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OURIQ

Um diário trasladado

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Um diário trasladado

11
Mai17

Um tempo preciso


Eremita

[actualizado]

 

Estes contos [Ronda das Mil Belas em Flol, de Mário Carvalho] fixam um tempo preciso, que talvez coincida com os anos 70 e 80 do século passado, mas isto é presunção de leitor atento à linguagem e ao modus operandi das personagens, sem resquício de juízo valorativo. Eduardo Pitta, 1.10.2016, Sábado

 

Vou ainda a dois terços do livrinho, mas já apanhei três detalhes que seriam anacrónicos nos anos 70 e 80 do século passado: uma das mulheres desloca-se de Smart, um carro que foi lançado em 2003,  o narrador esquece-se de bloquear um número de telefone e há num conto aparece uma referência a correio electrónico. Por outro lado, a importância que Mário de Carvalho dá à pilosidade púbica parece algo datada. Voltarei a este tema. 

 

Aproveito para vos recomendar também a crítica de Alberto Velho Nogueira ao livro de Mário de Carvalho, que é diametralmente oposta à de Pitta a todos os níveis. Nenhuma das críticas me satisfez. Correndo o risco de cometer uma grande injustiça, pois do autor só li um romance, dois livros de contos e um manual, o vocabulário extenso de Mário de Carvalho, rico em palavras caídas em desuso ou a que ninguém alguma vez recorreu com frequência, nem sempre se articula de um modo orgânico com a prosa, que ganha ressonâncias de português com restauro de mérito duvidoso. Quanto ao livro em concreto, Eduardo Pitta e Alberto Velho Nogueira não discutem o elemento mais paradoxal: por que motivo os contos sobre sexo de Mário de Carvalho, que incluem descrições explícitas de práticas sexuais, são tão anticlimáticos? 

09
Mai17

Manuel (9)


Eremita

Screen Shot 2019-05-15 at 22.22.23.png

fonte

Manuel, fiel, era assaltado pela dúvida de saber se a masturbação seria uma zona franca para a libertinagem. Nunca pensava na namorada de longa data durante tais práticas, uma exclusão que começou por lhe parecer sensata, para não associar o seu amor às lembranças traumáticas da puberdade, como as inquirições matutinas sobre as manchas nos lençóis ou os exercícios masturbatórios colectivos em que apenas participara devido à pressão dos pares, e que depois de entrar em Direito passaria a interpretar como uma prova de respeito, por ter concluído que estaria a abusar da imagem dela, o que configuraria uma violação do direito à imagem, algo impensável para ele; punheteiro, sim, mas formalista. Perguntar à namorada se o autorizava nunca foi parte da solução, porque pertencia ao grupo de homens para quem perguntar era um sinal de fraqueza. Com o passar dos anos, a sua explicação deixou de funcionar e, apesar de cada vez menos frequentes, cada masturbação no duche deixava-o moralmente ressacado. Foi então que, durante um serão entre colegas, sem que tivesse procurado o conselho, ouviu um aparte durante uma disputa de fanfarronices: "A infidelidade em pensamento só acontece quando se pensa em alguém em concreto". No caminho para casa, foi trabalhando a teoria e na manhã seguinte tinha apurado um conceito, que parecia manejar na cabeça com o mesmo prazer com que o garimpeiro roda nos dedos a pepita retida pela peneira. Com alguma pompa, apelidou a sua ideia de "diluição de responsabilidade por quimerização do objecto de desejo". Nesse dia, o duche foi mais longo do que era habitual, mas executou as restantes rotinas domésticas com um voluntarismo e ânimo tais que acabou por recuperar os minutos perdidos, chegando ao emprego a horas.

 

A quimerização do objecto do desejo parecia funcionar. Manuel punha em prática a sua ideia com o zelo de um criador que sente uma obra-prima entre as mãos. Ia buscar à Nouvelle Vague um corte de cabelo, da publicidade extraía um par de pernas e lábios polposos, um olhar de alguém com que se cruzou podia aparecer de repente, como um relâmpago inofensivo. Quando estava cansado e com pressa, recorria às nádegas e mamas da pornografia soft, mas ao fim-de-semana investia na construção de quimeras surpreendentes, verdadeiras criações que fundiam as imagens do cinema e da rua com as do retrato fotográfico, da pintura dos grandes museus, da estatuária em mármore, da banda desenhada francófona e da manga japonesa. As suas mestiças em mosaico sublimes e nunca repetidas entre masturbações, cuja diferente matéria  se harmonizava na cinética do corpo, eram, no fundo, mulheres sem personalidade jurídica, com uma biografia sem passado nem futuro, que se esgotava na fantasia que Manuel criava. O seu apuro atingiria um virtuosismo impensável, sobretudo na anonimização do rosto e na quimerização de segundo e superiores graus. O primeiro processo consistia na produção de uma imagem de fusão de múltiplas caras, fosse em composição cubista, síntese computurizada de uma simetria matemática ou por um efeito de estroboscópio, em que de múltiplos rostos acelerados surgia um rosto de uma placidez lasciva indescritível. O segundo consistia no uso de quimeras de fantasias anteriores como matéria-prima para a construção de novas quimeras, método em que, pela reiteração sucessiva, Manuel apostava, pois a libertação só lhe parecia possível no dia em que atingisse a completa abstracção do acto masturbatório.

 

Passaram-se anos sem história. Um dia, uma velha quimera bate à porta do quarto de hotel de luxo que Manuel fantasiava e a ménage à trois que se segue deixa-o apreensivo. Na vez seguinte, surgem mais velhas quimeras, que o perseguem com uma sofreguidão ninfomaníaca. Manuel sente-se refém das suas criações, sem lhes conseguir resistir. Cada fantasia transforma-se primeiro num bacanal, depois num enredo de contornos sadomasoquistas e a seguir num autêntico ajuste de contas com as quimeras a revelar consciência de classe, aguentando Manuel como podia, sem nunca deixar de reincidir, até ao momento marcante da desquimerização de um dos objectos de desejo, que o põe em confronto com imagens de múltiplas mulheres de existência real e o leva a abandonar para sempre a masturbação matinal no duche. 

 

 

 

07
Mai17

"Pornografia Religiosa"


Eremita

Sou acusado de fundamentalismo por não pactuar com o circo montado em torno do centenário das aparições de Fátima, celebração de um logro por de mais desmontado e desmentido, uma patranha para ludibriar pessoas de fé. Não ando a apedrejar peregrinos nem os atropelo quando os vejo na berma da estrada, mas não esperem de mim que sinta a mínima simpatia pelos sacrifícios a que se propõem - quase sempre em troca de intervenções divinas para males pessoais. 

Fátima é um negócio que reduz a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) às práticas tão censuradas da Igreja Universal do Reino de Deus, com a diferença de que o negócio da ICAR é bem mais universalista e poderoso. O que se passa no santuário é do domínio da pornografia religiosa, nada tem que ver com a mensagem discutível, mas autêntica, do Cristo que expulsou vendilhões do templo. 

(...)

Que a imprensa se arraste de joelhos atrás disto, promovendo e exibindo o espectáculo sem critério que não seja o do puro sensacionalismo, que políticos da República laica se deixem também arrastar pela onda de populismo, são efeitos mais que previsíveis neste mundo em que tudo vale para se estar na crista das audiências. Tudo isto faz parte de um ambiente geral de alienação que só me deixa atónito com as contradições insanáveis do regime em que vivemos. 

Como convencer as pessoas dos benefícios da vacinação quando depois somos tão negligentes em matéria de racionalidade? Como esperar das populações progressos críticos e intelectuais quando depois aceitamos ser cúmplices deste medievalismo cultural? Como fugir ao sensacionalismo e à pornografia mediáticos quando depois nos instalamos pacificamente no meio do espectáculo com os braços cruzados? É impossível ficar indiferente a tudo isto. No limite da indiferença surge a inevitabilidade do nojo. Antologia do Esquecimento

 

 

05
Mai17

Moda Masculina e Existencialismo


Eremita

Muito antes de se dar pelos movimentos de protecção dos direitos dos homens nos EUA, já os franceses Alain Soral (hoje ostracizado pelo seu anti-semitismo galopante) e Eric Zémmour (cada vez mais omnipresente nos media franceses) tinham escrito sobre o tema em grande sintonia. A tese é conhecida: a entrada crescente das mulheres do mundo do trabalho perturbou os papéis tradicionalmente assumidos pelos dois géneros, levando à "feminização" dos homens. Na semana em que um príncipe abandona a vida pública, deixando a rainha de poder partilhar com ele o fardo da representação, e em que o actor Brad Pitt dá uma entrevista como a parte fraca de uma relação que terminou, os adeptos da "feminização do mundo" terão pretextos para divulgar as suas ideias. Mas pode ser que a oportunidade revele a figura ridícula e paradoxal que é o reaccionário misógino queixinhas. Vamos ao que interessa.

 

Foi a L. que me enviou o link para a entrevista de Brad Pitt à GQ. O que teria ela querido comunicar subliminarmente? Estaria a dizer-me para me manter longe dos charros, da bebida e do vício no trabalho, aparentemente as razões do falhanço doméstico de Pitt? Para não fraquejar na meia-idade, nem me esvair na desesperança? Para esquecer as feridas narcísicas e assumir de vez a condição de alicerce de uma família? Depois de ler a entrevista, é impossível não sentir empatia. O homem está um caco, embora a magreza lhe tenha devolvido, aos 53 anos, um torso quase juvenil. E como não gostar de um actor estimável que cita David Foster Wallace ("Truth will set you free, but not until it's done with you first"*)? Como não apreciar a sua viva consciência de que ganhou a lotaria, ao contrário de certas figuras que hoje se passeiam pelo mundo sem noção do privilégio que as envolve? Vale a pena ler, mas sem deixar de ver as fotos. O choque entre o tom existencialista das respostas de Pitt e as abundantes fotos do actor a fazer de modelo nas paisagens dos magníficos parques americanos, legendadas a letra conspicuamente discreta, para que saibamos, sobre todos os artigos envergados por Pitt, a marca e o preço exorbitante, é um maná para se teorizar sobre o estado do mundo, houvesse tempo para isso e alguma certeza de se poder extrair algo de novo. Eis o essencial: talvez a minha mulher, no fundo, estivesse apenas a dizer-me para cuidar do guarda-roupa, o que é uma hipótese bem mais simpática. 

 

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* Em rigor, o que Wallace escreveu em Infinite Jest foi: "The truth will set you free. But not until it is finished with you.

 

04
Mai17

Paulo e André (8)


Eremita

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Por confiar nele, o seu grande amigo de infância, filho do grande amigo do seu pai, Paulo confessou a André que era infiel à sua mulher. André não acusou surpresa, como se já o soubesse. E aproveitou para se gabar de que era fiel à sua mulher praticamente desde que se tinham casado. Explicou assim: "É essencial que cometas a pior das infidelidades quanto antes e que o teu remorso te iniba de reincidires, mesmo nas pequenas escapadelas. Ficas condicionado, percebes?” No seu caso, a solução fora enrolar-se com uma das madrinhas entre o copo de água e a primeira noite de núpcias. Desde então, a simples tentação em pensamento angustiava-o e chegou mesmo a dar-lhe vómitos. Paulo ficou tão abalado que nem se lembrou que a madrinha em questão era a sua irmã; perturbava-o mais saber como poderia ele, já casado e tão necessitado de se livrar do adultério, aplicar o ensinamento do amigo. Como que adivinhando a sua angústia, André despediu-se rematando: "E lembra-te que este método, embora concebido originalmente como profilaxia, a julgar pelo que me contam alguns amigos, também é terapêutico". Durante dias, várias ideias desfilaram pela mente de Paulo, sempre lhe escapando a justa medida, porque todas lhe pareceram demasiado inócuas (a colega de trabalho) ou horrendas (a sogra). A oportunidade surgiu com a gravidez da sua mulher. Logo na noite após o parto, Paulo procurou uma antiga amante. Na manhã seguinte, era um saco de remorsos e jurou nunca mais ser infiel à sua mulher. A verdade é que o estratagema não funcionou. Desesperado, pediu o divórcio, sem nunca lhe contar as suas  aventuras. E logo procurou novo casamento, mostrando na escolha das madrinhas um interesse que a noiva interpretou como prova do seu amor. Tamanho apego ao protocolo é raro, inclusive nas profissões mais exigentes.

04
Mai17

Maçonaria e Opus Dei


Eremita

Não abordo estes temas porque existe um conflito de interesses. É verdade. É verdade, meus caros. Eles nunca estiveram interessados em convidar-me e eu estive sempre interessadíssimo em poder dizer que recusei o convite, sobretudo quando soube que alguém que muito admiro foi assediado pelas duas instituições na mesma semana. 

03
Mai17

O pequeno Aníbal


Eremita

 

Há uns dias, a Marta chegou a casa com marcas de uma dentada no antebraço. Na escola, não nos quiseram dizer por quem fora mordida, para preservar o tecido social. Pareceu-me sensato, apesar da minha curiosidade. O episódio repetiu-se depois três vezes: uma mordidela no braço, dois parêntesis curvos, claros sinais de uma mordidela de mamífero. Parece que morder é uma mania entre alguns bebés e crianças. Segundo a educadora, apenas a Marta é mordida, o que trouxe à lembrança aquelas cenas em que o predador se concentra na presa mais frágil da manada de gnus e me deixou apreensivo quanto ao futuro, tudo isto ao som da música de Antón García Abril.

 

À terceira mordidela, por canais oficiosos, ficámos a saber quem anda a morder a Martinha. Chamemos-lhe Aníbal. Ainda não me cruzei com o Anibalzinho, mas já ando a calibrar o olhar com as doses certas de repreensão, ameaça e - mesmo no fim, a rematar - empatia: "não te preocupes, Aníbal, navegamos todos na barcaça da condição humana" (ainda não tem dois anos, mas um dia perceberá as minhas palavras). Enquanto o confronto não sucede, resta-me gerir as emoções. Este vídeo de Louis C.K. sobre o seu ódio a meninos, pareceu-me adequado.

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