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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

22
Dez17

Discípulos de Lutero


Eremita

Inspirado pela comemoração dos 500 anos da Reforma, li a famosa polémica sobre o livre arbítrio entre Erasmo de Roterdão e Lutero. Como discussão filosófica sobre o livre arbítrio, trata-se de uma obra pobre e datada, mas o contraste destas personalidades tão relevantes torna a leitura deliciosa. Erasmo emerge como uma figura simpática e relaxada, face a um Lutero radical, fanático e de uma violência latente. Depois de ler Lutero, é muito curioso reparar que os seus discípulos contemporâneos, quando se irritam, soam exactamente como o mestre, no pensamento e no estilo.

 

Ao contrário de alguns afortunados por um tipo especial de dom de fé que não tenho, o meu tipo de dom de fé é daqueles que morre se a Bíblia não for eficaz nos propósitos para o qual apareceu. Sim, a minha fé depende de a Bíblia ser inteiramente verdadeira - é essa característica que também me torna realmente protestante (e realmente cristão!). (...)

Os supostos cristãos que continuam a ser cristãos independentemente de a Bíblia ser verdadeira são traidores como Judas porque, na aparência de a Bíblia não ser consistente, inventam dessa derrota uma vitória pessoal. A vitória pessoal dos traidores é que eles sobrevivem sempre quando morre quem depende de uma verdade superior a si mesmo. Jesus morreu porque não pensou em si. Judas sobreviveu porque pensou em si. A ironia é que essa sobrevivência é curta e, como com Judas, termina em suicídio. Creio que acreditar no cristianismo sem acreditar na veracidade que a Bíblia pede para si mesma é um suicídio - é o destinos dos Judas desta vida. Voz do Deserto

21
Dez17

Ó Viegas, diz... diz qualquer outra coisa


Eremita

The Trump administration has informed multiple divisions within the Department of Health and Human Services that they should avoid using certain words or phrases in official documents being drafted for next year’s budget.

Officials at the Centers for Disease Control and Prevention, which is part of HHS, were given a list of seven prohibited words or phrases during a meeting Thursday with senior CDC officials who oversee the budget. The words to avoid: “vulnerable,” “entitlement,” “diversity,” “transgender,” “fetus,” “evidence-based” and “science-based.” The Washington Post

 

Quando um governo de esquerda censura, ainda que de modo tácito, termos politicamente incorrectos, os nossos liberais apressam-se a escrever hinos à liberdade de expressão. Mas quando o Governo de Trump, um presidente eleito, entre outros motivos, para acabar com o politicamente correcto, censura de forma explícita certas palavras, os nossos liberais continuam focadíssimos nos excessos folclóricos do feminismo

21
Dez17

Meta por meta


Eremita

Há anos que não escrevo uma linha do bw, mas o projecto não está esquecido. Quando fazia ciência, andei 15 anos atrás de um problema. Não era uma grande questão científica; tratava-se de um minúsculo detalhe, importante talvez para apenas umas dezenas de pessoas em todo o mundo, o que não me faz particularmente brilhante, mas enaltece a minha tenacidade. Não se julgue por isso que o projecto morreu. Não morreu e fiz até progressos de tipo inconsciente ou subliminar. Por exemplo, antes não acertava com a ortografia de "Weismann". Escrevia "Wiessman", "Wiessmann" e até "Wiesmman". Creio que esta inépcia servia para me avisar que ainda não estava pronto. Não se pode começar a escrever um livro quando se erra logo no título. 

21
Dez17

Um filósofo pouco apreciado pelos biólogos


Eremita

Fodor’s politics were never evident from his writing, and he regarded the idea that we are meaning-seeking creatures, telling ourselves stories in order to live, as English-department blah-blah. He was a naturalist, and he believed that with a proper understanding of Darwin we would never ask nature to tell us who or what to be. “We are artifacts designed by natural selection,” Daniel Dennett wrote, to which Fodor said no. “Darwin’s idea is much deeper, much more beautiful, and appreciably scarier: We are artifacts designed by selection in exactly the sense in which the Rockies are artifacts designed by erosion; which is to say that we aren’t artifacts and nothing designed us. We are, and always have been, entirely on our own.” New Yorker

 

20
Dez17

Um decisão editorial


Eremita

A partir de agora, o Ouriquense deixa de assinalar efemérides relevantes, como o dia de Natal, a passagem do ano e o dia de aniversário de Paco de Lucia. Excepcionalmente, poderão ser feitas referências a solstícios, desde que devidamente fundamentadas. E jamais será feito um link para listas de livros, filmes e discos do ano. Aceitemos a nossa efemeridade e insignificância cósmica, sem manifestações ritualizadas de ansiedade. 

20
Dez17

Um sinal divino


Eremita

David Bentley Hart’s new single-handed translation of the New Testament will strike the fair-minded reader by turns as startling, incisive, audacious, smug, shrewd, and quirky to the point of exasperation: everything, in short, the author intended it to be. The book sets out to be provocative and succeeds. A philosopher, theologian, scholar of patristics and mythology, and frequent contributor to First Things, Hart maintains that his dissatisfaction with the standard renderings of the Bible—each the product of committees and therefore of numberless harmful compromises—convinced him of the value of starting from scratch and making a one-man job of it. First Things

A tradução de David Bentley é um sinal de Deus para que eu volte à tradução de Frederico Lourenço, precocemente interrompida. 

15
Dez17

"The times they are a changin"


Eremita

A era dos "Great Male Narcissists" (Mailler, Roth e UpDike) já acabou há muitos anos, mas não deixa de ser extraordinário que o primeiro conto do século a tornar-se viral seja de uma escritora. The Cat Person capta bem os três períodos em que podemos hoje decompor muitas das interacções que envolvem alguma expectativa sexual ou sentimental: o flirt escrito mediado pela tecnologia moderna, o encontro físico e a ressaca subsequente. Mas ao invés da complexidade da personagem feminina, cujos pensamentos o leitor vai conhecendo sem os poder antecipar, o homem, além de mau na cama, é caricatural e estereotipado. A culpa, naturalmente, é de Mailler, Roth e UpDike, porque o compromisso intergeracional não devia aplicar-se apenas à preservação do meio ambiente, dos recursos naturais e da segurança social. Os homens de hoje vão pagar com juros os privilégios dos grandes machos narcisistas de outrora, mas pelo menos saberão o que, afinal, querem as mulheres verdadeiras e não aquelas inventadas pela mente de outros homens. Não é tão reconfortante como escutar uma canção de Chico Buarque, mas é mais pedagógico. 

 

Margot sat on the bed while Robert took off his shirt and unbuckled his pants, pulling them down to his ankles before realizing that he was still wearing his shoes and bending over to untie them. Looking at him like that, so awkwardly bent, his belly thick and soft and covered with hair, Margot recoiled. But the thought of what it would take to stop what she had set in motion was overwhelming; it would require an amount of tact and gentleness that she felt was impossible to summon. It wasn’t that she was scared he would try to force her to do something against her will but that insisting that they stop now, after everything she’d done to push this forward, would make her seem spoiled and capricious, as if she’d ordered something at a restaurant and then, once the food arrived, had changed her mind and sent it back.

(...)

And then he asked, urgently, “Wait. Have you ever done this before?”

The night did, indeed, feel so odd and unprecedented that her first impulse was to say no, but then she realized what he meant and she laughed out loud.

She didn’t mean to laugh; she knew well enough already that, while Robert might enjoy being the subject of gentle, flirtatious teasing, he was not a person who would enjoy being laughed at, not at all. But she couldn’t help it. Losing her virginity had been a long, drawn-out affair preceded by several months’ worth of intense discussion with her boyfriend of two years, plus a visit to the gynecologist and a horrifically embarrassing but ultimately incredibly meaningful conversation with her mom, who, in the end, had not only reserved her a room at a bed-and-breakfast but, after the event, written her a card. The idea that, instead of that whole involved, emotional process, she might have watched a pretentious Holocaust movie, drunk three beers, and then gone to some random house to lose her virginity to a guy she’d met at a movie theatre was so funny that suddenly she couldn’t stop laughing, though the laughter had a slightly hysterical edge. Cat Person, Kristen Roupenian (que aqui fala sobre o conto)

  

 

15
Dez17

A crítica cirúrgica do ódio das multidões


Eremita

" O artigo do PÚBLICO que noticiou a queda de fragmentos do Templo Romano de Évora teve menos de sessenta partilhas no site deste jornal. Uma ínfima fração das dezenas de milhares de partilhas que teve o famoso caso do jantar no Panteão Nacional. Para um monumento que está naquele lugar há dois mil anos não houve petições com milhares de assinaturas, debates apressados na Assembleia da República, intervenções de líderes partidários, comentários nos programas de fim-de-semana. Nada. E trata-se, se é possível comparar, de um monumento de maior importância. A que quase ninguém deu importância. Quando estava cair aos pedaços.

Porquê? É simples: não havia ninguém para odiar." Rui Tavares

 

Na verdade, não é nada simples. Caso contrário, como explica Rui Tavares que a única pessoa a ter reparado, esta semana, na condenação nos elementos da horripilante rede pedófila Verdade Celestial tivesse sido Eduardo Pitta, não havendo criatura neste mundo que suscite maior repulsa do que um pedófilo (activo)? A atenção inusitada que o escândalo Raríssimas tem suscitado resulta de uma combinação de elementos: 1) a retroacção positiva que existe hoje entre os media e as redes sociais; 2) a importância ainda determinante da televisão e a existência de material audiovisual muito suculento; 3) o estilo de reportagem de Ana Leal, calibradíssimo para suscitar indignação; 4) a natureza do caso, fulanizável (Rui Tavares identificou um elemento importante), que envolve ascensão social,  prepotência, e abuso de confiança e de dinheiros públicos numa área de grande envolvimento emocional como é o apoio a pessoas com doenças raras; 5) a impossibilidade de manter dois temas quentes em simultâneo no ar ou sem que um retire protagonismo ao outro; 6) a sede de novidade (uma acusação inesperada é sempre mais apetitosa do que uma condenação antecipada); 7) o sucesso do Governo na vertente económico-financeira, que faz com que a oposição tente aproveitar ao máximo os casos pontuais que possam fragilizar a governação de Costa. De resto, este último elemento, uma tese que roubei a Pedro Adão e Silva, explica a crónica de Rui Tavares e o post de Eduardo Pitta, cuja motivação é essencialmente política. Se era para discutir a fascinante psicologia das multidões, por que motivo não o fizeram após a onda de ódio a Miguel Relvas, que foi tão grande ou superior à onda a que assistimos agora contra a presidente da Raríssimas? Quando, no meio da gritaria generalizada, descobrimos o que nos parece ser um oásis de sensatez, ponderação e distanciamento, mas, após uma breve análise, percebemos que se trata ainda de uma manifestação tribal, só que camuflada, que optimismo nos resta? 

 

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