O glorioso Alberto Gonçalves
Eremita
Alberto Gonçalves tem uma prosa humorística superior à de Ricardo Araújo Pereira e só ainda não ganhou um prémio de crónica por ser de direita. Esta conclusão parece-me objectiva, apesar dos problemas domésticos que RAP me provoca e nunca escondi. Se dúvidas houver, leiam a última crónica no Observador de Alberto Gonçalves, um dos melhores exemplos do seu brilhantismo como humorista, mas também um exemplo do primado da forma sobre o conteúdo. Gonçalves escreve como se Helena Matos tivesse aprendido a pontuar a prosa e Henrique Raposo descoberto a subtileza literária, mas como é infinitamente mais engraçado e melhor escritor do que estes seus companheiros críticos do "marxismo cultural", o seu caso acaba por ser o mais trágico. Porque se é verdade que numa sociedade totalitária o humor desempenha um papel crucial, por servir para dizer o que não pode ser dito, numa sociedade aberta o humor apenas serve para não comprometer o autor. Um pensamento de direita convicto, que não seja meramente reactivo e irónico, implica uma coragem e uma qualidade de raciocínio raros. Existe em Portugal alguém com a coragem e clareza de Douglas Murray, um dos grandes críticos da multiculturalismo no Reino Unido? Duvido. Make no misktake: Murray também sabe ser hilariante, mas o seu humor é um bónus. Para agradar ao leitor de direita, Gonçalves passou a tomar as suas hipérboles pela realidade, inventando um país que não existe, e viciou-se no humor. Ele é - cada vez mais - um cronista para se levar a sério apenas na brincadeira.

