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OURIQ

Um diário trasladado

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Um diário trasladado

21
Jun17

A sensatez


Eremita

Manuel Carvalho é, provavelmente, o cronista mais sensato a escrever em Portugal.  Na crónica, a sensatez é inimiga do estilo e não satisfaz o leitor que procura divertir-se, surpreender-se e indignar-se. Os nossos cronistas mais elogiados, de Pulido Valente a João Pereira Coutinho, passando por Ricardo Araújo Pereira, são propositadamente insensatos. Ora, com o passar dos anos, começa a faltar paciência para a insensatez. Manuel Carvalho deve ter poucos leitores jovens e nunca ganhará um prémio pelas suas crónicas, mas continuará a ser lido com atenção em Ourique. 

19
Jun17

Sepultar os vivos, cuidar dos mortos


Eremita

Não conheci presidente mais talhado para veicular a dor de uma nação do que Marcelo Rebelo de Sousa; nem o Obama da voz timbrada se aproxima do virtuosismo do nosso presidente. A empatia natural de Marcelo, treinada pelo seu catolicismo e reforçada pelo mais alto sentido de Estado faz dele um super-herói da empatia e dos "afectos". Não estou a ser cínico. No imediato, Marcelo é precioso. Resta apenas saber se, num segundo tempo, o comportamento de Marcelo não será contraproducente. Conhecemos bem a capacidade de resposta do Presidente às calamidades: ele é sempre o primeiro a chegar. Mas não se sabe se Marcelo, sempre frenético, tem a paciência, persistência e teimosia necessárias para acompanhar as operações de rescaldo e aplicar a sua magistratura de influência no trabalho de bastidores de que dependerá, por exemplo, a prevenção dos incêndios do Verão de 2018. Quando vejo o Marcelo solidário, fico sempre com a dúvida de saber se estou a assistir à caridade cristã como meio para erradicar a pobreza e a miséria ou como fim que se realiza na expressão dos bons sentimentos. 

17
Jun17

Adão e Silva e Daniel Oliveira lavam mais branco


Eremita

A nomeação de Lacerda machado para a administração da TAP não tem, por si só, nada de condenável. Não há qualquer conflito de interesses em alguém que negociou a reversão de uma privatização e uma empresa em nome do Estado ser nomeado para representar esse mesmo Estado nessa mesma empresa. Daniel Oliveira

 

O que seria, de facto, uma pouca vergonha é que alguém que tivesse estado envolvido na negociação de uma privatização do lado do Estado, após a conclusão do processo, migrasse para a empresa privada, por indicação dos acionistas privados. Pedro Adão e Silva.

 

No Expresso, Pedro Adão e Silva e Daniel Oliveira, como meninos de coro afinados, tentam convencer o leitor de que, ao contrário dos casos de Ministros que durante os seus mandatos acautelaram a sua saída do Governo para empresas privadas que terão beneficiado, a ida de Lacerda Machado para a administração da TAP configura uma migração de sentido inverso. Logo, como a primeira migração é perversa, a segunda só poderá ser virtuosa. Nestes momentos de ofuscação motivada por simpatias políticas, é oportuno recordar o que Manuel Carvalho escreveu a 17.4.17 sobre Lacerda Machado:

 

Um negociador desta estirpe é uma espécie de rei Midas que qualquer primeiro-ministro que se preze gosta de ter ao seu alcance. Sendo amigo, melhor ainda. O problema é que, ao que se sabe (e sabe-se o suficiente), Diogo Lacerda Machado continua mostrar na sua esfera de acção profissional zonas de atrito com o interesse público, em particular com o da TAP. A começar, ele continua a ser administrador dos interesses de Stanley Ho em Portugal o que, por princípio, não seria impedimento para que interviesse como agente especial do Governo nas negociações da TAP, se o seu capítulo de defensor de legítimos interesses privados na transportadora aérea estivesse em absoluto enterrado no passado da VEM. Ora, não é o caso. Como o PÚBLICO revelou, “Stanley Ho tem ligações ao grupo chinês que quer comprar a TAP”. Um pouco mais de prudência, ou de pudor, teria, por isso, desaconselhado a intervenção de Diogo Lacerda Machado no processo.

Vejamos porquê. Uma das novidades que saíram das negociações que fizeram reverter a maioria do capital da transportadora para a esfera do Estado é a entrada indirecta dos chineses da Hainan Airlines na TAP. Quer dizer, a Hainan ficou dona de uma fatia das acções da brasileira Azul e como a Azul tem uma fatia de acções na TAP, logo os chineses são, indirectamente, donos de uma parte da TAP. E o que é que isto tem a ver com Diogo Lacerda Machado? É que, em Hong Kong, o seu “patrão”, Stanley Ho, tem uma sociedade com a Hainan Airlines. Sem muito esforço, é possível colocar em cima da mesa uma relação de interesses, ainda que remotos, ainda que indiciários, ainda que pouco fluidos, entre o negócio da TAP e o empresário macaense. Ou seja, o Diogo Lacerda Machado que representava o Governo era o mesmo Diogo Lacerda Machado administrador de uma sociedade de um empresário macaense que partilha interesses económicos com uma empresa chinesa envolvida nessa mesma negociação com o Estado.

Dizer que esta relação é por si só justificativa de um ataque ao Governo por presumível alimentação de negócios suspeitos de falta de transparência pode ser um exagero. Mas já não é exagero nenhum afirmar que, face à importância e sensibilidade do negócio da TAP, Diogo Lacerda Machado não reunia condições para desempenhar o papel que desempenhou. Custa a perceber que o melhor homem do mundo para defender o interesse do Estado seja um gestor com este passado e este presente de associações à TAP e a Stanley Ho. Como escreveu no PÚBLICO Pedro Sousa Carvalho, “não haverá entre os 17 ministros, os 41 secretários de Estado, os não sei quantos assessores e adjuntos ou entre os 650 mil funcionários públicos alguém com competência para representar o Estado nessas negociações?”.

Há outras perguntas. António Costa sabia destas ligações à TAP e percebeu que ao autorizar a entrada dos chineses estava a desfiar uma remota ponta de ligação ao patrão do seu amigo? Porque não se fez um escrutínio prévio a esta nomeação? Alguém acredita que se uma escolha destas fosse feita pelo anterior Governo (ou o de Sócrates, ou outro qualquer antes dele) teríamos o Bloco e o PCP mudos e quedos como estão em relação ao passado e ao presente do agente especial do primeiro-ministro?

E é então aqui que encaixa a informalidade com que António Costa deixou correr o pano. Não estando Diogo Lacerda Machado completamente à margem de eventuais conflitos de interesses no negócio da TAP, ao menos que se submetesse desde o início a um qualquer tipo de vínculo contratual com a função pública. Ter negociado o processo da TAP na condição de franco-atirador do Governo que, ao mesmo tempo, mantinha um pé nos assuntos de Stanley Ho e um passado de bons negócios com a TAP, é, enfim, uma história digna de uma república das bananas. Depois da pressão generalizada (até do Bloco e do PCP), o Governo lá tratou de enquadrar as suas funções num contrato . Era bom que nos desse agora muitos e bons argumentos para ficarmos sem a mínima réstia de dúvidas de que Diogo Lacerda Machado agiu do princípio ao fim com o exclusivo empenho em defender o interesse nacional, e não em busca de um novo e putativo negócio da China.

16
Jun17

Agência Europeia do Medicamento em Ourique


Eremita

Screen Shot 2017-06-16 at 09.20.28.png

 

Conterrâneos e outros,

 

Qual é a medida do bom senso? O selo do bom senso aparece quando, de modo tão irreprimível como uma gargalhada ou uma bufa, damos de imediato razão a quem habitualmente criticamos. Tem razão Paulo Rangel quando põe em causa a decisão da uma candidatura de Lisboa à Agência Europeia do Medicamento (AEM). Lisboa colecciona já duas agências europeias. Não há nenhuma cidade com três agências. É preciso acrescentar mais alguma coisa? Que a euforia dos lisboetas não comprometa os destinos da pátria. Mas acrescento: que o complexo de inferioridade dos portuenses não nos comprometa também. E acrescento ainda mais: esta não é uma discussão para ser liderada por colunistas presunçosos deslumbrados com a União Europeia, como o senhor Rui Tavares, autoproclamado autor da ideia de trazer a AEM para Portugal. Sejamos sérios. Portugal tem de libertar-se da polarização Lisboa-Porto e não pode ser o colunismo centralista a liderar a descentralização. Cai sobre nós, minha gente, sobre nós, o fardo de assumir a descentralização de forma simbólica, radical e até revolucionária no contexto europeu. Todas as agências europeias estão localizadas em cidades. É tempo de inverter este viés absurdo. Uma agência europeia pouco pode fazer por uma cidade com um milhão de habitantes, mas a sua instalação num burgo de pequenas dimensões seria revitalizadora para o tecido urbano e social. É tempo de pôr os interesses das localidades à frente dos interesses dos burocratas que trabalham nas agências, gente há tanto tempo a circular nos corredores do poder que se esqueceu do verdadeiro espírito de serviço público. Tentemos essa experiência! Contra Lisboa, contra Bruxelas até, mas pelos alentejanos e toda a enorme coligação silenciosa e silenciada de europeus que vivem em pequenos burgos. Meus caros, a AEM tem de vir para uma vila e essa vila será Ourique! Ao seu papel central e fundador no imaginário lusitano, Ourique junta características únicas para acolher uma instituição dedicada ao medicamento. O Baixo-Alentejo é hoje habitado por uma população idosa com particular queda para o suicídio. Haverá melhor escolha para a localização de uma agência dedicada aos remédios? Como se não bastasse, ficando Ourique a 58 km de Beja, a AEM iria finalmente transformar o aeroporto de Beja numa valência que não envergonharia a pátria. Mas a característica principal, meus amigos, é mesmo a pequenez da nossa vila. Assumamos a natureza revolucionária e confrontacional da nossa candidatura. Somos menos de 2000. A AEM iria deslocar para Ourique um número considerável de famílias que teriam um enorme impacto demográfico, arquitectónico, social e económico. De repente, Ourique passaria a vila cosmopolita, o que exigiria uma escola internacional, outras gastronomias, uma oferta cultural dinâmica, novos negócios, boas casas, quem sabe se um ringue de curling... Seríamos um caso de estudo, um exemplo incontornável para todos os movimentos descentralizadores à escala europeia e até mundial. A nossa Ourique não pode continuar exclusivamente agarrada à economia do montado. Não queremos ser apenas a capital do porco preto. Devemos também chamar a nós o desígnio de porta-estandarte de todos os deserdados da centralização europeia! Chamo-me Fausto Gomes e aprovo esta mensagem. 

 

 

14
Jun17

Um herói acidental


Eremita

António Lobo Xavier é um advogado especialista em direito fiscal. A actividade de um advogado especialista em direito fiscal consiste em encontrar formas legais de poupar impostos ao seu cliente, geralmente um cidadão ou entidade com rendimento ou património suficientes para rentabilizar os honorários do advogado. Por estes motivos, um advogado especialista em direito fiscal só não perde em popularidade para o advogado dos grandes mafiosos. Mas se for para defender Cristiano Ronaldo, o ídolo da pátria, o caso muda de figura. O português mais conhecido de todos os tempos, o desportista mais bem pago do mundo, o filho exemplar, o profissional irrepreensível, o líder nato, o filantropo, o craque que nunca recusa um abraço a um fã, o nome de aeroporto... enfim, uma pessoa assim não pode ter problemas com o fisco, nomeadamente o fisco espanhol. Nem pode sequer ser ameaçado com uma pena de prisão, nomeadamente se for para ser cumprida num cárcere espanhol. Por isso, saiu a sorte grande a Lobo Xavier. Aliás, tendo em conta a mediania das suas prestações semanais na Quadratura do Círculo, creio mesmo que não terá outra oportunidade na vida para brilhar tanto. 

12
Jun17

O discurso de Sobrinho Simões


Eremita

Com a curiosidade espicaçada pelos elogios a Manuel Sobrinho Simões (MSS) no Bloco Central, fui ouvir o seu discurso do 10 de Junho. Esta é uma pulsão inusitada, pois não costumo ligar a discursos protocolares. Mas a MSS darei sempre o benefício da dúvida, em parte por ainda sentir um entusiasmo corporativo, apesar de ter abdicado da ciência há quase 10 anos, e também por ter assistido a algumas das suas aulas e percebido que se trata de um ser excepcional, pela inteligência e empatia.

 

O seu principal mérito, além da postura relaxada, foi a ousadia. Mesmo tendo em conta a enorme predisposição natural para nos embevecermos com os elogios ao novo povo, falar na genética dos Portugueses no "dia da raça", para usar a expressão do Estado Novo, é um desastre anunciado que só um homem com o charme de MSS seria capaz de evitar. A sua estratégia assentou em duas ideias. Apresentou primeiro, como testemunho das nossas migrações, a distribuição geográfica mundial de alelos (versões de genes) de cunho lusitano associados à paramiloidose, à doença de Machado-Joseph e ao cancro da mama; embora haja um toque de deformação profissional neste entusiasmo algo desconcertante pela geografia da enfermidade, ao grande patologista tudo se perdoa. Depois, MSS referiu-se à diversidade genética do genoma dos Portugueses como prova da nossa abertura ao mundo, o que soou a paráfrase da ideia de que o português inventou o mestiço. Ora, como símbolo de uma sociedade inclusiva e um povo tolerante, o genoma multiétnico do lusitano é uma ideia simpática apenas à superfície e no limite branqueadora das "limpezas de sangue" que fomos fazendo. De resto, "a reduzida percentagem de mulheres na emigração portuguesa" por comparação com a emigração para os EUA, explica mestiçagem, o que é uma visão desancantada. É verdade que nunca MSS reduziu o povo à sua genética e sempre a mencionou para referir que somos todos parentes uns dos outros, mas se a nossa sociedade fosse mais instruída e realmente inclusiva, tendo as minorias étnicas voz e poder, o elogio não teria sido tão consensual. 

  

 

11
Jun17

A morte do escritor


Eremita

Na semana passada, a morte do poeta Armando Silva Carvalho coincidiu com uma jornada excursionista de jornalistas da imprensa, da rádio e da televisão, promovida pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, à aldeia de Estevais, para apresentação de um livro sobre Trás-os-Montes, de José Rentes de Carvalho. (...) Comparada com a generosidade jornalística a que esta excursão étnico-literária teve direito, a morte de um dos nossos grandes poetas contemporâneos teve uma repercussão escassa, demasiadamente escassa. (...) Esta comparação subentende uma queixa, mas devo dizer que só a formulei para dizer a seguir que é uma queixa sem razão. E baseio-me nas palavras sábias de um grande poeta e ensaísta alemão, Hans Magnus Enzensberger, que escreveu em 1988 um artigo que se chama O grau zero dos media ou porque é que todas as queixas contra a televisão são sem objecto. São sem objecto, escreveu Enzensberger, porque consistem em criticar a televisão em função do que ela não é, como se não estivesse a cumprir a sua missão. (...) Que direito temos nós de lhe atribuir uma tarefa que não está no horizonte das suas promessas? Fazer dos media o alvo de todas as críticas, a propósito de matérias das quais eles se alhearam há muito, é errar o alvo e uma perda de tempo. António Guerreiro, Público

Com alguma periodicidade, António Guerreiro oferece-nos crónicas de pendor algo niilista que valem como exercício de estilo. Pressente-se que Guerreiro não acredita verdadeiramente nas "palavras sábias" do ensaísta mencionado. A crítica pressupõe uma ideia (um modelo) daquilo que o objecto que se critica deveria ser, o que coloca vários problemas ao crítico, da irredutível subjectividade à incapacidade de reparar nos raríssimos casos em que o objecto reinventa o modelo, mas recusar uma idealização seria abdicar da crítica. Sem perder muito tempo com a comparação a José Rentes de Carvalho, um escritor que Guerreiro parece desprezar, a pergunta que fica é: a morte de Armando Silva de Carvalho teve uma repercussão escassa? Qual o termo de comparação? A morte de Mário Soares? A de algum outro poeta - estamos todos a pensar no mesmo - recentemente desaparecido? Ou resultará a expectativa de Guerreiro do pressuposto de que, entre todas as vocações que deixam legado para o grande público, é o escritor quem mais namora em vida a imortalidade, pelo que o momento da sua morte é crucial para se avaliar da intemporalidade da obra? Não sabemos, mas é raro ouvir-se o lamento pela repercussão escassa da morte de um cientista, jurista, político, etc. Não há nada mais habitual do que morrer no esquecimento, mas no caso do escritor dá direito a notícia, lamento e até indignação. Se alguém tiver dúvidas, recomendo a leitura de Pensar, do Vergílio Ferreira que pressentia já a chegada da morte. 

 

Que repercussão nos media teve a morte de Armando Silva Carvalho? Os artigos mais longos foram os do Público, (reproduzido pela Assírio e Alvim) e do "i",  que publicou um testemunho de José Manuel Vasconcelos. Houve artigos mais curtos no DN (reproduzido pelo Centro Nacional de Cultura) e na revista Sábado, bem como várias notas publicadas na imprensa ou nas páginas de instituições, a saber: a Associação de Professores de Português, o Avante!, o Círculo da Inovação, o DGLAB, o Diário de Leiria, o DGLAB, o e-Global, o Esquerda.net, o Expresso, o Instituto Camões, o Jornal da Caldas, o Jornal do Luxemburgo, o Jornal de Mafra, a Lux, o Net Madeira, o Notícias ao Minuto, o Óbidos Diário, o Observador, a Rádio Cruzeiro, a Rádio Renascença, o Redator, o Tomar TV e uma referência en passant no Macau Hoje. Houve também comunicados: da Presidência da República, do Ministro da Cultura e da APE. Os blogs que reagiram com textos originais, citações dos artigos de imprensa ou publicação de poemas do poeta foram: ArposeAté ao FimAntologia do EsquecimentoO Bicho das LetrasCompanhia de Insegurosblog de Luís Soares, Da LiteraturaLvsiosO Melhor AmigoModo de Usar & co.No País da MagiaOlá BibliotecaProsimetronQue Fazer Desta SebentaRuas com HistóriaSomos LivrosA Viagem dos Argonautas e Voar Fora da Asa. Não frequento as redes sociais para poder ser mais exaustivo neste levantamento. É pouco? É justo? Armando Silva Carvalho merecia manchetes e abertura nos telejornais? Um Ípsilon especial inteiramente dedicado à sua obra? 

 

Portugal tem mais astrólogos do que astrónomos* e poetas do que leitores de poesia. Qual a dimensão da comunidade de verdadeiros leitores de poesia em Portugal? 5 mil? Não chegará seguramente aos 50 mil. Que importância social tem hoje a poesia? Contra mim falo, pois não o suporto, mas que outro poeta depois de Manuel Alegre marcou uma geração? Que poemas escritos depois de Cântico Negro, de José Régio, sem a boleia de uma canção, se declamam por aí de cor nas noites de boémia? Alguém duvida que, daqui a 200 anos, do século XX sobrarão Fernando Pessoa e talvez Herberto Helder, sendo todos os outros hoje tidos por relevantes remetidos para antologias colectivas, trabalhos de académicos, os alfarrabistas do futuro e as bibliotecas de meia dúzia de literatos enciclopédicos?

 

Nada tenho contra Armando Silva Carvalho, antes pelo contrário; li com enorme prazer e fascínio o livro (de prosa epistolar) que escreveu a meias com Maria Velho da Costa. Mas hoje, quando morre um escritor, impõem-me um peso na consciência que me leva a querer adquirir a obra completa do defunto. Esta mania de que estamos permanentemente em falta com os nossos escritores, alimentada por afinidades electivas e matreirices de livreiro, tem de acabar. Não há literalmente tempo para tanta dar atenção a tanta gente, entre mortos, vivos e obras que alguém se lembra de ressuscitar. Nem tempo, nem dinheiro, nem ansiolíticos. 

 

A repercussão da morte do editor Vitor Silva Tavares foi escassa, pelo menos para mim. A repercussão mundial, em Espanha e em Portugal da morte de Paco de Lucia, um génio absoluto, foi escassíssima, pelo menos para mim. Mas o que significa isto? Apenas que a estima de quase todas as pessoas por estas duas criaturas excepcionais fica muito aquém da minha, o que é imensamente gratificante. 

 

* A autoria da fórmula "mais astrólogos do que astrónomos" é, salvo erro, de Carl Sagan.

 

 

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