Discípulos de Lutero
Eremita
Inspirado pela comemoração dos 500 anos da Reforma, li a famosa polémica sobre o livre arbítrio entre Erasmo de Roterdão e Lutero. Como discussão filosófica sobre o livre arbítrio, trata-se de uma obra pobre e datada, mas o contraste destas personalidades tão relevantes torna a leitura deliciosa. Erasmo emerge como uma figura simpática e relaxada, face a um Lutero radical, fanático e de uma violência latente. Depois de ler Lutero, é muito curioso reparar que os seus discípulos contemporâneos, quando se irritam, soam exactamente como o mestre, no pensamento e no estilo.
Ao contrário de alguns afortunados por um tipo especial de dom de fé que não tenho, o meu tipo de dom de fé é daqueles que morre se a Bíblia não for eficaz nos propósitos para o qual apareceu. Sim, a minha fé depende de a Bíblia ser inteiramente verdadeira - é essa característica que também me torna realmente protestante (e realmente cristão!). (...)
Os supostos cristãos que continuam a ser cristãos independentemente de a Bíblia ser verdadeira são traidores como Judas porque, na aparência de a Bíblia não ser consistente, inventam dessa derrota uma vitória pessoal. A vitória pessoal dos traidores é que eles sobrevivem sempre quando morre quem depende de uma verdade superior a si mesmo. Jesus morreu porque não pensou em si. Judas sobreviveu porque pensou em si. A ironia é que essa sobrevivência é curta e, como com Judas, termina em suicídio. Creio que acreditar no cristianismo sem acreditar na veracidade que a Bíblia pede para si mesma é um suicídio - é o destinos dos Judas desta vida. Voz do Deserto
