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OURIQ

Um diário trasladado

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Um diário trasladado

08
Jun18

Bourdain


Eremita

anthony-bourdain.-back-cover-photo.-appetites_wide

 fonte

Anthony Bourdain, Chris Cornell, Philip Seymour Hoffman, Robin Williams... Que me perdoem as feministas pela falta de paridade, pois não sei se a lista reflecte o meu viés, uma sociedade que favorece o protagonismo dos homens ou o facto indesmentível de os homens serem mais competentes do que as mulheres quando decidem pôr termo à vida. Fica a tese: a partir de uma certa frequência de suicídios de gente famosa, o efeito Werther (a emulação do suicídio) começa a perder terreno para uma prostração causada por uma espécie de angústia da influência. Com tanta gente bem sucedida e admirada a matar-se, o suicídio passa a ser uma área extremamente competitiva e o melhor é uma pessoa agarrar-se à vida. 

 

Adenda: quem estiver com ideias suicidas deve telefonar para estes números.

08
Jun18

Chico no Coliseu de Ourique


Eremita

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Apesar da contenção orçamental que tem impedido as antes frequentes deslocações a Lisboa do único surfista vivo de Ourique, ontem abrimos uma excepção para ouvir Chico Buarque através do teatrofone. A foto, tirada pelo surfista, mostra o cantor já na parte final do concerto que deu no Coliseu dos Recreios. Em Ourique a recreação foi total, a L. irradiava beleza e felicidade, e até as gémeas, que ainda a horas toleradas pela Comissão de Proteção de Menores ficaram um êxtase induzido pelo sublime Retrato em Branco e Preto* e não mais fecharam o olho, lá pelas onze da noite e trinta começaram aos pulos na cama durante a parte mais mexida de Tanto Mar. Quando tiver tempo, copiarei para aqui uns parágrafos de um belo texto de 1989 que Eric Nepomuceno escreveu sobre Chico Buarque. E juntarei também algumas linhas minhas em que exploro a dificuldade e o encanto de escrever sobre aqueles que são melhores do que nós.

 

06
Jun18

Sobre uma barata


Eremita

Acumulo cinco funções domésticas em regime quase exclusivo: preparar um pequeno-almoço frugalíssimo para quem madruga, lavar a loiça, levar o lixo até um contentor ou ao ecoponto da vila, espezinhar baratas e velar pelo sono das mais novas das nossas meninas. Trata-se de um conjunto de competências herdeiro da tradição, pois espezinho baratas movido por uma responsabilidade de macho protector que me força a vencer uma repulsa natural pelo insecto rastejante, mas que incorpora já a segunda vaga do feminismo, ainda que a minha recusa em calçar as habituais luvas da loiça cor-de-rosa possa ser entendida como um comportamento atávico ou de quem "tenta ser tão progressista quanto pode, mas desde que não precise de se esforçar muito" (Lou Reed).

 

A minha competência como exterminador de baratas tem sido posta em causa de um modo recorrente ao longo de vários anos. É uma campanha vil, caluniosa, persistente, implacável, ingrata. Acusam-me de não ser suficientemente rápido a responder aos apelos e de nada me serve frisar que só aceito a tarefa se estiver calçado. Ora, se ainda admito que certas situações, como estar despido num quarto com um gato em movimento, causem grande desconforto apenas ou sobretudo aos homens, esmagar uma barata com a planta do pé desnuda, para sentir na pele a quitina crocante e logo depois o frio da hemolinfa do insecto, é algo que causa uma repulsa universal e que não se exige a ninguém, excepto em casos de vida ou morte. Ontem, após ter falhado um gesto de dificuldade considerável, as críticas subiram de tom e revestiram-se de um inusitado grau de detalhe técnico. Caro leitor, acusaram-me de não ter calculado a trajectória do meu pé tendo em consideração o movimento de fuga do insecto. Só me resta recorrer ao Ouriquense para repor a verdade. 

 

A barata apareceu depois do jantar. Para calar as más línguas, adianto que bebi água à refeição. E friso a dificuldade do gesto: não só o axadrezado do chão da cozinha se presta a ilusões de óptica que perturbam a mira, como a barata se encontrava algo dissimulada num dos ladrilhos pretos, muito perto do rodapé e com 180 graus de possíveis trajectórias de fuga. É completamente falso que tenha atacado o insecto sem ter calculado o seu mais previsível movimento de fuga dianteiro na direcção de uma abertura entre os móveis, isto é, que tivesse apontado o pé para a posição da barata e não para a posição em que a barata se encontraria quando o meu pé estivesse prestes a assentar no chão. Falso. Não só calculei, como registei no cérebro aquele momento, pensando: "eu estou a computar a trajectória previsível do meu alvo, diante desta indefesa barata a minha superioridade cognitiva será esmagadora". Não era simples bazófia interior, era mais uma espécie de presciência de quem sabia que podia ser chamado a dar explicações e precisaria de uma memória viva, inquestionável, hiperconsciente, capaz de resistir à erosão provocada pela poderosa máquina judaico-cristã de culpabilização cujas engrenagens se põem a mexer sempre que há alguma suspeita genérica e tensão no ar, levando-me inúmeras vezes a gritar, inclusive em repartições públicas: "I'm Spartacus!" Comecei por ver a barata, mas a imagem logo passou a ser a de um cyborg com rudimentos de física newtoniana e visão assistida por software de processamento de imagem que junta vectores aos objectos e mostra contadores em tempo real na parte mais periférica do campo visual. Como nos filmes, portanto. A verdade é que falhei, mesmo pensando inicialmente que a tinha esmagado. A barata escapou-se seguindo a trajectória previsível, pelo que o meu erro não foi de planeamento, mas de execução - no fundo, a história da minha vida, que fez com que viesse parar a Ourique e não à Ivy League da academia norte-americana. Mas como explicar isto tudo sem perder a cabeça? Como alimentar uma discussão conjugal sobre a arte de matar baratas, quando a sociedade só nos preparou para discussões sobre a posição da tampa da sanita? Irritei-me, claro. À evidência de decrepitude física quiseram juntar uma estupidez que renego e foram injustos, mas a consciência de estar a discutir como se espezinha uma barata funcionava contra mim: "... se eu morrer neste preciso momento de exaltação, como serei recordado?" 

 

Adília Lopes imortalizou as baratas no seu famoso poema "Os meus gatos / gostam de brincar / com as minhas baratas", que já foi alvo de interpretações profundíssimas. Em entrevistas, aprendemos que as baratas da Adília lhe aparecem na cozinha, exactamente como a barata de ontem. Na nossa casa, felizmente, não entram gatos, mas por causa das minhas baratas andam a brincar com os meus sentimentos há muitos anos. 

05
Jun18

Racismo na Feira do Livro


Vasco M. Barreto

Racismo na FL.jpg

 Foto da página de Facebook de Bárbara Bulhosa, via Da Literatura

Não assisti, mas confio no relato de Bárbara Bulhosa. Sábado, um debate sobre racismo, organizado pela editora Tinta da China a pretexto do livro Racismo no País dos Brancos Costumes, da jornalista Joana Gorjão Henriques, foi sabotado por uma assalariada da APEL, de seu nome Beatriz Reis. Fardada com uma camisola da associação, a mulher referiu-se aos membros da mesa (Ana Tica, Beatriz Dias, Mamadou Ba, Raquel Rodrigues e a autora do livro) como «esta gente», várias vezes os interrompeu com comentários de mau gosto e, a dez minutos do final da sessão, interpelou Mamadou Ba, dirigente do SOS Racismo, com um intempestivo «Vê lá se te despachas!» A sessão terminou ali. A mulher continuou: «Com a Tinta da China é sempre isto, quem julgam que são?» Isto no meio de um «chorrilho de insultos». Abominável. Eduardo Pitta, Da Literatura
Só mesmo a extraordinária Helena Matos se lembraria de, a propósito do episódio relatado por Eduardo Pitta, nos recordar que também há por aí gente que anda a calar outros cantando "grandoladas". Helena Matos está tão embriagada em ideologia que é incapaz de usar o seu relativo mediatismo para criticar o que se passou, preferindo explorar o episódio a partir do ângulo da dualidade de critérios, que é a única chave que a ensaísta usa para entender o mundo. Esta visão sectária, além de poluir o espaço público, é extremamente empobrecedora. Porque o que aconteceu na Feira do Livro, ainda que um mero e inconsequente incidente provocado por uma funcionária, tem uma carga simbólica óbvia, tendo em conta os protagonistas e o livro que estava a ser apresentado. Isto é tão evidente que já devem circular por aí as teses de que foi tudo montado e de que se estão agora a vitimizar. Mas o episódio é também - e sobretudo - um sinal de um tempo novo, em que o colonialismo e o racismo começam finalmente a ser discutidos entre nós, com a particularidade de a discussão se fazer agora com a participação recorrente e em pé de igualdade dos intelectuais negros. É essa a grande novidade. Habituem-se. 
 
 

 

05
Jun18

Boy George


Vasco M. Barreto

João Pedro George, hoje um autor com uma produção assinalável como crítico, biógrafo e ensaísta, continua a ser o crítico desalinhado que partia a loiça toda no começo do século. Eis uma vitalidade que aprecio.  

 

Não contem comigo para, a propósito deste ou doutros casos no passado, atestar o óbito da crítica. Porque o cadáver que é preciso enterrar, hoje, é a crítica jornalística, essa é que entrou em colapso, não a crítica em si, entendida como capacidade de descrever, analisar, interpretar, avaliar e julgar. Esta pratica-se hoje noutros lugares, na Internet, não nos jornais ou revistas em papel, onde também é certo que o espaço e o tempo que os críticos dispõem para escrever recensões é cada vez menor: as críticas deixaram de ser crítica literária e passaram a ser notas de leitura, textos curtos com uma linguagem cada vez mais uniforme, que se aproxima muito do discurso das badanas e contracapas (para não falar das condições de trabalho, cada vez mais precárias, e dos honorários, cada vez mais baixos).               Que os leitores se não iludam: a crítica que vive, aquela que incomoda, que mete o dedo (ou a mão toda) nas feridas, que diz o que ninguém quer ouvir, que se opõe e protesta de forma exigente e independente, que excita consciências, que questiona o nosso aqui e agora, está em alguma Internet, está no Facebook, está nos blogues [1, 2], está em alguns jornais e revistas digitais. João Pedro George

01
Jun18

As melhores e as piores opiniões sobre a eutanásia


Vasco M. Barreto

As melhores

Atitudes Passivas e Gestos Activos: a Diferença Importa? Pedro Cabral

Eutanásia, Golpe de Misericórdia? António Leitão

Liberdade, Dignidade e Autonomia na Vida e na Morte Paulo Trigo Pereira

Por uma Ética da Transgressão? Joel Lourenço Pinto

 

As piores (excluindo as de muitas pessoas por quem não tenho especial consideração intelectual)

A Política da Morte Rui Ramos

A prestação de Francisco Mendes da Silva neste Sem Moderação, um caso paradigmática do liberal no seu labirinto.

Para breve: as razões da grande participação das mulheres no debate sobre a eutanásia e as ilações a tirar. 

 

 

 

 

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