Um caiaque
Eremita
O meu caiaque chegou e fui ontem testá-lo na barragem. Na véspera enchi e esvaziei o brinquedo na sala, para no dia seguinte não passar por nenhum embaraço público. Foi excesso de zelo, pois às 7 da manhã não há ninguém na barragem, excepto o surfista, que convidei para me acompanhar e não é pessoa de fazer pouco dos outros. Diga-se que a motivação para comprar um caiaque é algo embaraçosa. Há muitos anos, a magreza parecia-me incompatível com uma vida sexual realizada. Depois passou, porque - surpreendentemente - há mulheres que gostam de homens magros. Mas a chegada das minhas filhas trouxe de volta este desconforto com o corpo, agora transfigurado em complexo de pai insuficientemente protector. Se, num instante, podemos cair numa distopia, como sucedeu recentemente em cidades do Brasil que se viram sem polícia e obrigaram um amigo a barricar-se em casa com a mulher e a filha bebé, vou precisar de um torso e braços mais fortes para impor respeito e proteger a minha família pelo simples efeito dissuasor da minha envergadura e do vigor dos meus bíceps. O problema, a juntar a uma genética que me parece pouco predisposta a fazer músculo, é que qualquer actividade tem a sua técnica, uma curva de aprendizagem, dificuldades impensáveis. Até para aprender a remar, uma acção aparentemente tão simples e intuitiva, há inúmeros vídeos explicativos no Youtube. Devia ter começado por ver um, porque regressei da barragem com uma ligeira dor no ombro e não sei quando lá voltarei. Frise-se que o surfista não fez nenhum comentário depreciativo ou jocoso e nem sequer se ofereceu para levar o caiaque de volta, porque é um homem com um fino entendimento da condição humana.
