombra, o Eixo do Mal, o Bloco Central ou o cúmulo da fulanização da análise que é o Comissão Política, o podcast de política do Expresso. Salvo erro, são programas feitos por pessoas que sempre trabalharam em Portugal ou, para ser mais rigoroso e desconsiderar eventuais estudos feitos no fora do país, que nunca pagaram impostos no estrangeiro. Leiam depois este artigo de Nuno Garoupa, o luso-politólogo do Texas. Será uma experiência parecida com aquela prática, comum nas estâncias termais, em que se passa rapidamente de uma piscina de água quente para uma de água fria. 

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