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Ouriquense

27
Jun18

A insustentável candura de Fiolhais e Marçal

Eremita

A ideia nem sequer é original. Há poucos anos esteve patente na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, uma exposição intitulada “360 Ciência Descoberta”, precisamente sobre os avanços no conhecimento que permitiram as descobertas e conduziram à ciência moderna. A nossa proposta seria um museu com um pé no passado, mas a olhar para o futuro, pois há muito ainda para descobrir no mundo e em nós próprios, que fazemos parte do mundo. Hoje a ciência é a base da descoberta e o conhecimento a nossa chave para uma vida melhor e mais prolongada. Ah, e as descobertas também continuam. Por exemplo, já se descobriram mais de 3700 planetas fora do sistema solar, que orbitam mais de 2700 estrelas diferentes. Se um deles for habitado... não poderemos dizer que descobrimos os ET? Carlos Fiolhais e David Marçal, Público

 

Logo após o apito para o final de uma partida do campeonato do mundo de futebol decisiva, sobretudo se não for de um jogo em que esteja envolvida a nossa selecção mas que inclua alguma selecção que, de algum modo, nos interesse, ficam criadas condições para nos apercebermos do absurdo que é o investimento emocional na bola. Aconteceu comigo ontem, logo após o Argentina-Nigéria. O jogo poderá ser a ritualização da guerra, como gostam de lembrar os antropólogos, mas é sobretudo uma forma de lutarmos contra o aborrecimento. Outra forma de atingir o mesmo fim é a opinião forte. Em qualquer tema, imperam as opiniões extremadas. Nunca ficará para a história um estilista da opinião moderada. Talvez seja esse o problema do texto de Carlos Fiolhais e David Marçal sobre a polémica que envolve a designação de um futuro museu evocativo dos Descobrimentos. Ao não enquadrar a polémica nos binómios do costume, como o progresso vs. tradição ou pós-modernismo vs. o liberalismo conservador, insistindo numa interpretação cândida, etimológica e algo nerdie da palavra "Descobertas", os autores matam o debate. A sensatez tem o travo do fim de festa. 

 

 

 

 

 

26
Jun18

A literatura infantil é um logro

Eremita

Não tendo eu o fôlego sociológico de João Pedro George, duvido que consiga desmontar a fraude da literatura infantil contemporânea, mas conto discutir alguns dos livros que vou lendo às minhas filhas, sobretudo os muito maus. Livros como O Rapaz do Nariz Comprido, de Luísa Ducla Soares, exemplificam a falta de imaginação e o facilitismo que impera neste género literário. Havendo já um Pinóquio e um Cyrano, quem teria coragem de propor uma nova história com um rapaz narigudo? Só mesmo o escritor de livros infantis.

 

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O livro infantil goza de um estatuto de impunidade, sendo apenas posto em causa quando surge alguma polémica sobre a igualdade de género. Não se percebe muito bem como chegámos aqui. Enfim, talvez João Pedro George perceba, mas confesso-me perplexo. O epíteto "infantil" deveria obrigar-nos a subir a fasquia da exigência e a agravar a pena para quem não cumpre, como - de resto - sucede no Direito, mas passa-se precisamente o contrário. A literatura infantil é, como a fotografia, uma das artes (aparentemente) acessíveis; não há criatura famosa que resista à tentação de publicar o seu livro de fotografias de autor e o seu livrinho de literatura infantil. E os profissionais do género, as Ducla Soares da vida, escrevem livros infantis para alimentar um mercado que parece apostar na novidade. Esta gigantesca máquina de "produção de conteúdos", que tem por rodas dentadas editoras, livrarias, escolas e professores, corrompe autores e produz leitores maus e incultos, cheios de referências com uma relevância apenas circunstancial, assente na pura peer pressure que a máquina assegura. Sente-se na curta prosa de O Rapaz do Nariz Comprido, da repetição de fórmulas à desinspiração dos remates, a mão feita de Ducla Soares, o estilo automático, simultaneamente cansado e fácil, de quem já muito escreveu - é um fenómeno que ultrapassa a literatura infantil, pois podemos reconhecê-lo nas crónicas do Público de Miguel Esteves Cardoso, nos textos para a rádio de João Quadros, na prosa da Agustina tardia, enfim, em quem, por necessidade ou vício, precisa de parir prosa e tem muito métier mas deixou de ter ideias novas e entusiasmo. 

 

Defendo, há muitos anos, uma tese peregrina: o consumo cultural deve reger-se por uma das leis mais incompreendidas da Biologia, a da recapitulação. O que esta lei nos diz, não na sua formulação espectactular e fraudulenta de Ernst Haeckel, mas de acordo com os princípios da biologia do desenvolvimento, é que a Evolução funciona, em larga medida, por adição terminal, o que faz com que ao longo do nosso desenvolvimento passemos pelas fases do desenvolvimento embrionário das nossas espécies ancestrais. Por outras palavras, estamos presos a uma herança biológica e só nas fases mais tardias somos livres para experimentar variações que poderão ou não vingar e passar a integrar as novas etapas do desenvolvimento. Na transmissão cultural, o mesmo princípio geral devia ser regra. Contacto com produção original contemporânea? Talvez lá para os 14-15 anos. Antes disso é preciso transmitir o que a cultura apurou ao longo de milénios. Não se lê o O Rapaz do Nariz Comprido a uma criança. Damos o que o tempo provou que é bom. E se é preciso um pouco de inovação para vincular as obras à actualidade, então que se inove partindo dos elementos essenciais da cultura ocidental, das mitologias grega e romana ao cânone literátio, que são férteis em personagens e exigem um trabalho sério de adaptação para eliminar a carga libidinosa, os parricídios e demais episódios sanguinolentos. Na literatura infantil, a originalidade deveria ser um privilégio de pouquíssimos autores.

 

Meus caros, também eu invento histórias para as minhas filhas. Tenho até uma muito gira sobre uma uvinha que foge no cacho para não ser comida e vai rebolando pela casa toda de esconderijo em esconderijo, espreitando as meninas e sonhando um dia brincar com elas, o que acaba [spoiler warningpor acontecer quando se transforma numa bola (verde). Elas adoram esta história. Mas a sociedade deve reprimir o meu desejo de a transformar num livro infantil. 

 

 

 

 

 

 

 

 

24
Jun18

Calma. Eu continuo!

Eremita

[paráfrase de uma declaração fresquíssima de Bruno de Carvalho]

 

Por muito que me queira afastar, não consigo! Bem sei o que escrevi no último post, precipitado, ansioso, stressado... que não iria escrever até Setembro, mas NÃO consigo!!! Amo-te, Ouriquense, meu Ouriquense querido, e quero continuar a acreditar num Ouriquense que sobreviva aos Viscondes que nos tentam dominar, com eles e os seus lacaios remetidos ao seu lugar: calados!!! Eu bem queria mas não consigo. Até que os leitores me abandonem em definitivo, eu quero acreditar que há um Ouriquense que resiste aos Viscondes, a todas as eminências pardas que nos tentam impor uma existência indiferenciada, sem chama, que se extingue na consumação da vidinha, dos impostos, das contas por pagar, das pressões para uma - ah! - carreira que não chega a ser profissão nem sequer um emprego, quanto mais uma vocação, das obrigações inadiáveis de quem passa aos filhos o fardo da existência sem nada criar, como o tal cadáver adiado que procria. Não!  Perdoem-me as violações ao livro de estilo do Ouriquense, perdoem-me as tríades de pontos de exclamações, perdoem-me a precipitação. Nós somos o Ouriquense, um blog modesto do interior, popular, não de Lisboa, nem de Cascais, nem de semi-ricos! Eu posso perder, mas não vou desistir! Citando um ouriquense honorário: eu estou aqui. Resistiremos. Os Viscondes que se cuidem.

23
Jun18

Fechado para obras

Eremita

Por uma infeliz coincidência, todos os autores do Ouriquense estão envolvidos em demasiadas empreitadas. Voltaremos em Setembro, mais livres de afazeres. Boas férias.  

 

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14
Jun18

Aqueles que desiludem sempre

Vasco M. Barreto

Miguel Pinheiro acaba de fazer uma revelação que está a chocar o país: não podemos acreditar em Paulo Portas. Em 2018, o Observador avisa que não podemos confiar num indivíduo que na televisão afirmou convictamente não ter ambições políticas e viria depois a ser presidente de um partido, deputado e ministro; que não podemos confiar no ministro que, também na televisão, anunciou cheio de gravitas a "irrevogabilidade" da sua decisão de se demitir, para logo faltar à palavra, pressionado por dois homens que sempre desprezou, Cavaco e Passos Coelho; que, enfim, não podemos acreditar num indivíduo que é um exemplo caricatural daquilo de que se queixava o Barão de Teive (heterónimo de Pessoa), a saber: a impossibilidade de conciliar uma inteligência superior com o comportamento moral. Obviamente, a novidade não é a falta de credibiidade de Portas, mas a orfandade que Miguel Pinheiro deixa transparecer nesta extraordinária afirmação: "Paulo Portas conseguiu desiludir sempre". 

 

Ninguém tem uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão, mas do que precisamos mesmo é de uma outra frase batida para descrever os eleitos que têm a capacidade de desiludir sempre. Desiludir sempre... Este paradoxo sucede porque há gente com um poder de tipo encantatório ou hipnotizante sobre uns pobres coitados que encontram sempre forma de restaurar a esperança, como quem é reiteradamente atraiçoado pela mesma pessoa no amor ou os Miguéis da vida subjugados por uma figura carismática, contra quem pontualmente se revoltam mas a quem sempre regressam. Miguel Pinheiro intitula a crónica "O Meu Problema com Paulo Portas". É um título de grande rigor, que caracteriza uma parte substancial da direita lusa.

12
Jun18

Das redenções públicas

Eremita

O melhor episódio de podcast que ouvi nas últimas semanas foi - hands down - a maravilha produzida pelo brilhante Malcolm Gladwell sobre a falibilidade da memória. Meus caros, há vida além das polémicas envolvendo a orientação sexual, o Trump, a política identitária ou o Bruno de Carvalho. Lembram-se desta conversa entre Williams e Letterman, em que o jornalista teria mentido sobre a sua experiência na Guerra do Iraque?

 

 

Se tivesse tempo faria uma ligação entre o podcast de Gladwell e um livrinho muito instrutivo: The Memory Wars: Freud's Legacy in Dispute. Mas nunca há tempo para nada. Enfim, fica ao menos o repto: se, mais de vinte anos depois da publicação original, ainda nenhuma editora portuguesa traduziu The Memory Wars, somos uma nação falhada.

 

A propósito de nações falhadas e Freud, é pertinente lembrar que só agora Paulo Pedroso vai ser indemnizado pelo Estado e que na notícia da TSF se escreve "ex-deputo", o que pode ser um acto falhado desastrado ou uma sacanice, embora a juventude desmemoriada que impera nas redacções nos leve também a admitir que se tratou de uma infeliz coincidência. Já a deprimente leitura dos comentários à notícia não deixa qualquer margem para dúvidas: há algo de irredutível* na redenção pública. 

*No sentido da impossibilidade de um restauro perfeito.

 

Adenda a 13.6.18: entretanto, Paulo Pedroso escreveu sobre a indemnização a que teve agora direito. 

 

 

 

 

10
Jun18

Trémolo

Eremita

Excelentes vídeos sobre as diferentes combinações de dedos no trémolo. Bem sei que estes vídeos de guitarra clássica nada fazem pelas "visualizações", mas dá-me jeito ir arquivando aqui as preciosidades que vou encontrando. 

 

 

09
Jun18

9

Eremita

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fonte

 

Nona entrada de Canhotismo: a Coligação das Minorias ou simplesmente A Coligação das Minorias... ou A Educação de um Revolucionário... ou Julião: um Percurso Político... ou outro título qualquer. A nona entrada é primeira revelação dos manuscritos de Julião censurados pelo próprio. Julião escrevia o seu pensamento político à mão, usando uma caneta de tinta permanente que estava na família há duas gerações e, obviamente, tinha um aparo destro. A desadequação da caneta tornava a escrita penosa e não melhorava a caligrafia, mas era uma forma de Julião se motivar para a luta política. Curiosamente, Julião escrevia as suas cartas de amor ao computador, em Times New Roman, 12-point, por vezes pondo todo o texto em itálico, porque acreditava na grafologia e não gostava de se expor em demasia. Das várias bengalas que caracterizam o estilo de Julião, muito parco no uso de vírgulas, destacamos os termos e expressões da literatura científica e o "Companheiros" com que inicia muitos parágrafos, mesmo que nenhum destes textos tenha alguma vez sido proferido em público, pois Julião falou sempre de improviso. 

 

Sobre a interseccionalidade  [data ilegível por causa de uma mancha de manteiga]

 

Companheiros, levada às últimas consequências a interseccionalidade tende assimptoticamente para o liberalismo. 

 

Continua

 

 

 

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