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OURIQ

Um diário trasladado

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Um diário trasladado

04
Set17

Caprichos


Eremita

 

Este fim-de-semana debati-me com as primeiras duas páginas da peça Capricho Árabe e com o sifão do lava-loiças da cozinha. Em ambos os casos, houve frustração, perseverança, falsas vitórias, desespero e pequenos triunfos. Ao fim da tarde de domingo, o sifão já cumpria a sua função e as primeiras duas páginas estavam anotadas com a digitação (que corda pulsar e que dedo usar para a pressionar). A digitação é uma coreografia dos dedos em que se busca a economia de movimentos, a forma mais simples de obter o som que o compositor nos pede. Ao contrário do piano e à semelhança de outros instrumentos de cordas, na guitarra podemos tocar a mesma nota em posições diferentes do braço, o que causa alguma angústia e insegurança ao autodidacta. Felizmente, como o Youtube oferece inúmeras interpretações, em minutos ficamos a saber que soluções adoptaram os maiores guitarristas da actualidade. Mas a angústia da escolha não desaparece, apenas se transforma, porque há guitarristas que nos tentam com opções de digitação que são as de um prestidigitador. Que direito têm eles de subir o baixo uma oitava, só porque dá jeito? E que autoridade tenho eu, que nem guitarrista amador serei, de os criticar em defesa de um purismo que me paralisa literalmente, pois as dificuldades que eles encontraram são para mim impossibilidades? 

 

Continua

 

 

02
Set17

Importar ideias à bruta


Eremita

Nunca digas: "desta água não beberei", sobretudo se já a bebeste. Confesso ter discutido o Criacionismo com um protestante lusitano, um debate importado dos EUA, sem grande tradição e nenhuma relevância em Portugal, porque o ensino da Evolução não está em perigo. Mas em minha defesa poderia argumentar que nunca debati o Criacionismo embuído de um espírito de missão, como se desse ao tema a relevância de um problema ou ameaça social. Pelo contrário, a mais recente crónica de Henrique Raposo no Expresso, intitulada "Requiem dos machos", é um exemplo perfeito da moda de importar debates que apanhamos de ouvido na imprensa estrangeira e não se adequam à nossa realidade. Henrique Raposo leu coisas na The Atlantic e vem dizer-nos que os rapazes, por causa da internet, dos gadgets e da "destruição dos códigos e actividades masculinas", já não se interessam por sexo. Meus amigos, num país a atravessar uma grave crise de natalidade, isto é prosa incendiária. E o tom não podia ser mais alarmista: "Jovens e velhos enforcam-se como nunca". Mas que jovens? Os norte-americanos? Os japoneses, citados en passant na crónica? Os adolescentes portugueses, que começam a ter sexo quando Raposo ainda nem brincava com a pilinha? E, sabendo nós que o suicídio entre os velhos diminuiu nos EUA, em Portugal e até no Japão, a quem se refere Raposo? O cronista não nos esclarece, talvez por um assomo de consciência. É ao leitor que cabe compor uma demografia inventada, feita de velhos do Baixo-Alentejo e de jovens japoneses. É o leitor que tem depois de sacudir da cabeça o nexo causal absurdo entre a perda de "códigos" masculinos e o desinteresse pelo sexo que acaba por conduzir ao suicídio. Saberá Raposo que, nos EUA, o grupo que teve o maior aumento relativo de suicídio nos últimos anos foi o das raparigas? Fica ainda a pergunta: que pensará Raposo do seppuku, o ritual de suicídio entre samurais? Será um "código" masculino útil? Um suicídio, certo, mas um suicídio à homem, que devemos preservar como tradição?

 

Há uns anos, estavam na moda os livros e artigos sobre o declínio dos homens, uma decadência social e até biológica. Em pouco tempo, estas teses fortaleceram os até então vestigiais movimentos de defesa dos direitos dos homens (em rigor, dos machos que não podem reclamar-se de nenhuma minoria), já descritos como a melhor forma de recrutar rapaziada para a Alt-right, que faz da defesa dos direitos dos homens, supostamente ameaçados pelo politicamente correcto e um feminismo galopante, uma das suas grandes causas. Semanas depois dos confrontos de Charlottesville, esta converseta de Raposo sobre os direitos dos homens e os "códigos" masculinos é de uma candura insustentável.

 

 

 

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