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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

09
Mai18

Contradição performativa


Eremita

Socratologia

 

Até ao momento os processos judiciais envolvendo José Sócrates e Manuel Pinho parecem ter produzido um resultado: quem se sinta livre para apreciar de forma crítica qualquer actuação processual, desde logo do Ministério Público, ou qualquer aberração da imprensa, corre o risco sério de ser imediatamente considerado um apologista da corrupção, um vendido aos donos disto tudo, um defensor encarniçado e, logo, provavelmente também corrompido por aqueles que caíram agora em desgraça. Miguel Romão, Público

 

Sócrates vitimizou-se. Agora são os alegados defensores do Estado de Direito que se vitimizam. Podemos concordar com Romão quanto ao abusos que Sócrates tem sofrido da Justiça e da imprensa, sem que isso afecte a conclusão óbvia de que o homem está  - e deve permanecer - morto politicamente. Esta crónica maniqueísta de Miguel Romão é o exemplo perfeito da contradição performativa, pois ninguém o acusará de ser apologista da corrupção. A este fenómeno, que tende a manifestar-se nas facções minoritárias, chama-se (acabo de inventar isto) a embriaguez do underdog. É uma pulsão poderosíssima, capaz de operar milagres dentro das quatro linhas e até gerar actos de grande heroísmo. Mas não foi o caso. 

 

 

 

09
Mai18

Sobre o anonimato


Eremita

Nos primórdios dos blogs, discutiu-se muito a questão do anonimato. Não pretendo repescar esse debate bolorento, apenas deixar uns esclarecimentos. O Ouriquense é um blog escrito sob pseudónimo por capricho. Não há nenhum texto aqui que não fosse capaz de assinar com o meu nome. Aliás, a minha família, muitos amigos e conhecidos sabem que escrevo o blog e não me dou sequer ao trabalho de lhes pedir que guardem silêncio. Creio que o meu anonimato só não é um segredo ainda mais mal guardado porque não sou uma figura pública, antes um cidadão normal. 

 

O anonimato, como quase tudo, pode ser bom, mau ou neutro, dependendo do uso que lhe damos. Creio que, no caso do Ouriquense, não há vício nem virtude na forma como uso o anonimato; será um uso neutro. Não recorro ao pseudónimo para caluniar (o vício, que só os "socráticos" me atribuem) nem como exercício de liberdade de expressão ou para divulgar informação delicada e pertinente para a sociedade que me poria em perigo caso se soubesse quem sou (a virtude). Nunca escrevi um texto arriscado a denunciar algum poderoso ou algo do género que aumente a probabilidade de acordar com uma cabeça de cavalo na cama. Talvez por isso, isto é, por o pseudónimo ser um capricho dispensável, tenho sentido uma tentação crescente de abdicar dele, sobretudo desde que comecei a debater a actualidade, atraiçoando o espírito do Ouriquense. Enquanto escrevia só ficção e no registo autobiográfico, o pseudónimo era-me confortável e útil, pois ajudava a criar ambiente, a alimentar a  ilusão de que vivo em Ourique e obrigo a minha família a estar longe dos luxos da capital por motivação ideológica ou algo assim - como a personagem principal de The Mosquito Coast. Escrever um diário trasladado, isto é, transportar as experiências quotidianas do lugar onde estou para o lugar onde finjo estar, ainda me parece um exercício útil, mas é verdade que não o tenho praticado. Espero que volte a esse registo rapidamente, mas enquanto andar perdido a comentar a actualidade, o uso do pseudónimo será um incómodo.

 

Cada um saberá de si e há casos e casos, mas quando vejo alguém a falar em "coragem cívica" a propósito do que cidadãos sob pseudónimo defendem José Sócrates, apetece-me gritar "alto e pára a reinação", pedir time out e levantar a máscara. Chamo-me  Vasco Barreto, escrevi no Blogue de Esquerda, depois criei o A Memória Inventada e o Conta Natura, entre outros projectos colectivos mais ou menos falhados, antes lançar o Ouriquense. Não moro em Ourique, mas em Oeiras, e sou casado, vivendo com as duas filhas mais velhas da minha mulher e as nossas duas gémeas. Trabalho num instituto de investigação biomédica. Defender Sócrates sob pseudónimo não é um acto de coragem, mas também não é um acto de cobardia. Para mim é um acto de gente alucinada e falar em coragem revela uma panca quixotesca forte. Eu admiro o Valupi pela inteligência e persistência. Não o admiro pela coragem, mas também nunca direi que é cobarde por escrever sob pseudónimo ou que deve abdicar desse direito, seja qual for a sua motivação (capricho ou necessidade). Enfim, cumprida a minha tímida, episódica e irrepetível revelação, volto a assumir o pseudónimo e sempre que o anonimato for assunto terei o link deste post para mostrar,  não precisando assim de voltar a escrever o meu nome. Raios, isto custou. Ter escrito aqui sobre a natureza do meu trabalho verdadeiro deu-me até uma ligeira agonia. Perdoa-me, por favor, Nuno Salvação Barreto. E agora adiante. Falta cumprir o Ouriquense.

08
Mai18

Obediência e cumplicidade


Eremita

Socratologia

O nosso Valupi descobriu alguma pertinência num estudo de psicologia experimental que chega à estrondosa conclusão de que o "viés de confirmação" existe, isto é, a nossa tendência para mais facilmente aceitar como válida a informação que confirme a nossa visão do mundo do que aquela que a questione. Não sei exactamente o que pretende o Valupi sugerir, pois o viés de confirmação (de polaridade oposta) é um defeito partilhado por oponentes em qualquer debate. Mas já que estamos numa onda de recomendar estudos científicos, inclusive aqueles que não têm nada de novo, sinto-me autorizado a lembrar a clássica experiência de Milgram, de 1963, sobre a psicologia da obediência ou, se se preferir, o poder da autoridade. Milgram estava interessado em saber até que ponto uma pessoa está disposta a seguir uma instrução que implique magoar fisicamente outra pessoa. Como explicaria mais tarde, a motivação era esta: "could it be that Eichmann and his million accomplices in the Holocaust were just following orders? Could we call them all accomplices?" (Milgram, 1974). Como não estou com tempo para descrever a experiência, fica o vídeo, que é de visualização obrigatória para todos aqueles que agora nos explicam que não teria sido possível isto e aquilo sem conivência, exibindo en passant toda a sua virtude, nomeadamente quanto à noção de amizadade, e ignorância, nomeadamente no que toca à complexidade das relações hierárquicas. Não estou a desculpabilizar ninguém, escusam de espingardar. Também sei que ando a abusar de referências ao Holocausto e que referências a Hitler tendem a ser um tiro no pé - o Ouriquense é um work in progress e prometo emendar-me. [inserir citação de Beckett aqui]

 

 

08
Mai18

Revisão da matéria dada


Eremita

Socratologia

A política não é para amigos, mas um meio de, para além de servir o país, atingir o poder. Os partidos com aspiração a governar têm de ser assim, e aqui não vai qualquer juízo de valor envolvido. À política a frieza, racionalidade e calculismo necessários ao cumprimento dos seus nobres objectivos – base primeva da sua existência – ou tão-só da luta e conservação do poder, igualmente legítimas em democracia. À amizade a irracionalidade, a emoção, “as razões que a razão desconhece”. André Lamas Leite, Público

 

Em vez de usarmos esta oportunidade para uma discussão sobre o que falha na nossa cultura política, já estamos a permitir que a discussão seja dominada precisamente por um dos vícios dessa cultura política: valorizar mais a estratégia do que a substância da política.  Se o distanciamento do PS foi ou não intencional; se Costa voltou a comprovar a sua habilidade política ou Sócrates lhe vai fazer a vida negra; se o PS ganha ou perde com este distanciamento; se Rio vai ou não explorar politicamente o caso, etc. Miguel Poiares Maduro, Observador

06
Mai18

Socratologia dos Equilíbrios Pontuados ou o ónus do PS e a Dádiva de Sócrates


Eremita

O desquite entre Sócrates e o PS deu origem a um curioso fenómeno que designarei por efeito Vale de Azevedo de descompressão social de tipo invertido (eVAdstinv). O que é um eVAdstinv, além de parecer um acrónimo eslavo? Recorde-se que João Vale de Azevedo não foi incomodado pela Justiça enquanto era presidente do Benfica e só depois de abandonar o clube começarem os seus problemas, sem que o Benfica tivesse sido excessivamente penalizado. No caso de Socrates e do PS, a situação parece inverter-se. Sócrates continua em maus lençóis, no imediato a sua situação não se agravou e o homem até voltou a marcar uns pontos no campeonato "larger than life" que algum jornal devia organizar anualmente para estimular decisões pessoais de grande potencial cinematográfico. Já o PS parece uma perdiz gorda no primeiro dia da época de caça. A imprensa de direita faz um autêntico festim, com os cronistas que tiraram cursos de escrita criativa ao rubro (um equipara o PS a um bordel, outro a "uma superfície contínua dobrada sobre si mesma"), a sempre previsível Helena Matos em êxtase vingativo, o moralista Rui Ramos a moralizar... O momento é de tal forma único que até Maria Luís Albuquerque apareceu e teve a lata de mencionar contratos swap.

 

Estes têm sido também os dias em que todos reclamam precedência na arte de ter topado logo Sócrates, com João Miguel Tavares à cabeça (who else?) ou o mérito da estocada final em Sócrates, como se pode ouvir pelo tom de auto-satisfação de Pedro Adão e Silva e dos seus parceiros no Bloco Central da TSF, que daria para um tratado sobre a nossa triste condição humana. Mas mais impressionantes têm sido as manifestações públicas de higiene mental que misturam actos de contrição tímidos (como ouvimos dos líderes do PS), raiva, orgulho, vaidade e vingança - sinceramente, não sei por que motivo as pessoas perdem tempo a ver telenovelas se a vida real nos oferece isto. Os exemplos são tantos, nos jornais, blogs, podcasts e televisões, que é impossível tudo abarcar. Acima de toda esta gente paira Luís Campos e Cunha, esse sim um homem que inegavelmente topou Sócrates a milhas e o enfrentou, demitindo-se, e de quem ainda não se ouviu uma palavra de braggadocio, que seria inteiramente merecida, porque deve ser mesmo alguém muito, muito decente. Mas destaco duas crónicas representativas destes notáveis últimos dias em que a História parece ter acelerado: a de Vicente Jorge Silva (VJS)  e a de António Barreto (AB). A primeira é um exemplo do tipo de crónica que se tolera dado o teste de stress que Sócrates é para um país, as suas instituições, a imprensa e todas as pessoas que com ele se cruzaram. VJS dá-se inclusive ao embaraço de recorrer à autocitação para que não fique nenhuma dúvida de que topou Sócrates a milhas, até mesmo antes de ele ter chegado a PM (curiosamente, não cita as razões que terá apresentado em 2004, quando abandonou o PS, mas diz-nos que foi por ter antecipado o "socratismo triunfante"). Está bem, Vicente, és o maior e vamos fazer uma colecta para te erguer uma estátua no Funchal. Adiante. A crónica de AB é bem mais preocupante, bastando talvez citar a primeira frase: "O mais provável é que o PS esteja a caminho do fim". Tratando-se de uma verdade, pois ninguém caminha para o seu princípio e não há partidos eternos, basta para afirmar - sem panos quentes - que AB é um péssimo cronista, um catastrofista sem o estilo notável que redime outro grande demiurgo do caos, Vasco Pulido Valente. A incapacidade que um dos sociólogos mais prestigiados do país revela para fazer análise social é um mistério,  sobretudo se tivermos em conta a sua inquestionável inteligência, experiência de vida relevante e cultura. No Machina Speculatrix (via Valupi), Porfírio Silva faz um enquadramento psico-analítico muito pertinente, que explica a crónica de AB. Não poderia estar mais de acordo com a interpretação e também com o que Porfírio Silva escreve sobre o perigo desta prosa catastrofista, aglutinadora, refém das emoções, a que AB e outros se têm dedicado. 

 

Nos anos setenta, os paleontólogos Stephen Jay Gould e Niles Eldredge avançaram a teoria evolutiva do Punctuated Equilibirum, segundo a qual os organismos com reprodução sexuada quase não mudam ao longo de extensos períodos de tempo geológico (períodos de stasis) e, pontualmente, no espaço e no tempo, passam por grandes mudanças fenotípicas (morfológicas, porque é o que o registo fóssivel regista, mas provavelmente também fisiológicas e de outro tipo). Em resumo, durante muito tempo nada acontece, há depois uma enorme agitação e de novo se estabelece um período de stasis, em que as espécies diferem da stasis anterior. Esta teoria surgiu, em parte, em oposição à visão gradualista - defendida por Darwin - de uma evolução por acumulação lenta e contínua de pequenas alterações e tem um paralelo óbvio na epistemologia de Thomas Kuhn, que no livro A Estrutura das Revoluções Científicas (1962) já tinha argumentado que a ciência não progride por simples acumulação de factos, mas por "mudanças de paradigma" (esta conhecida expressão foi ele que inventou), quando a teoria vigente que impôs um período estável e calmo (de stasis) não é mais capaz de explicar a realidade e emerge um novo paradigma. Regressemos à socratologia: a desvinculação de Sócrates do PS libertou uma quantidade brutal de energia que estava acumulada nas consciências, rompendo com a stasis que durava desde a prisão preventiva do ex-PM. As consciências estarão agora diferentes, mas se a stasis não se tiver transformado noutras dimensões mais relevantes para o país, terá sido uma oportunidade perdida. Chegou a hora de desfulanizar a discussão.

 

A oportunidade de atacar o problema da corrupção é única. Se o PS entender não começar esse combate já no próximo congresso, estará a cometer um erro. O que se espera do PS, depois das afirmações de vergonha, que mais não foram do que um ritual de proscrição, é que comece a fazer política para combater a corrupção. O caso Sócrates obriga o PS a tomar a iniciativa e só vale a pena  lembrar os outros casos que afectam o PSD e o PP se a intenção for mesmo avançar para um pacto de regime de combate à corrupção; se, ao invés, a ideia for por em prática uma consciente "paralysis analysis" , seria demasiado imoral, demasiado estúpido, demasiado exasperante ir na conversa. A oportunidde é irrepetível. Rui Rio fala de "banho de ética" mas nada fez até agora. Marcelo percebeu há muito o problema. Cristas tem uma veia populista que pode ser virtuosa neste contexto. O PS está sob fogo cerrado. De Santos Silva, Silva Pereira e Vieira da Silva (uma perturbadora repetição do nome "Silva") nada se espera, estão demasiado associados a Sócrates. De Carlos César já se percebeu que nada podemos esperar. Mas da nova geração do PS, nomeadamente de Fernando Medina, João Galamba, Pedro Nuno Santos e Ana Catarina Mendes, e de figuras importantes como Ana Gomes, Paulo Trigo Pereira e - a propósito - Porfírio Silva, espera-se muito e mais do que textos meramente defensivos, ainda que correctos. De António Costa, sinceramente, não sei o que esperar, pois o seu maquiavelismo torna-o insondável quanto a este tema, mas não será insensível ao ar do tempo. Por isso, da imprensa e do colunismo também se espera muito mais. Bater num morto político como Sócrates é uma actividade que, a partir de agora, começará a dar cada vez menos retorno mediático, mas que continuará a ser uma tentação durantre muitos anos. Alinhar na lógica sectarista da mera disputa partidária é outra tentação de que muitos não se libertarão.  A grande questão é: quando vamos começar a discutir medidas concretas de combate à corrupção?

  

Hitler's Gift é o nome de um livro de título provocador que descreve a fuga de cientistas brilhantes da Alemanha para o Reino Unido e os EUA. A minha esperança é que algum um dia se escreva um livro intitulado A Dádiva de Sócrates. A menos que o leitor seja um dos últimos maluquinhos socráticos que insistem em exercícios patéticos de suposta defesa da "presunção da inocência" mas mais não são do que manifestações de uma arrogância e narcisismo que impedem o reconhecimento do óbvio ou lhes perturbam a interpretação da realidade, creio que se percebe facilmente a que dádiva me refiro. Que não se perca a energia libertada neste eVAdstinv, pois não é renovável. 

 

 

 

 

  

 

05
Mai18

João Galamba


Eremita

Começo com uma declaração de interesses: considero-me amigo de João Galamba e tenho uma grande estima pela sua família. Temos convivido pouco, o que resulta apenas da minha vinda para Ourique, mas sigo com muito interesse e um grande orgulho alheio (o mérito é todo dele) a carreira política do João. Nos últimos dias, li e ouvi vários comentários maliciosos sobre as declarações críticas com que ele contribuiu para a saída de Sócrates do PS. Entre todas as figuras do PS que se pronunciaram, era ele quem estava na posição mais delicada, por ter sido lançado na política e promovido dentro do PS por Sócrates, e ainda por durante largos anos o ter defendido da forma aguerrida que caracteriza o João. 

 

O humor é um prémio de consolação com que a Evolução recompensa o trabalho cognitivo que leva à descoberta de um erro lógico ou qualquer outra incongruência inesperada na nossa integração da realidade. Do mesmo modo que a Evolução associou prazeres a actividades essenciais à sobrevivência da espécie, como o gosto pelo açúcar (que promove a ingestão de calorias) e a atracção sexual e orgasmo (que promovem o sexo reprodutivo), o humor será uma sensação de prazer associada ao raciocínio, porque pensar, isto é, ter a capacidade de detectar bugs no sistema, é fundamental para a espécie humana (Hurley, Dennett, Adams, 2011). Creio que esta teoria mata definitivamente a já moribunda teoria do humor enquanto manifestação de superioridade sobre o objecto do riso. Mas se a teoria do riso malevolente, como, por exemplo, a definiu Hobbes, é obsoleta no caso do humor, encontro-lhe algum valor quando a reciclo como explicação para o prazer que sentimos no achincalhamento público, hoje tão presente nas redes sociais. Por exemplo, há quem se dedique com afinco a mostrar-se moralmente superior ao João Galamba, contrastando o que ele disse e fez há uns anos com as suas declarações recentes, a saber: "Acho que é o sentimento de qualquer socialista, quando vê ex-dirigentes, no caso um ex-primeiro-ministro e secretário-geral do PS acusado de corrupção e branqueamento de capitais. Obviamente, envergonha qualquer socialista, sobretudo se as matérias de que é acusado vierem a confirmar-se." O advérbio "sobretudo" dá uma grande margem de interpretação à declaração, mas seria desconversar não reconhecer que ele fez em público um corte definitivo com Sócrates. Para mim, é mais um motivo de orgulho ver o João associado ao momento em que o PS deixa cair o ex-PM. Acredito que ele o fez com a plena consciência de que precisava de proteger o seu futuro e que, se me permitem a dose q.b. de psicanálise, era fundamental não perder esta derradeira oportunidade para "matar" o seu "pai" político. Foi uma grande decisão e é de pessoas com capacidade para tomar decisões difíceis na hora certa que precisamos. 

 

Naturalmente, para quem não simpatiza com o João ou detesta o PS, tratou-se de uma declaração oportunista e não oportuna. Não me pronuncio agora quanto ao timing e insondáveis motivos que terão levado tantos líderes socialistas a cortar com Sócrates neste preciso momento. Interessa-me apenas defender o direito do João a não ter o seu futuro comprometido por ter sido "um socrático". Para que nos entendamos: Sócrates recrutou o João para o PS e não  para uma organização criminosa que o obrigasse a uma fidelidade canina ao grande chefe. A menos que alguém prove que o João estava a par de algum indício de que Sócrates era corrupto e nada fez, não o podemos colocar sob suspeita pela simples associação ao ex-PM. Só os socráticos fanáticos ainda perdem tempo com a tese da perseguição política a Sócrates, mas ninguém deve ter dúvidas sobre as motivações políticas de quem avança a tese da culpa por associação. Com base no que se sabe, não me choca absolutamente nada que o actual governo integre antigos ministros de governos socráticos. 

 

Sócrates é um mentiroso e um megalómano hábil  - não se trata de uma opinião, esta é uma descrição rigorosa dos factos entretanto apurados com base nas suas próprias declarações. A posteriori, é muito fácil vir lembrar que, a partir de 2005, se foram acumulando indícios e boatos de comportamentos seus incorrectos, mas tal não impediu Sócrates de formar um segundo governo, pelo que a sua credibilidade resistiu durante muitos anos. Também não me parece forçada a ideia de que eram aqueles que estavam mais próximos de Sócrates que mais sofriam de um défice de percepção, pois o conhecimento que temos de alguém só aumenta na razão directa da proximidade que com ela temos se essa pessoa for honesta; tratando-se de um aldrabão, quanto mais perto dele estivermos maior será a probabilidade de sermos enganados e continuarmos iludidos. Se esta ideia não passa à primeira, pensem naquele caso extremo de um homem que durante décadas enganou a sua família inteira fazendo-se passar por médico. Assim, quem afirma que Sócrates é um aldrabão não pode colocar sob suspeita precisamente aqueles que, até prova em contrário, terão mais vezes por ele sido ludibriados, ou seja, o seu círculo de confiança - a contradição parece-me evidente, a menos que a tese seja a de que Sócrates era um aldrabão inábil.

 

Ao contrário dos socráticos fanáticos que se manifestam em blogs e caixais de comentários, frequentemente recorrendo a pseudónimos, o João Galamba dá a cara e o nome. Ao contrário dessa malta, que se pode dar ao luxo de defender até às inexistentes consequências pessoais as suas ilusões de cidadania, o João Galamba é um político profissional e ambicioso, que não podia continuar a ser visto como um "socrático". O seu gesto cirúrgico de emancipação na hora H é apenas a confirmação do seu talento para a política, aqui entendida como uma prática nobre e difícil. 

 

 

 

 

04
Mai18

Silogismo do dia


Eremita

O PS deve muito a Ana Gomes.

O PS é importante para Portugal.

Logo, Portugal deve muito a Ana Gomes.

 

O Público fez um "mau trabalho" ao ignorar o tweet de Ana Gomes "O @psocialista não pode continuar a esconder a cabeça na carapaça da tartaruga. Próximo Congresso é oportunidade p/ escalpelizar como se prestou a ser instrumento de corruptos e criminosos. Pela renegeração do próprio PS, da Política e do País." Foi escrito na manhã de 21 de Abril e, à tarde, como se fosse possível haver alguma dúvida, o DN confirmava que Ana Gomes se referia a Pinho e a Sócrates. Só uma semana depois ouvimos Pedro Adão e Silva, Fernando Medina, Carlos César, João Galamba e o resto da rapaziada. O que custa mesmo é falar antes de todos os outros, quando ainda não se percebe o sentido da maré. Pelo exemplo prestado à República, o Ouriquense atribui a Ana Gomes o título de cidadã honorária da grande vila de Ourique e promoverá a inscrição do seu histórico tweet numa placa de mármore de Estremoz, que será possivelmente exibida em alguma ruela da aldeia das Alcarias, uma povoação de grande apetência por placas de mármore na via pública, para benefício da nossa memória colectiva e dinamização descentralizada do turismo no concelho de Ourique. 

 

03
Mai18

Da presciência de Michel Houellebecq


Eremita

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Michel Houellebecq publicou Soumission pouco antes do atentado islamita, de 7 de Janeiro de 2015, na redacção do Charlie Hebdo. O livro é uma ficção política em que a França, pela via democrática, em 2022 fica nas mãos de Mohammed Ben Abbes, o carismático líder do partido Fraternité Musulmane. Dada a proximidade temporal e geográfica dos eventos, seria impossível não os relacionar; depois do atentado, Houellebecq viria mesmo a suspender a promoção do livro, já então um bestseller. Pelas distâncias temporal e geográfica, a associação de um outro livro do francês a um outro atentado é menos óbvia, mas não terei sido o primeiro a fazê-la. Refiro-me ao romance Extension du Domaine de la Lutte, de 1994, e ao recente atentado misógino nas ruas de Toronto, em que Alek Minassian atropelou uma série de peões, matando 10 e deixando 15 feridos. Este não é o primeiro atentado de inspiração misógina (em 2014 houve outro, nos EUA), mas foi o que trouxe à atenção de todos a comunidade online Incel (“involuntarily celibate”), um fórum em que homens (heterossexuais) com frustrações sexuais se entregam a uma (literalmente) aterradora terapia de grupo. Como se não bastasse terem sido durante milénios vítimas de violações e outras formas de violência que persistem, as mulheres têm hoje de lidar com a probabilidade nova (ainda que  infinitesamente baixa) de virem a ser  vítimas de um terrorista radicalizado por uma ideologia misógina em que o sexo é entendido como um direito. Escreveu Houellebecq, em 1994:

 

Décidément me disai-je, dans nos sociétés, le sexe représente bel et bien un second système de différenciation, tout à fait indépendant de l'argent ; et il se comporte comme un système de différenciation au moins aussi impitoyable. Les effets de ces deux systèmes sont d'ailleurs strictement équivalents. Tout comme le libéralisme économique sans frein, et pour des raisons analogues, le libéralisme sexuel produit des phénomènes de paupérisation absolue. Certains font l'amour tous les jours; d'autres cinq ou six fois dans leur vie ou jamais. Certains font l'amour avec une dizaine de femmes; d'autres avec aucune. C'est ce qu'on appelle la "loi du marché". dans un système économique où le licenciement est prohibé, chacun réussit plus ou moins à trouver son compagnon de lit. En système économique parfaitement libéral, certains accumulent des fortunes considérables; d'autres croupissent dans le chômage et la misère. En système sexuel parfaitement libéral, certains ont une vie érotique variée et excitante; d'autres sont réduits à la masturbation et à la solitude. Le libéralisme économique, c'est l'extension du domaine de la lutte, son extension à tous les âges de la vie et à toutes les classes de la société. de même, le libéralisme sexuel, c'est l'extension du domaine de la lutte, son extension à tous les âges de la vie et à toutes les classes de la société..." Extension du domaine de la lutte

Não é a primeira vez que cito esta passagem, porque hoje leio sobretudo em inglês e tendo a notar a ausência da referência ao francês, que seria apropriada e justa, e também porque para alguém vindo das ciências, com algumas noções de selecção sexual, o fenómeno descrito por Houellebecq é muito mais biológico do que social e, nessa medida, pouco surpreendente. A desigualdade descrita pela distribuição de Pareto, em que uns poucos, em sociedades liberais, meritocráticas e geneticamente diversificadas, detêm quase tudo e os restantes o pouco que sobra, seja dinheiro, notoriedade, oportunidades e recursos profissionais, beleza, talento ou sexo, é a grande fonte de ressentimento. Para os intelectuais, sendo Jordan Peterson apenas a rising star planetária mais recente, trata-se de um autêntico recurso renovável para explorar, pois nenhum sistema político consegue erradicar esta desigualdade de forma satisfatória e suspeito que nenhum será alguma vez inventado. Enfim, Houlebecq mostra-nos que a receita para a presciência é escrever sobre as evidências que preferimos ignorar. A propósito, [spoiler warning: o resto da frase é em letras brancas] no romance que cito a personagem principal não mata ninguém, suicida-se. E ainda há quem - como o pateta do Frédéric Beigbeder - descreva Houllebecq como um niilista sem preocupações sociais, quando é evidente que o escritor é, sobretudo, um conservador. 

 

 

 

 

01
Mai18

O cliffhanger de Ricardo Sá Fernandes


Eremita

A entrevista de Ricardo Sá Fernandes a Ana Lourenço foi excepcional. Arrisco a exposição ao ridículo: fiquei com os olhos lacrimejantes - não estou a ser irónico (não estou mesmo) - quando ouvi a defesa que o advogado fez de Manuel Pinho. É possível que esta minha inesperada reacção resulte, em parte, do contraste entre a empatia (a tal "inteligência emocional") de Sá Fernandes e a ausência de empatia dos advogados de Sócrates e de outras figuras públicas em apuros. Sá Fernandes foi ao ponto de se assumir como amigo do seu cliente, uma informação que pouco faz pela imagem pública do ex-ministro, mas que aumenta o capital social de Sá Fernandes. O advogado conseguiu até a proeza de usar este caso para ilustrar a nobreza da sua profissão (o advogado que luta sozinho contra todos pelos direitos do seu cliente em maus lençóis) e fê-lo de um modo convincente. Mas o mais fascinante foi o suspense criado pelo advogado: Pinho falará quando chegar o momento certo e na altura todos perceberão por que motivo não o fez antes e concordarão com essa decisão, assegurou Sá Fernandes. Além do "défice de informação" do MP, que "razões substanciais" justificam o silêncio de Manuel Pinho? O advogado não as explicou. Depois das patetices em torno do discurso de 25 de Abril de Marcelo, que os jornalistas tanto se esforçaram por encriptar, eis um verdadeiro enigma. Grande, grande momento de televisão.

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