Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

24
Nov17

Pedro Rolo Duarte


Eremita

Há uns anos, fui a Lisboa conversar com Pedro Rolo Duarte para um programa de rádio que ele tinha. Não disse nada que merecesse propagar-se no éter, mas ele foi educado e tratou-me muito bem. Na altura, também escreveu um texto muito simpático sobre o Ouriquense. A notícia da sua morte apanhou-me de surpresa, porque não éramos amigos ou sequer conhecidos. À sua família e aos seus amigos próximos, os meus sentimentos.

 

24
Nov17

Contra as Manhãs da Comercial


Eremita

Entendo esta declaração de amor às Manhãs da Rádio Comercial. O programa está desenhado para dar conforto. É um pout-pourri  de alienação (nunca se fala do desemprego ou do terrorismo), apelo constante às memórias da infância e adolescência (com esse grande pornógrafo da nostalgia que é Nuno Markl), muito humor (com rubricas boas e outras mais ou menos), música pop em exclusivo e muito pouco diversificada, sendo presenças constantes alguns amigos, como António Zambujo e Miguel Araújo, truques para formar uma comunidade de ouvintes e radialistas, em que estes passam por amigos daqueles (os telefonemas a propósito de nomes próprios, etc.). Falta só mencionar a publicidade, imensa publicidade. A vida é demasiado curta para as longas manhãs da Comercial, meus amigos, e irrita-me ver as crianças da minha casa conquistadas por esta malta. É um combate desigual contra os pais e o magnífico Paulo Alves Guerra, que faz O Império dos Sentidos, na Antena 2. Mas um dia venceremos. 

 

22
Nov17

"Bom dia ao fórum"


Eremita

A seca não me deixa grande vagar para a escrita e só me resta recomendar a leitura e eventual participação numa conversa sobre o politicamente correcto iniciada ontem na caixa de comentários do post RAP segundo AlfQuanto à qualidade da participação dos leitores, o Ouriquense vive o seu ano de ouro.

21
Nov17

Do snobismo invertido


Eremita

Eu sou um produto, para o bem e para o mal, da escola e da universidade públicas. Nunca andei em instituições privadas. Três dos meus quatro filhos frequentam a escola pública, e a mais nova só não frequenta porque ainda tem cinco anos. Há razões financeiras para esta escolha, pois os filhos são muitos, mas há sobretudo razões de princípio: acredito na importância do ensino público; frequentei-o numa época em que era menos exigente do que hoje e não me dei mal; prefiro que os meus filhos cresçam longe das bolhas elitistas (sem desprimor) que são os melhores colégios privados; acho até que certas limitações próprias da escola pública têm vantagens em termos de autonomia e de resiliência (se os pais desempenharem bem o seu papel); e prefiro investir o dinheiro que poupo na mensalidade dos colégios em actividades extracurriculares, ou a viajar com os miúdos para fora do país nas férias do Verão ou da Páscoa, para ganharem mundo.

Este primeiro parágrafo serve dois objectivos: demonstrar que sei do que falo quando falo da escola pública, e tentar afastar o preconceito de que quando critico Mário Nogueira, os sindicatos ou certos privilégios da classe estou a atacar cada professor em particular. João Miguel Tavares, Público.

 

Existe ainda um objectivo tácito, ó João: queres mostrar que tens autoridade moral para escrever sobre a escola pública. Não surpreende. Segundo muitos, provavelmente a maioria, quem não tem os filhos numa escola pública perde o direito de escrever sobre o ensino público, tal como quem só frequenta hospitais e clínicas privados não se deve pronunciar sobre o SNS. Esta opinião, absurda se pensarmos na lógica que rege a redistribuição da riqueza através dos impostos numa sociedade coesa, em que um cidadão se deve interessar pela construção de uma ponte que provavelmente nunca usará, resulta de uma pressão social exercida pela esquerda e pela direita, que quando se juntam criam a correcção política mais subtil e eficaz. Quando veiculada pela direita, esta opinião é um ataque ad hominem primário para enfraquecer os políticos de esquerda que têm os filhos nos colégios e defendem a escola pública. Quando veiculada pela esquerda, a ideia parece ganhar substância: é importante a classe média ter os filhos na escola pública, caso contário o ensino público entrará em decadência, dizem eles. Daí a necessidade de se gritar ao mundo que os filhos não frequentam "bolhas elitistas" e o pudor das "elites" nas discussões públicas e colunas de jornal quanto ao tipo de escola onde estudam os filhos. Ora, será que quem propagandeia que tem os filhos no ensino público se revela um cidadão exemplar ou simplesmente um inverted snob? No que me toca, a ideia do risco de decadência devido ao abandono do ensino público pela classe média soa-me demagoga - há estudos? - e hipócrita - havendo escolas públicas e escolas públicas, diz-me em que bairro moras e dir-te-ei se defendes esta ideia, camarada. Em todo o caso, primeiro a família e depois a sociedade é uma "razão de princípio". Será então que posso defender a escola pública e desejar que os meus impostos sejam usados para a melhorar, mas estar disposto a fazer tudo o que estiver ao meu alcance, inclusive escrever um romance histórico, para que as minhas filhas frequentem uma "bolha elitista"?  

 

20
Nov17

RAP segundo Alf


Eremita

Chamo a vossa atenção para mais um contributo imperdível de Alf, no O Elogio da Derrota. Meus caros, é hoje canja criticar e parodiar o puritanismo do politicamente correcto, pois não se vê outra coisa no estrangeiro e basta traduzir e adaptar como se fosse nosso para fazer um figurão - ah, a liberdade de expressão, mas haverá alguém que não seja pela liberdade de expressão? Já gozar com os críticos da puritanismo do politicamente correcto, expondo as suas limitações e asneiras, parece-me um exercício muito mais difícil, estimulante e urgente. A leitura dos excertos seguintes não dispensa a consulta e estudo do texto integral.

 

Antes de mais, um ponto de ordem. Se estamos realmente na posse das nossas faculdades mentais (o que não é garantido) julgamos ter compreendido o sentido da ironia do nosso inteligente humorista, RAP. A histeria crítica do nosso tempo - a que alguns chamam o integrismo ou puritanismo do «politicamente correto» - se existisse na época do bardo inglês, teria inibido o poder criativo de Shakespeare. Teria implicado com os poderes artísticos do maior poeta de todos os tempos. Dito de outro modo, se Shakespeare existisse hoje, talvez a sua gloriosa imaginação estivesse (esteja) a ser reprimida por esses infames inquisidores do «politicamente correcto».

Contudo, sou forçado a dizer (embaraçosamente) que Romeu e Julieta é - precisamente - uma peça sobre o «politicamente correcto» e não precisamos de ser escravos da preocupação com as redes sociais para interpretar cabalmente o assunto.

A peça começa com um edital ou a publicação de uma Lei - como muitas das peças de Shakespeare - na tentativa de estabelecer a ordem, perante o desconcerto do mundo. O que revela, desde logo, uma certa ansiedade com a repressão dos comportamentos. Ou seja, Shakespeare era um homem preocupado com o «politicamente correcto». Qualquer pessoa que participasse em distúrbios ou confrontos públicos na cidade de Verona, seria punida com a morte. Shakespeare estaria preocupado com a escalada de violência na sociedade em que vivia, e fez decorrer a acção sobre o absurdo irracional de todos os aqueles que, desobedecendo à lei, consideravam os interesses de família, direito e propriedade, superiores ao amor  selvagem entre duas mentes rebeldes. Ou muito me engano, ou isto soa um bocado «politicamente correcto». Mas estamos contigo, RAP, e não nos deixaremos perturbar.

(...)

Dirão os corajosos defensores da liberdade contra os esbirros do politicamente correcto: «a ironia de RAP pretende apenas denunciar como a deriva inquisitorial dos bons costumes corre o risco de inibir ou reprimir, ou até impedir, a expressão artística no seu mais elevado nível de realização». Certo, estaremos todos de acordo, embora, do meu ponto de vista, os critérios que permitem uma elevada realização artística dificilmente podem ser relacionados com o aumento ou a diminuição da liberdade de expressão, com muita pena o digo. O Elogio da Derrota

 

 

19
Nov17

Piano vs guitarra


Eremita

O contraponto é mais fácil de executar e resulta melhor no piano, mas quanto à ornamentação a guitarra é infinitamente superior - no fundo, quanto mais perto das cordas estiverem os dedos, melhor. Das disponívelis no Youtube, esta é, com grande grau de certeza, a melhor interpretação à guitarra do tema das Variações Golberg. O autor desta magnífica transcrição e interpretação dá aqui uma entrevista (só para aficionados) sobre este trabalho.

 

17
Nov17

Sinais de envelhecimento


Eremita

Um dos modos de fazer opinião mais tentadores consiste em expor as inconsistências ou até as contradições daqueles que embarcam nas ondas de indignação, aproveitando-se o gesto para defender as nossas causas ou a nossa gente. Opina-se assim em todo lado (blogs, redes sociais, jornais e televisão). Sobre a polémica do jantar da WebSummit no Panteão Nacional, Rui Tavares escreveu um exemplo competente desta receita, que deixará em delírio um jovem ateísta. Mas este velho ateísta que vos escreve já não vai na conversa do Rui Tavares e considera deplorável que se force sistematicamente uma leitura segundo as polarizações habituais (a esquerda e a direita, o conservadorismo e o progressismo), sobretudo quando a polémica resulta de uma profunda falta de bom senso (Rui Tavares devia ser o primeiro a perceber que é irrelevante que os túmulos perto das mesas do jantar sejam simbólicos e não reais). Daí eu ter preferido, mas de longe, o laconismo de António Guerreiro na crónica O culto Profano do Património

 

 

17
Nov17

As Mulheres na Ciência


Eremita

1177479.jpg

A escolha de Mónica Bettencourt-Dias para directora do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC) é uma excelente notícia, que nos obriga a uma reflexão sobre a imagem da mulher na ciência. Ao contrário do que os mais distraídos poderão pensar, a nomeação de uma mulher para a direcção de um instituto de ciência não é uma novidade. Aliás, os três principais institutos de biomedicina de Lisboa são dirigidos por mulheres: além do IGC, a Fundação Champalimaud é dirigida por Leonor Beleza e a directora do Instituto de Medicina Molecular é Maria Mota. Para os mais cépticos, que verão este facto como uma improvável coincidência, lembro também que o mais prestigiado prémio nacional (o Prémio Pessoa) foi mais vezes atribuído, na área da ciência, a mulheres (Maria de Sousa, Maria do Carmo Fonseca e Maria Mota) do que a homens (Manuel Sobrinho Simões e João* Lobo Antunes). Exceptuando Leonor Beleza, que chega a um cargo de poder por contingências pouco habituais, todas as outras mulheres destacaram-se primeiro como cientistas e as insinuações que já li por aí sobre o nome "brazonado" da nova directora do IGC são ignorantes e absurdas; ninguém da área da ciência negará que os percursos destas mulheres são exemplos perfeitos de uma meritocracia a funcionar. Que isto tenha acontecido num país católico e patriarcal, apenas há pouco mais de uma geração saído de uma ditadura, parece-me suficiente para celebrar e perguntar por que motivo não está a acontecer tão depressa noutras áreas da sociedade.

Tenho muito mais a dizer sobre o tema, mas o montado não pode esperar. A despropósito, relembro que procuro um parceiro para um negócio de produção de porco preto alentejano.

* Ver comentários. Por vezes introduzo erros nos meus textos para testar a concentração dos leitores. 

 

Pesquisar

Comentários recentes

  • Anónimo

    O texto do PP é antes do mais sobre o preconceito,...

  • Eremita

    Não vale a pena, Nelson. É alguém que comenta no C...

  • Anónimo

    De nada. Dentro do género também gosto muito dos F...

  • Anónimo

    Na minha cabeça não. Na do JPP não sei, mas presum...

  • Miguel

    Não conhecia os Atomic, mas estou a gostar. Obriga...

Links

WEEKLY DIGESTS

BLOGS

REVISTAS LITERÁRIAS [port]

REVISTAS LITERÁRIAS [estrangeiras]

GUITARRA

CULTURA

SERVIÇOS OURIQ

SÉRIES 2019-

IMPRENSA ALENTEJANA

JUDIARIA

Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D