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Ouriquense

31
Dez17

Como alimentar os filhos?

Eremita

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Car un jour viendra où l’idée que, pour se nourrir, les hommes du passé élevaient et massacraient des êtres vivants et exposaient complaisamment leur chair en lambeaux dans des vitrines, inspirera sans doute la même répulsion qu’aux voyageurs du XVIe ou du XVIIe siècle, les repas cannibales des sauvages américains, océaniens ou africains. Claude Lévi-Strauss (1996)

Quando faço este exercício de projecção no futuro, nunca penso na nossa condição omnívora; como barbaridades toleradas pela sociedade actual que os nossos descendentes condenarão, ocorre-me primeiro o direito à interrupção voluntária de gravidez (que não será tolerado numa sociedade pós-feminista) e a desigualdade económica extrema. Vale a pena ler todo o texto de Lévi-Strauss, não só por se destacar pela beleza da prosa quando comparado com a abundante produção sobre este tema, mas também para se perceber todo o alcance da alusão à prática canibal que surge no trecho citado, que encerra até um paradoxo. Segundo o antropólogo, os ameríndios e a maior parte dos povos sem escrita entendiam o consumo de carne de animais caçados ou pescados como uma forma atenuada de canibalismo, pois não distinguiam propriamente os homens dos animais. O caçador (ou o pescador) e a presa viviam numa relação de parentesco, que se aproximava da conjugalidade (o francês aproveita para lembrar que, no calão de muitas línguas, verbo "comer" significa "copular"). O texto foi escrito no auge do pânico suscitado pela "doença das vacas loucas" (a encefalopatia espongiforme bovina), que resultou de se alimentar vacas com farinha feita a partir de vacas (uma dieta canibal), pretexto para Levy-Strauss embarcar num delírio futurista que começa por ser uma distopia (a encefalopatia espongiforme como ameaça global) e resolve em utopia bucólica acidental (o regresso de grandes extensões de terra ao domínio da Natureza e a caça como fonte exclusiva de carne para alimentação), que tem hoje aspectos datados, mas me parece acertado quanto à evolução a longo prazo do consumo de carne retirada de animais. Segundo o antropólogo, a carne tenderá a voltar a ser um produto reverenciado, de consumo excepcional (obviamente, caríssimo), tal como eram ritualizadas e esporádicas as refeições (realmente) canibais entre povos que os navegadores europeus dos séculos XVI e XVII encontraram.

 

É possível que Levy-Strauss, por deformação profissional, exagere a relação de parentesco que os caçadores e pescadores estabeleciam com as suas presas antes da chegada do progresso tecnológico, mas, acreditando que crianças de um ou dois anos ainda não estão totalmente influenciadas pela hiper-socialização das sociedades modernas, a forma como ficam encantadas perante os animais dá razão ao antropólogo. O entusiasmo que mostram por cães, gatos, tartarugas, peixinhos, borboletas e outros animais parece ecoar um parentesco que não sentem perante um calhau ou um talo de alho francês. 

 

Continua. Preciso de terminar umas leituras e de cumprir algum trabalho de manutenção no montado. Apresentar textos às mijinhas é irrritante, reconheço, mas o Ouriquense não deve ser visto como uma publicação, antes uma engrenagem que serve para estimular as minhas leituras e forçar-me a concluir os textos que inicio.

 

 

30
Dez17

O panegírico do ano

Eremita

Para potenciar o impacto da citação que vos proponho, a sua leitura deve ser acompanhada pela escuta de um dos seguintes  temas e sem qualquer poluição sonora envolvente (desligue a televisão, feche-se num quarto ou até na casa de banho, que beneficia a acústica):

 

The Gael, do escocês Dougie MacLean, celebrizada como banda sonora do filme The Last of the Mohicans.

 

Uma charopada sonora em estilo "épico hollywoodiano".

 

A Moldau, de Smetana. Caso seja esta a sua escolha, recomendo que inicie a leitura precisamente 40 segundos depois do começo da música. 

 

Percussionistas japoneses (tambor taiko).

 

E Vangelis, claro, um músico muito apreciado pelos socialistas, aqui representado pelo incontornável tema de Chariots of Fire. 

Comece a leitura apenas após ter ouvido o início da música que escolheu. Se pretender ler o texto uma segunda vez, seja ousado e mude a música. 

 

E Costa, no meio disto? Sou insuspeito, pois não lhe aprecio o estilo e certas decisões, certas companhias. Mas é cristalina a sua alta qualidade de estadista e de servidor público. Ao se oferecer para o cargo de primeiro-ministro, para lá da motivação subjectiva que poderá nunca vir a ser conhecida publicamente ou só daqui a muito tempo, o que mais impressiona é a radical diferença entre a complexidade e esforço da sua função e a displicência e irresponsabilidade dos directores de imprensa, jornalistas-comentadores e demais publicistas com poleiro em órgãos profissionais e ditos de “referência”. São pessoas que, muito provavelmente, nunca aceitariam passar por experiência similar, ou que lá chegadas não aguentariam nem a milionésima parte do que o currículo de Costa prova que aguenta. Todavia, cagam sentenças a metro e ao peso, saturando a mancha da opinião publicada na imprensa escrita e audiovisual. Aliás, são os mesmos aqui e ali, ubíquos e repetitivos. A sua produção verbal é uma logomaquia narcísica – inevitáveis e salubres excepções à parte. Sem saberem, sem olharem para o chão que os suporta, na sombra dessa montanha diária de sectarismos e inanidades refulge imperceptível a heróica vocação daqueles que aceitam sujar as mãos e a esperança nas muralhas da cidade. Valupi

 

Quanto à "motivação subjectiva que poderá nunca vir a ser conhecida publicamente ou só daqui a muito tempo" que fez como que Costa se tivesse "oferecido" para o cargo de primeiro-ministro, eu diria que foi a ambição; não associo nenhuma carga pejorativa à ambição, antes pelo contrário, mas surpreende-me que alguém pretenda transformar uma evidência em mistério insondável. O resto do parágrafo é ainda mais surpreendente. Prova que a grande obsessão de Valupi, afinal, não é Sócrates e talvez seja mesmo a defesa do Estado de Direito, mas aceitemos provisoriamente que é o PS. Mostra também que Valupi, o analista político implacável, sabe escrever prosa poética (notável o crescendo da última frase). E demonstra que podemos apresentar lapalissadas com tanta competência que soam a coisa original e até válida. É da ordem das coisas que um Primeiro Ministro tenha trabalhos hercúleos, sobretudo quando o comparamos com a pacata existência e o pequeno alcance dos seus críticos na imprensa, mas é absurdo usar o desígnio de um PM para diminuir os seus críticos e a pequenez destes para o engrandecer. O trabalho de um crítico, como o de um ministro, avalia-se por comparação com o trabalho dos seus pares, como é evidente. O exercício a que Valupi se presta só não assusta por aparecer num blog, pois tem tudo para ficar a matar num editorial do jornal oficioso do governo de um país de democracia musculada, como Angola ou a Rússia. Bom ano, Valupi! 

29
Dez17

...

Eremita

Se não há pernil, eles que comam presunto.*

[paráfrase]

 

* O Ouriquense declara que a publicação desta lição da planície não foi influenciada pelo poder autárquico da capital do porco preto, nem deve ser entendida como uma manobra premeditada para ganhar simpatias que nos ajudem a concretizar o tão almejado projecto de criação de porco preto na herdade do Cotovio. Lembro, porém, que continuamos à procura de um sócio com conhecimentos de suinicultura e disponibilidade para viver em Ourique. 

28
Dez17

Arrulhar

Eremita
Série Dicionário das palavras encontradas na segunda metade da vida 
 
(espanhol arrullar)
 
Lido a 28 de Dezembro de 2017, na página 28 de O Leão de Belford, de Alexandre Andrade (Relógio de Água, 2016): "... Irène, por fim, com a sua voz tão única que mais parecia um arrulhar, esforçando-se, como sempre, para trazer a conversa de volta ao desenho e às aulas."
 
verbo intransitivo
 
1. Emitir (pombo ou rola) o som característico da sua espécie

2Soltar arrulhos (ex.: os pombos arrulhavam nos beirais).

3[Figurado]  Sussurrar brandamente.

4Cantar (para adormecer crianças).

5Dirigir olhares e galanteios à pessoa namorada.

substantivo masculino

6Emissão de arrulhos.

Confrontararrolhar.

 
 
 
27
Dez17

"Falemos de casas"

Eremita

À medida que iam explorando a casa, iam descobrindo vestígios dos anteriores inquilinos: um pequeno estojo de costura com a insígnia de un hotel de Biarritz, a etiqueta de cartão de uma florista, riscos a lápis no lambril de uma porta para marcar a altura de uma criança em várias idades, ou de crianças diferentes na mesma altura. O Leão de Belfort (página 17) 

 

Esta "noveleta urbana" já me agarrou. Não só gosto muito quando um autor dá importância às casas ou apartamentos das suas personagens, como esta história decorre no 14ème, um bairro onde se encontram dois dos três endereços em que morei quando vivi em Paris. Já há pontas soltas, perguntas que inquietam o leitor e o levam a querer apressar a leitura. A escrita é a de alguém que leu muito e a cada página encontramos uma pepita, como "'A mim parece-me ter tamanho suficiente [um congelador]', contrapôs Guy, 'mais facilmente se subestima um volume do que uma superfície'". Aliás, a citação que abre o post não faz justiça à qualidade das enumerações do Alexandre; não me parece verosímil que os riscos a lápis no lambril da porta dessem azo a duas interpretações, pois cada um tende a vir acompanhado por uma data (quando registam o crescimento de uma criança) ou por uma data e nome ou inicial (quando são várias as crianças que se encostam ao lambril).

27
Dez17

Publicitários: não há pachorra

Eremita

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fonte

 

Não tendo visto a série que o Valupi comenta, permitam-me lançar um apelo para que acabem as séries e demais produtos culturais sobre o universo da publicidade feitos por publicitários, ex-publicitários ou outros indivíduos. Mad Men pode ter sido uma apoteose, mas foi apenas mais um produto de uma tendência que se eterniza. Nos anos noventa, os meus olhos inocentes consumiram a série Thirtysomething com genuíno interesse, embora o que os jovens publicitários ambiciosos faziam em casa me interessasse mais do que os seus desafios profissionais. Lembro também o bestseller 99 Francs, do francês Frédéric Beigbeder. E preferia não me ter lembrado agora do "tio Olavo", uma personagem insípida criada por Edson Athayde, o grande "génio" da publicidade a trabalhar em Portugal. Outros produtos haverá, mas estes bastam para o desabafo. Basta de impulsos criativos de publicitários em crise pessoal. Basta de reflexões autobiográficas sobre a profissão emblemática da sociedade de consumo, que transforma jovens "criativos" em adultos amargurados. Não queremos mais nenhum acerto de contas com o mundo da publicidade. Chega. Se já tivemos a escola de Frankfurt a cascar no capitalismo durante décadas e agora temos o Arménio Carlos, não se percebe o que a perspectiva autobiográfica e confessional de um (ex-)publicitário vem acrescentar ao mundo. O mundo da publicidade é fascinante? Também a rotina de um homem do lixo é fascinante. Em todo o caso, daria uma série catita, pois o lixo é uma porta de entrada na vida de qualquer um e as luzes dos semáforos na penumbra urbana prestam-se a uma bela fotografia. Tese: qualquer universo profissional é potencialmente fascinante e convertível em série ou romance. O que a publicidade tem de particular, além produzir criativos frustrados com cura de 5, 10, 15 ou até 20 anos e um grande talento para vender coisas, é a proximidade aos meios de produção audiovisual, nada mais. Publicitários, encarem a possibilidade de o vosso mundo não ser tão interessante como o imaginam, nem assim tão trágico-cómico. 

25
Dez17

Próximas leituras

Eremita

Depois de ter anunciado que não celebrarei mais efemérides no Ouriquense, numa tentativa de quebrar a escravatura do calendário como a forma de aproximação à imortalidade que resta aos homens medianos, só agora me apercebo das inúmeras dificuldades deste projecto. Não posso, por exemplo, dizer que planeio ler determinados autores em 2018, o que seria uma fórmula sucinta e um compromisso real. Apenas me resta anunciar cobardemente que planeio dar prioridade à leitura (1) dos seguintes prosadores portugueses (quanto aos poetas, logo veremos): 

 

Agustina Bessa-Luís: o estado de saúde da escritora traz reverência acrescida - talvez mesmo misticismo, para honrar Quina - a qualquer leitura das suas obras. Conto aplicar uma estratégia que gostaria depois de alargar a outros autores: ler, em simultâneo, o primeiro e o último romance que escreveram. Estão pois na calha Mundo Fechado (1948)A Ronda da Noite (2006).

Alexandre Andrade: o mais francófono dos escritores portugueses com menos de 50 anos, eterno autor de culto, que não será propriamente um escritor de escritores, mas é seguramente um escritor dos escritores aspirantes (uma categoria superior à anterior, note-se), tem uma sensibilidade muito particular, de outro tempo ou de tempo nenhum, só dele, que sempre me fascinou, ao ponto de me inibir, pois há muitos anos até nos encontrámos em Nova Iorque e depois eu nada fiz para cultivar uma possível amizade, retraindo-me por ele me ter parecido muito melhor do que eu, a todos os níveis, exceptuando talvez o jeito para escolher pullovers (esta confissão foi a minha primeira tentativa de praticar a única categoria sensata do ridículo movimento de honestidade radical, que se designa por honestidade radical positiva). Comecei já a leitura de O Leão de Belfort, mas a ideia é consumir a obra publicada integral do Alexandre. 

 

Gonçalo M. Tavares: não vou para novo e chegou a hora de ter uma opinião formada sobre este fenómeno da escrita, da edição e dos prémios literários, um escritor obviamente muito acima da média, mas que - sem disso ele ter culpa - sempre me pareceu sobrevalorizado. Uma atenção especial será dada às teses de alf (1, 2, 3, 4, etc.), provavelmente o único ser senciente vivo crítico deste escritor, à tese abstrata e muito suspeita de que devemos evitar escrever sobre o Holocausto quando nada na nossa biografia nos liga a essa tragédia (afirmo e contesto esta ideia de forma cíclica) e à métrica instantes intencionais de humor ou ironia por página. Conto ler o romances que saíram agrupados numa espécie de cabaz natalício a que chamaram O Reino (Um Homem: Klaus Klump, A máquina de Joseph Walser, Jerusalém e Aprender a rezar na Era da Técnica) ainda o inclassificável Atlas do Corpo e da Imaginação

 

(1) Refiro-me à leitura de livros propriamente ditos, o que exclui o suporte em que actualmente mais leio: o pdf. 

 

 

23
Dez17

Traduções de Kavafis

Eremita
A tradução, como a anatomia, quer-se comparada. 
 
À entrada do café

A minha atenção por algo que me disseram ao meu lado
dirigiu-se para a entrada do café.
E vi o corpo belo que parecia
ter sido feito pela extrema experiência de Eros —
modelou os seus membros simétricos com alegria;
elevou a sua estatura esculpida;
modelou com emoção o rosto
e deixou pelo toque das suas mãos
uma sensação na testa, nos olhos e nos lábios.

Konstandinos Kavafis
tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis


À entrada no café

A minha atenção, algo que a meu lado alguém disse
voltou-a para a entrada no café.
Vi então aquele formoso corpo que parecia
tê-lo criado Eros do fundo da sua experiência,
modelando com deleite a simetria dos seus membros;
erguendo, escultural, seu alto talhe;
modelando com ternura o rosto
e deixando-lhe, só com o toque das mãos,
uma emoção na fronte, nos olhos e nos lábios.

Konstantinos Kaváfis
tradução de Manuel Resende

Duas traduções copiadas do meia-noite todo o dia, de manuel a. domingos.
 
À porta do café
 
Algo que ouvi junto de mim desviou--me a atenção para a porta do café.
E vi o corpo esplêndido que parecia
Como se o próprio Eros o fizera com perícia extrema — modelando-lhe com prazer a simetria dos membros,erguendo ao alto a estátua do seu torso, modelando o rosto dele com afecto, e do toque deixando dos seus próprios dedos um jeito na testa, nos olhos, e nos lábios.
 
Tradução de Jorge de Sena - enviada por António Gregório, do recomendadíssimo Coração Acordeão. Friso que esta tradução de Jorge de Sena chegou ao Ouriquense com uma ou outra gralha, o que demonstra ter sido dactilografada a partir de um livro e não o resultado de um simples copy and paste, o que só enobrece o contributo. 
 
 

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